2019-05-20

A invasão islâmica

Muçulmanos na Europa

A Pew Research, fundação dos EUA vocacionada para a investigação da demografia religiosa mundial – geralmente respeitada pelo uso de metodologia científica e resultados confiáveis – publicou recentemente um estudo sobre as expetativas da evolução da representação dos muçulmanos na Europa. Este assunto tem sido, nos últimos anos, sujeito a projeções alarmistas de base xenófoba, como parte da narrativa nacionalista de que a Europa "ocidental e cristã" estaria em perigo, com os muçulmanos, brevemente maioritários, a tomarem o poder e a instituírem um califado, com a imposição da lei xaria e dos véus nas mulheres.

O estudo mostra que não há razão para tais alarmismos, para lá da pura xenofobia.

Os países europeus onde os muçulmanos não têm números meramente residuais agrupam-se numa diagonal que atravessa o continente (que aqui inclui a Comunidade Europeia, a Suíça e os países escandinavos) de sueste para noroeste. Os números mais altos estão na Suécia na França, 8-9%. A Alemanha, de cujos problemas tanto se fala, pouco excede os 6%. A Bulgária está nos 11%, mas parte dos muçulmanos são autóctones. O lugar com mais muçulmanos é Chipre (25%), devido a circunstâncias particulares. Também aqui há uma parte da população autóctone aderente ao Islão.

Os autores do estudo avisam logo que previsões sobre este assunto são impossíveis, visto que o fluxo de refugiados e migrantes económicos para a Europa depende de factores como a existência de paz ou guerra, estabilidade ou instabilidade política nos países de origem, maior ou menor prosperidade e oferta de emprego tanto nos países de origem como na Europa, ou até os riscos da instabilidade climática, de fomes, secas e outras catástrofes humanitárias.

Não querendo fazer previsões, os autores apontam, em vez disso, para três cenários:

Mesmo que toda a migração para a Europa pare imediata e permanentemente – um cenário de “migração zero” – a população muçulmana da Europa ainda deve subir do nível atual de 4,9% para 7,4% até o ano 2050. Isso ocorre porque os muçulmanos são mais jovens (em média 13 anos) e têm maior fertilidade (um filho a mais por mulher, em média) do que outros europeus, refletindo um padrão global.

Um segundo cenário de migração “médio” pressupõe que todos os fluxos de refugiados vão parar a partir de meados de 2016, mas que os níveis recentes de migração “regular” para a Europa continuarão (isto é, migração daqueles que vêm por outras razões sem ser o asilo; nos termos abaixo). Sob essas condições, os muçulmanos poderiam atingir 11,2% da população da Europa em 2050.

Finalmente, um cenário de migração “alto” projeta que o fluxo recorde de refugiados na Europa entre 2014 e 2016 continue indefinidamente no futuro, com a mesma composição religiosa (ou seja, principalmente composta de muçulmanos), além do fluxo anual típico de migrantes regulares. Nesse cenário, os muçulmanos poderiam representar 14% da população da Europa até 2050 – quase o triplo da participação atual, mas ainda consideravelmente menor do que a população de cristãos e pessoas sem religião na Europa.

Os fluxos de refugiados dos últimos anos, no entanto, são extremamente altos em comparação com a média histórica nas últimas décadas, e já começaram a declinar à medida que a União Europeia e muitos dos seus estados membros fizeram mudanças políticas destinadas a limitar os fluxos de refugiados.

Não considero alarmantes, em nenhum aspeto, os números projetados neste estudo. Nas piores condições possíveis, as projeções apontam para num certo número de países, a proporção poder atingir os 14% médios na Europa, embora na Suécia, que já tem a proporção mais alta, possam atingir os 30%. Mas essas condições são muito improváveis.

A situação atual é excecional e resultou de circunstâncias políticas como o colapso da Líbia, a guerra civil na Síria e o assalto do Daesh no Iraque e na Síria, além de instabilidade política em muitos países do Médio Oriente. Não é de esperar que a situação se mantenha e, como o estudo aponta, já começou a diminuir muito.

Há vários factores a considerar neste fenómeno. Em primeiro lugar, a própria condição de refugiado corresponde a uma grande violência. O socorro à sua situação humanitária e a oferta de condições em que possam continuar a viver enquanto esperam poder decidir se voltam aos seus países deve ser uma decisão moral antes de política. Essas condições incluirão alojamento, alimentação, saúde, educação, mas também, inevitavelmente, vigilância policial e até ação política para separar eventuais contaminações de gente perigosa.

