20 de maio de 2013

Guerra de informação... contra nós!

Já o velho Alvin Toffler tinha dito que agora as armas decisivas dos conflitos seriam não bombas mas informação. Há muito que assistimos a isso, mas o público não percebeu ainda bem. Continua a ver TV, ler jornais e a consultar a Internet partindo do princípio que a informação que lá encontra é, essencialmente, desinteressada. Alguma é, mas a maior parte não. E quanto mais pesados os interesses em jogo, mais a informação se transforma em propaganda.


Estamos já bastante vacinados contra a velha propaganda à Salazar, grosseira e abrutalhada. A propaganda moderna é bem mais subtil e encontra-nos muitas vezes desprevenidos e crédulos.

Vejam só este caso. Governos de todo o mundo, em particular na Europa e nos EUA e muito em particular no que toca a nós, portugueses, têm andado a levar a cabo medidas brutais de austeridade, pondo em causa a generalidade das conquistas sociais e mesmo em contravenção de regras económicas geralmente aceites, sobre desinvestimento e recessão.

De onde vem esta nova teoria económica original que tem orientado todas estas cabeças pensantes?

Uma das fontes principais dessa forma de pensar generalizada pode ser traçada a um documento publicado em 2010 por dois economistas da prestigiada Universidade de Harward Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, intitulado Growth in a Time of Debt (Crescimento em Tempo de Dívida) (aqui, PDF em inglês). Mesmo sem ser submetido a revisão por pares e considerado-se um "documento de trabalho para discussão e comentário", o trabalho dizia o que todos os fundamentalistas fiscais e podadores do estado queriam ouvir. Afirmava, com base na análise de dados econométricos mundiais, que qualquer nação que deixasse a dívida nacional aproximar-se dos 90% do Produto Interno Bruto estava à beira de uma recessão inevitável.

Claro que o paper for citado e recitado por todos, desde os talk-shows da Fox News até ao candidato republicano à vice-presidência dos EUA, Paul Ryan, sem esquecer, porque nos diz diretamente respeito, as cimeiras da Comunidade Europeia e os discursos de Angela Merkl e Jean-Claude Trichet. Cortar é preciso, dizem todos, e como prova todos citam Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff.

Mas enquanto milhões sofriam com o agravamento do desemprego ou com várias formas de empobrecimento, à medida que tais políticas eram postas em prática, começaram a aparecer problemas na frente científica.

Vários economistas que se debruçaram sobre o paper de Reinhart e Rogoff queixaram-se de que não conseguiam duplicar os resultados daqueles dois economistas. Como se sabe, isso é um sinal de alarme muito sério. Qualquer achado científico deve poder ser duplicado por outros pesquisadores, senão a coisa começa a cheirar mal.

Pediram então esses desmancha-prazeres críticos para ver e consultar a folha de cálculo Excel em que os autores afirmavam ter feito o processamento dos dados. Os autores negaram-se a permitir tal coisa. O odor agravou-se.

Mas recentemente, um jovem estudante mestradista da Universidade do Massachusetts, Thomas Herndon, foi autorizado a ver a famosa folha de cálculo. Talvez se supusesse que era muito verde e não ia dar por nada. Mas deu. Descobriu que a folha de cálculo tinha "erros básicos nas fórmulas", que os autores tinham tomado liberdades com o peso atribuído a alguns factores e, espanto, tinham excluído as economias do Canadá, Nova Zelândia e Austrália porque destoavam da narrativa que lhes interessava.

Aqui temos dois vídeos onde Steven Colbert explica de forma bem cómica, mas não menos verídica, o que se passou:




Mas agora podemos perguntar: o par de economistas de Harvard enganou-se, pronto, mas não devem ter feito de propósito, pois não? Não vamos ver aqui uma conspiração, pois não?

Na verdade, examinados os factos, é impossível não perceber o que se passa. Uma das forças mais poderosas no sentido do conservantismo fiscal e da destruição dos serviços de tipo social e de saúde é o multimilionário Peter Petersen, que gastou 500 milhões de dólares em lobbying com esse fim. Ora Carmen Reinhardt e Kenneth Rogoff estão ligados ao Instituto Petersen de Economia Internacional, criado e financiado pelo tal milionário.

Não se trata de cientistas à procura da verdade, mas de militantes ao serviço de uma causa.

Agora que se sabe que a base teórica destas políticas desgraçadas era falsa, será que alguma coisa vai mudar? De forma nenhuma. Os visados já fizeram saber que as conclusões continuam corretas, os factos que se lixem. Os poderes que os apoiaram continuam a apoiá-los e os media que andaram ao colo com uma ideia económica mal cozinhada este tempo todo vão continuar a ladrar à voz do dono.

E aqui na Tugalândia, cá temos o inefável Gaspar, imperturbável, a apresentar um novo livro da famosa/infame dupla, com prefácio seu e tudo. Com notável sentido do timing, esta estreia coincide com o estourar do escândalo de que tenho estado a falar. Escuso de insultar o sinistro ministro, deixo essa tarefa para os leitores: Gaspar apresenta nova obra da dupla Reinhart & Rogoff (RTP).

Mas é uma ocasião notável para percebermos as figuras que nos desgovernam como peças de uma maquinaria mundial.

Uma maquinaria que fabrica informação para nos tramar.

A primeira defesa, antes de tudo o mais, é percebermos que nos estão a mentir.


Mais informação:

Freethought Blogs, Mano Singham, The phony scare about the debt exposed

Freethought Blogs, Mano Singham, Further revelations on the Reinhart-Rogoff fiasco

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