17 de junho de 2010

O fundamentalista sou eu?

Pessoa que me é muito querida e cujas opiniões (raríssimas) muito prezo, outro dia acusou-me de ser fundamentalista sobre a questão religiosa. Dito de outro modo, acusou-me de ser intransigente no meu ateísmo.

Há algum tempo que queria escrever sobre esta questão e essa crítica deu-me a motivação necessária.

path5216 De um modo geral, nos últimos tempos tenho apoiado as intervenções do Novo Ateísmo, expressas a nível internacional por Richard Dawkins, Dan Dennett, Sam Harris e Christopher Hitchens, e a nível nacional por Ricardo Silvestre e o seu Portal Ateu. Concordo plenamente com as suas acções, que deram ao humanismo laico e ao ateísmo uma notoriedade nova. Havia um consenso artificial que eles romperam: os responsáveis religiosos emitiam as suas opiniões intransigentes sobre tudo e mais alguma coisa e os descrentes calavam-se discretamente.

Esse consenso fingido desapareceu. Os ateus agora não se calam na expressão das suas opiniões e na crítica das posições das organizações religiosas, dando voz a largos sectores da população até agora sub-representados no diálogo público em todas as democracias. Isso incomoda muita gente, incluindo alguns ateus discretos.

A mim não incomoda nem um bocadinho. Não perco uma oportunidade de atacar, com filosofia ou humor, a religião organizada. Sou fundamentalista?

Bem… a resposta não é sim ou não. Vamos por partes.

O amor impossível

Ao nível dos princípios, sem dúvida que tenho o direito de exprimir as minhas ideias sobre religião, como qualquer outra pessoa, certo?

Não proponho que a religião deva ser proibida, não mando calar ninguém que me queira vender o seu caminho para a vida eterna, não escarneço de quem pratica o seu culto, não pretendo ser mais inteligente que outros por não acreditar naquilo em que acreditam. Mas tenho firmes opiniões sobre estes assuntos e não vejo razão para me calar.

Mas para além da questão dos princípios, há alguns aspectos curiosos nos diálogos religiosos. O primeiro é o problema afectivo. Para um ateu, o assunto Deus não tem, em princípio, qualquer carga afectiva. Discutir se algum deus existe tem a mesma importância de discutir qualquer assunto mundano. A discussão pode tornar-se acalorada, mas não é pelo assunto.

(Exceptuam-se casos em que o ateu se sinta excepcional ou superior por ter descoberto algo que os outros ainda não atingiram, ou tenha sentimentos de perseguição por pertencer a uma minoria semiclandestina, ou ainda agravos antigos que lhe possa ter causado a religião no passado; eu critico activamente tais atitudes em mim próprio e a maioria dos ateus que conheço faz o mesmo.)

Para o crente, pelo contrário, o assunto é sempre muito emocional. O crente tem uma relação afectiva com o seu deus (ou com a imagem do deus, na minha opinião). Discutir se o objecto do seu amor é real ou imaginário nunca pode ser uma questão neutra. É como dizer a uma mãe que o seu bebé não é um encanto, ou afirmar a um benfiquista que o seu clube não é o maior do mundo.

O crente pode temer, além disso, que o seu deus se ofenda com a distinta lata de alguém não acreditar que ele existe. Pode ser levado a distanciar-se do ateu, para que o seu deus não o envolva na sua cólera.

Além disso, aqui e agora, desconfio que todos os crentes têm dúvidas. Muitas vezes, o calor dos argumentos exprime uma discussão interna que dilacera o espírito do crente. Conheço casos de pessoas que defenderam apaixonadamente as suas convicções religiosas até ao dia em que descobriram, subitamente, que já não as tinham. E claro que já ouvi falar de casos com percurso exactamente ao contrário.

É por essas e por outras que raramente me envolvo em discussões com crentes sobre a existência de algum deus. Não há grande coisa a ganhar, salvo acrimónia pessoal. Não me coíbo de afirmar aquilo em que (não) acredito, mas não faço questão de provocar discussões.

Públicas virtudes

Já o caso é diferente nas minhas posições públicas, no meu blogue, no Facebook, ou mesmo em grupos não religiosos. Aí exprimo claramente a minha posição, sem paninhos quentes. Quem não quiser ler não lê. Sou um cidadão maior e vacinado e tenho direito à minha tribuna.

Porquê? Porque posso. Sei escrever, umas vezes com mais piada que outras, e tenho prazer em expor a minha opinião. E sobretudo porque quero contribuir para que a minha corrente de opinião tenha expressão na sociedade. Quero que tenha notoriedade, porque é essa notoriedade assegura a diversidade essencial à vida democrática e assegura um diálogo constante nas cabeças de todos, crentes e não crentes.

Alguns podem sentir-se chocados e preferiam que eu me calasse? Sem dúvida. Mas enquanto se sentem chocados, vão absorvendo os meus argumentos. Um dia, quem sabe, talvez se “convertam”…

A seguir vou escrever outra mensagem sobre assuntos bem mais complicados. Sobre que parte da religião considero positiva para as pessoas e que parte da religião considero nociva. Portanto, vou exprimir um espírito nada fundamentalista.