Há fontes a apontar para o facto de que a redução do número de refugiados seria maior se as razões que os levaram a fugir fossem resolvidas. Parece óbvio que a política levada a cabo pelos Estados Unidos, pela Nato e por países europeus no Norte de África, Levante e Médio Oriente é culpada da destruição de vários estados, com o colapso de infraestruturas de que milhões dependiam, e pela implantação em seu lugar de estados falhados e de situações de conflito permanente. Exemplos: Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Iémen. Inverter a diplomacia e a intervenção militar dos EUA, da Nato e de países europeus como o Reino Unido, a França e a Itália, em favor de políticas de estabilização, diálogo, paz e reconciliação decerto permitiria a muitos não ter que fugir das suas terras para salvar as vidas, e a muitos refugiados regressar.

Duas mudanças diplomáticas, em particular, parecem óbvias. Por um lado, deixar de favorecer cegamente Israel e de apoiar as suas posições belicistas no Levante e no Médio Oriente, defender o direito dos palestinianos à sua pátria, condenar a imposição de um regime de apartheid na Palestina e pressionar para a negociação de uma paz justa. Por outro lado, pressionar fortemente o regime da Arábia para deixar de subsidiar massivamente o islamismo extremista, desde as madrassas do Paquistão às organizações de aliciamento nos países ocidentais, incluindo o apoio direto a muitos grupos terroristas.

Políticas de ajuda ao desenvolvimento económico, social e político dos países de origem dos migrantes económicos também aliviariam a sua necessidade de migrar, já que, em muitos casos, encontrariam condições domésticas favoráveis a fazer pela vida. Isto tem sido apontado por inúmeros especialistas em migrações.

O que dava mesmo jeito, tanto para os que já cá moram como para os outros, era acabar com o neoliberalismo. Mas isso não é conversa para hoje.

O medo do estrangeiro

Dentro da Europa, é preciso reconhecer que o acolhimento aos migrantes não tem sido o melhor. Em muitos lugares as populações migrantes são empurradas para uma situação marginal nas sociedades em que procuram integrar-se. A revolta justa dessas populações contra as condições em que vivem tem sido usada por organizações racistas e xenófobas para acicatar o medo ao estrangeiro. É um pouco a situação do ovo e da galinha: os estrangeiros são marginalizados, a falta de perspetivas e de integração social leva à prevalência de situações de delinquência entre essas populações (mas atenção, a delinquência apercebida é sempre muito maior que a real, já que os mesmos delitos entre a população local não suscitam alarme). O migrante é então rotulado como perigoso, criminoso, desordeiro, que deve ser ainda mais marginalizado e perseguido policialmente, para defender a sociedade local da sua presença.

As políticas de integração, não a sua insuficiência, são consideradas pelos xenófobos como as culpadas do perigo do migrante. Foram tratados bem de mais, e por isso abusaram. O que eles precisam é de porrada e de serem expulsos.

Na verdade, a Europa precisa dos migrantes. O declínio da natalidade e o envelhecimento da população apontam para uma necessidade de rejuvenescimento. Inúmeros governos europeus têm tentado aumentar a natalidade, dando toda a espécie de prémios pelo nascimento de crianças. Em geral, o efeito dessas medidas tem sido nulo. Importar gente jovem e produtiva é a solução óbvia, tanto mais fácil porque eles próprios querem vir para a Europa.

O problema é que essas populações trazem com elas a diferença. Têm peles menos pálidas, adoram outros deuses, têm outros costumes, gostam de outras comidas, dançam outras músicas.

É aqui que as ideias se chocam. Para as mentes conservadoras, a imagem mítica do seu país antigo que aprenderam nos livros de história de ideologia nacionalista deve ser preservada a todo o custo. O contacto com diferentes culturas parece-lhes sempre um perigo, o perigo do contágio que pode comprometer a pureza (cultural, racial, religiosa) da sua nação.

Compreende-se. Para quem pensa que o seu país é a última bolacha do pacote, as importações de cultura, DNA ou de ideias religiosas do estrangeiro só pode piorar essa essência mágica.

Essa ideia provinciana é má. Hoje sabemos que os diálogos e contactos entre as culturas as enriquecem a todas. O desenvolvimento de todas as nações ganha com a partilha de novas ideias. Nenhuma comunidade pode passar sem recorrer ao diálogo alargado. Não se pode esperar, isolado, ter todas as boas ideias. Pior, nem sequer se pode esperar, isolado, ter algumas boas ideias, porque dependem de um diálogo numa cultura mundial. Cada ideia, seja ela uma atividade cultural, uma nova tecnologia, uma prática inovadora, é sempre um acrescento a outras ideias que correm o mundo todo.

