27 de dezembro de 2020

A nova esquerda radical

Por Fabien Escalona, doutor em ciência política (Universidade Grenoble-Alpes), colaborador científico da Cevipol (Université Libre de Bruxelles). Libération, 30 de agosto de 2017

Há uma semelhança de família entre Syriza, Podemos e a France Insoumise [e o Bloco de Esquerda, nota do tradutor]. Uma força que se cristaliza perante uma classe política em desacordo com o consentimento da população.

A France Insoumise em França, o Podemos na Espanha, o Syriza na Grécia, várias formações vermelho-verdes noutras partes da Europa... O quadro ainda é impressionista, mas não já podemos dizer que é incoerente. Essas forças, surgidas em poucos anos, apresentam uma “semelhança de família”. Para entender isto, é necessário recorrer a uma análise “histórico-conflituosa” destes partidos, considerá-las como agentes mobilizadores e mediadores de grupos sociais cujos interesses e valores defendem, dentro dos nossos regimes representativos.

19 de dezembro de 2020

Os esquadrões da morte afegãos da CIA

The Intercept documenta atuações terroristas dos EUA no Afeganistão:

"O zumbido de um drone à noite foi o primeiro sinal de problemas.

Em seguida, veio o rugido de um avião maior, a voar baixo, que alertou os residentes da aldeia afegã de Omar Khail de que havia soldados nas proximidades. Homens camuflados percorriam as ruas falando pachto e inglês. Era dezembro de 2018 e o ar estava gélido. Seguiram para a madrassa, ou escola religiosa, onde mais de duas dúzias de meninos com idades entre 9 e 18 anos dormiam no chão de vários dormitórios.

Um vizinho que observava de uma janela do outro lado da rua viu um flash e ouviu uma forte explosão quando o portão da frente da madrassa foi arrombado. Lá dentro, o barulho acordou Bilal, de 12 anos, que estava encolhido numa sala com outros nove meninos, quando um soldado afegão irrompeu pela porta.

'Acorda!' o homem gritou em pachto, apontando para os meninos um a um com o cano da sua espingarda, no qual estava montada uma lanterna. Um segundo soldado entrou, escolheu os dois rapazes mais altos e conduziu-os porta fora. O primeiro soldado virou-se para sair, mas antes disso, proferiu um aviso ao resto dos meninos que se agachavam diante dele: 'Se eu os encontrar nesta madrassa novamente, não deixaremos uma única criança viva.'

14 de dezembro de 2020

Promessas quebradas

Não é só Trump. Os EUA sempre quebraram
os seus tratados, pactos e promessas

Fontes: Artigo de Annalisa Merelli, no site Quartz, de maio de 1980;

Informação no site da ONG Advocates for Human Rights

Uma das consequências perigosas da violação do acordo com o Irão é a perda de credibilidade dos EUA, dizem os críticos da decisão de Donald Trump, incluindo o ex-presidente Barack Obama. O Irão e todas as outras partes respeitaram os termos do acordo, apontam eles, o que faz os EUA não aparecerem como um parceiro internacional de confiança.

11 de dezembro de 2020

O massacre como ostentação

A

ndo a estudar o uso do terror como parte indispensável da guerra e conto, brevemente, escrever sobre isso. Entretanto, surgiu-me um caso curioso do uso do massacre como forma de ostentação.

4 de dezembro de 2020

Porque sobrevive Freud

Foi desmascarado repetidas vezes – e mesmo assim não conseguimos desistir dele.


Tradução do artigo Why Freud Survives, por Louis Menand, no New Yorker Magazine de 21 de agosto de 2017

Trata-se de uma análise ao livro "Freud: The Making of an Illusion", de Frederick Crews. O livro é um ataque impiedoso ao caráter de Freud e à sua credibilidade científica. O autor do artigo aproveita para traçar um retrato da ascenção e queda da psicanálise, especialmente nos EUA.

Achei bem traduzir, porque aqui entre nós o fantasma da psicanálise ainda se mantém.


S

igmund Freud quase que não conseguia sair de Viena em 1938. Partiu a 4 de junho, no Expresso do Oriente, três meses depois do exército alemão entrar na cidade. Embora a perseguição aos judeus vienenses tivesse começado logo – quando os alemães chegaram, Edward R. Murrow, reportando em Viena para a rádio CBS, foi testemunha ocular do saque de casas de judeus – Freud resistiu aos apelos de amigos para que fugisse. Mudou de ideias depois da sua filha Anna ser presa e interrogada pela Gestapo. Conseguiu resgatar parte da sua família, mas deixou quatro irmãs para trás. Todas morreram nos campos, uma, de fome, em Theresienstadt; as outras, provavelmente gaseadas, em Auschwitz e Treblinka.

Londres era o refúgio de Freud, e amigos instalaram-no em Hampstead, numa grande casa que hoje é o Museu Freud. Em 28 de janeiro de 1939, Virginia e Leonard Woolf vieram tomar chá. Os Woolfs, fundadores e proprietários da Hogarth Press, eram os editores britânicos de Freud desde 1924; a Hogarth publicou posteriormente a tradução em 24 volumes das obras de Freud, sob a direção de Anna Freud e James Strachey, que é conhecida como a Edição Padrão. Este foi o único encontro dos Woolfs com Freud.

1 de dezembro de 2020

A nova/antiga teoria da educação inuit

Achei este artigo tão interessante que decidi traduzi-lo. Sempre me interessaram os problemas da educação, em particular das primeiras idades. Mas aqui estamos na intersecção da educação e da antropologia. Se as ideias aqui expostas têm, sem dúvida, interesse prático e imediato para quem educa, iluminam uma outra questão intrigante:

Será que as modernas teorias de educação — anti-autoritárias, solidárias, inclusivas, respeitadoras da individualidade e agência própria da criança e desenvolvidas no século XX por Piaget, Montessori, Freinet, Gardner, Steiner e outros — são ideias totalmente novas, saídas de mentes de todo originais, ou será que se trata do repor, pelo menos em parte, de práticas muito antigas, vindas de um tempo em que o autoritarismo, a patriarquia e a opressão classista ainda não tinham subvertido em grande parte as relações entre as pessoas? Decerto, a segunda hipótese é para onde aponta este artigo. Leiam e pensem, por favor.


Tradução do artigo How Inuit Parents Teach Kids To Control Their Anger (Como os pais inuit ensinam os filhos a controlar a raiva) do site NPR.

13 de março de 2019, Michaeleen Doucleff e Jane Greenhalgh


Na década de 1960, uma aluna de pós-graduação de Harvard fez uma descoberta marcante sobre a natureza da raiva humana.

Aos 34 anos, Jean Briggs viajou para lá do Círculo Polar Ártico e viveu na tundra por 17 meses. Não havia estradas, sistemas de aquecimento ou mercearias. As temperaturas no inverno podem ultrapassar facilmente os 40 graus negativos.

Briggs persuadiu uma família inuit a “adotá-la” e a “tentar mantê-la viva”, como escreveu a antropóloga em 1970.