7 comentários:

  1. É preciso ter lata para te chamar fundamentalista neste assunto. Quanto a mim, subescrevo integralmente o teu texto mas ainda vou mais longe. Se eu quiser ser verdadeiramente honesto comigo próprio e deixar de proteger a quem a minha opinião possa ferir, e se tentar fazer uma análise o mais fria e seca possível do discurso dos "religiosos" tenho inevitavelmente de os considerar idiotas, aka, de baixa inteligência. As bases da sua crença são absurdas, sem qualquer tipo de apoio nas evidências, os registos escritos em que se apoiam não têm credibilidade, etc. Qualquer pessoa minimamente racional e inteligente deveria levantar imensas dúvidas sobre a religião. Acontece que, tal como disseste no início do teu texto, a relação com a religião é afetiva e não racional. Não se acredita em deus porque se deduziu que deus existe mas sim porque se sente a necessidade afetiva de acreditar num deus.

    No dia-a-dia, os religiosos merecem-me o mesmo respeito que os outros e defendo o seu direito a acreditar e praticar a sua religião em paz mas sinceramente não merecem o meu respeito intelectual.

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  2. Rui, o problema da inteligência não é uma boa perspectiva. Para além de ser um insulto aos crentes, eu conheço algumas pessoas brilhantes que são religiosas.
    Faz-me confusão porque é que essas pessoas não atingem conclusões que para mim são evidentes? Claro que faz. Mas a única conclusão a tirar daí é que eu estou convicto do que penso. Por isso é que acho que as coisas são evidentes.
    Isso traz à baila dois assuntos muito interessantes: porque é a religião tão persistente nas sociedades humanas e que serviço presta (se presta algum) para assegurar a sua permanência. Como disse, num próximo post falarei sobre isto.
    Outra questão muito interessante é saber como se formam as nossas convicções. Porque é que um indivíduo adere ao Benfica e outro ao Sporting? Porque é que o Paulo Portas é de direita e o Miguel Portas de esquerda?
    Tiveram alguma discussão intelectual sobre a bondade do Benfica ou o progressismo político? Ou foram factores afectivos, algum role model, algum role model negativo, o quê precisamente?
    Pano para mangas, não é?

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  3. Sobre o problema do Paulo e do Miguel Portas, pode-se usar a Teoria do Caos, na parte em que diz que diferenças minúsculas podem resultar, durante o desenvolvimento, em divergências espectaculares. A parte chata dessa visão é que considera os aspectos identitários, os que são mais queridos na nossa personalidade, perfeitamente aleatórios.
    Quanto mais se procura analisar racionalmente a nossa espécie, mais a sua racionalidade encolhe. É uma porra!

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  4. "Rui, o problema da inteligência não é uma boa perspectiva."

    Uma boa perspectiva... interessante. Boa ou má em que sentido? Racional? Tens alguma objeção racional ao meu raciocínio? Ah! não é boa pq ofende os crentes e pq tu tens amigos que, na tua opinião, contrariam a regra... achas que estás a ser objetivo ou emocional?... É que deste lado parece mesmo que estás a defender-te da reação dos teus amigos. Sabes que eu tb tenho de viver com muitos amigos e familiares religiosos e por isso normalmente fico calado neste assunto. Mas acho que já basta de ouvir barbaridades sem lhes dar resposta.

    A inteligência é mensurável, ainda que com algumas dificuldades e imprecisões. A questão da relação de causa-efeito entre inteligência e religiosidade resolve-se com bons estudos. Claro que isso descreve um todo e podem haver excepções. Não sabes se essas pessoas que tu consideras brilhantes (opinião subjetiva), são simplesmente excepções à regra, explicadas por um outro fator que não estamos a considerar. Não as uses isoladamente para apoiar ou contrariar uma regra geral.

    Quanto ao Paulo e Miguel Portas. Porque é que partes do princípio que são iguais ou que têm apenas pequenas diferenças? Quer em termos genéticos, quer em termos de ambiente/desenvolvimento/educação podem ter tido diferenças bastante significativas, mais do que suficientes para explicar as suas divergências políticas.

    O teu artigo é sobre a religião mas o meu comentário tem mais a ver com a falta generalizada de raciocínio crítico e objetivo, da qual a crença religiosa é só mais um sintoma. Quanta gente engole notícias de jornal falaciosas e manipuladoras sem por em causa? Ou discutem fervorosamente o assunto A ou B baseados em fontes de informação altamente duvidosas?

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  5. Perspectiva má no sentido político.
    Insultar as pessoas normalmente não é uma boa estratégia de comunicação – por muito que apeteça.
    Não querer ofender os amigos geralmente é um bom princípio e concorre para a nossa sobrevivência & para a paz no Urbi et Orbi. Se se pensar mais um bocadinho geralmente consegue-se dizer as coisas sem ofender os amigos.

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  6. Sim todos temos direito a tudo isso é verdade. E quando um ateu deixa de o ser e passa a acreditar num Deus qualquer, será que passou a ser burro ou qualquer outra coisa pior....

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