Em tempos, a Europa foi a sociedade mais aberta do mundo inteiro, embora fosse uma abertura feita de conquista, invasão e submissão de outros povos, e a abertura e a curiosidade sobre o que se passava no mundo era muito restringida pela rapina colonial e pelo fanatismo religioso, mas era a sociedade mais aberta dessas épocas e isso trouxe-lhe uma prosperidade fantástica. Prosperidade criada sobre a submissão e exploração de outros povos, é verdade.

Mas os antigos senhores dos países europeus não se preocuparam com a pureza racial quando se puseram a importar escravos de África, nem com a pureza religiosa quando se dedicaram a evangelizar outros povos, com Inquisição e tudo. Muito menos manter a pureza nacional foi obstáculo ao saque das riquezas estrangeiras ou à exploração do seu trabalho.

O apelo a manter a pureza da cultura europeia ou nacional é uma noção reacionária e estéril. É voltar ao passado, ainda por cima a um passado que nunca existiu. É o slogan de Donald Trump, Fazer a América Grande de Novo, é ainda uma estrofe do nosso hino nacional: Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal.

Para dar um exemplo culinário, a abertura ao estrangeiro trouxe-nos o cuscus do Magrebe, a moamba de Angola, a cachupa de Cabo Verde, e também o milkshake dos EUA, o sorvete da Turquia, a feijoada brasileira, a sericaia da Índia, o chau-min da China, o sushi do Japão. Quem contacta com a nossa cozinha pode bem levar para o estrangeiro o pastel de Belém, a chanfana, a sardinha assada. No entanto, a cachupa feita cá já não é exatamente a de Cabo Verde, é insensivelmente transformada, pela disponibilidade dos ingredientes ou pelo gosto de quem cozinha, numa cachupa portuguesa. Uma chanfana cozinhada em Budapeste terá certamente um gosto um tanto húngaro.

Deus, Alá, Jeová... ou nenhum deles

Agora, quanto ao problema religioso. Sobre o perigo muçulmano, há muitas indicações de que, sem o impulso extremista e os subsídios da casa de Saud ou dos aiatolas do Irão, o Islão se comporta como qualquer outra religião de massas. Ou seja, será uma parte dos seus hábitos quotidianos, uma componente da cultura das comunidades e um factor na sua ideologia. Tal como o cristianismo hoje.

Os migrantes não andam à procura de problemas. Se se conseguir evitar que as condições sociais levem parte destas populações ao desespero, não será a sua religião capaz de criá-los.

Antes do último quartel do século XX, o Islão quase nunca contribuiu para a radicalização política das sociedades onde era maioritário. Muitos dos países do Oriente Médio, do Levante e do Magrebe tinham, no século XX, regimes seculares. Frequentemente autoritários, mas seculares. Os dois grandes eventos que mudaram a situação foram a Revolução Iraniana e o uso, pelos EUA, pelo Paquistão e pela Arábia Saudita, de bandos armados extremistas religiosos como tropa de choque, no Afeganistão, e na Caxemira.

Os grandes meios para estancar essas fontes de radicalismo não são militares nem policiais, mas diplomáticos. Trata-se de apaziguar os povos de religião maioritária muçulmana, respondendo aos seus agravos, parando o apoio ao projeto colonial israelita, acabando com as intervenções imperialistas à volta do petróleo e obrigando a casa de Saud a parar com os seus subsídios aos radicais islâmicos de todo o mundo. Já foi mais difícil, quando o ouro negro dominava tudo. Agora a situação é diferente, já que estamos em transição para uma realidade energética não dominada pelo petróleo.

A situação religiosa na Europa, entre as maiorias culturalmente cristãs, é marcada pelo declínio da fé religiosa. Números crescentes de europeus declaram-se não religiosos e muitos mais, provavelmente a maioria, dizem-se formalmente religiosos mas não praticam o culto de qualquer religião. Há estudos que indicam que esta situação irá influenciar fortemente os migrantes. A influência cultural não se faz só numa direção.

As liberdades individuais são fortemente contagiosas. As mulheres migrantes rapidamente vão aderir a uma conceção humanista ou feminista da sua identidade e exigir os seus direitos, fragilizando as patriarquias familiares dominantes nas suas sociedades. A juventude já rompeu largamente com as atitudes culturais dos pais. Até a natalidade, dizem estudos recentes, tende a descer rapidamente para níveis europeus, movida pelas aspirações das mulheres, que já não aceitam ser apenas mães como carreira.

Qual Islão?

O Islão não é uma religião monolítica. Para além da grande divisão entre sunitas e xiitas (hoje em dia em guerra aberta em vários lugares), há muitas tendências, seitas e cultos diferentes. Muitas dessas tendências são tão pacatas como o mais pacato dos cristãos.

Formas de pensar mais modernas precisam de surgir, dentro das correntes islâmicas. Estão a surgir, muitas vezes entre as comunidades que vivem na Europa e nos Estados Unidos, gozando de liberdade política e religiosa, fora da vigilância dos extremistas. Na verdade, é de esperar que se passe com o Islão o que se passou historicamente com o cristianismo: uma parte, naturalmente pequena, abandona a religião para o ateísmo ou o agnosticismo; outra parte vai procurar adaptar as suas crenças religiosas a uma nova situação social e política, criando correntes islâmicas liberais. A maioria continuará sem questionar a religião, mas praticando cada vez menos e concedendo-lhe cada vez menos importância nas suas vidas.

O estudo a que me refiro prevê uma perda de fiéis do Islão de cerca de dez por cento até ao ano 2050. Acho pouco. As tendências atuais apontam para perdas maiores, sobretudo em direção à indiferença religiosa que impera na Europa. A esses números vai somar-se a redução na prática religiosa, o que tornará os fiéis indiferentes aos comandos dos seus líderes religiosos. Passa-se isso com a Igreja Católica, que tem uma posição extremista contra os anticoncecionais, mas em que as mulheres católicas tomam a pílula ou usam outros métodos numa proporção muito semelhante às não católicas.

(Sim, o cristianismo também teve uma recaída extremista, sobretudo nos EUA. Essa recaída foi essencialmente provocada por uma reação política e foi um instrumento dessa reação. Todos os números indicam o fim quase abrupto de tal onda. Tal como o Islão, cuja doença fundamentalista foi criada e financiada por interesses políticos e também dá indicações de estar a terminar.)

O que não ajuda nada a integração das populações de religião islâmica na Europa são duas coisas: uma situação de discriminação e provocação xenofóbica que leve as pessoas a agarrar-se à sua religião como instrumento de revolta e de defesa identitária; e também o pensamento imperialista que tende a justificar as atrocidades militares cometidas contra os países islâmicos com o caráter particularmente maléfico do Islão.

O Corão afirma uma quantidade de coisas execráveis, como as afirma a Bíblia. Não é pelo que lá está escrito que as pessoas se vão tornar especialmente más. A Bíblia (como o Corão) aceita a escravatura, mas hoje quase nenhum cristão a aprova. Ignoram o que lá está escrito, agarrando-se às partes bonitas.

A propaganda islamofóbica não ajuda os que tentam abandonar a religião. Os grupos ex-islâmicos que conheço vivem entalados entre dois fogos. Ao lutar por liberdades fundamentais nos seus países de origem, são chamados traidores pelos islamitas por ajudarem os EUA, a Nato ou os cristãos em guerra com o Islão; e são atacados por uma certa esquerda que acha que não se deve lutar por liberdades nos países islâmicos, deve-se apenas defendê-los do imperialismo. Alguns desses ex-islâmicos sentem-se assim tentados a aproximar-se da direita, ao serem escorraçados pela esquerda. Direita essa que os vê com a desconfiança da xenofobia, por manterem os traços culturais das sociedades em que foram criados.

Abertura, a arma de uma sociedade aberta

É fundamental ajudar tanto os ex-islâmicos como os islâmicos liberais a criar um pensamento de sociedade aberta. Fundamental para a estabilidade dos países onde estão como migrantes, fundamental também para facilitar uma evolução democrática dos seus países de origem. Isso seria bom para a Europa, mas sobretudo seria bom para esses países, para quem lá vive e para quem deseja ter condições para regressar.

Quem vive na União Europeia, preocupado com os seus problemas correntes e os seus medos, não faz ideia da atração extraordinária que a União exerce perante os seus vizinhos, devido à sua liberdade e à sua abertura. Milhões de cidadãos submetidos a regimes obscurantistas e desumanos esperam um dia poder criar sociedades abertas nos seus países. Fugir ou emigrar para a Europa é opção só se tal sonho não for possível.

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