4 de dezembro de 2020

Porque sobrevive Freud

Foi desmascarado repetidas vezes – e mesmo assim não conseguimos desistir dele.


Tradução do artigo Why Freud Survives, por Louis Menand, no New Yorker Magazine de 21 de agosto de 2017

Trata-se de uma análise ao livro "Freud: The Making of an Illusion", de Frederick Crews. O livro é um ataque impiedoso ao caráter de Freud e à sua credibilidade científica. O autor do artigo aproveita para traçar um retrato da ascenção e queda da psicanálise, especialmente nos EUA.

Achei bem traduzir, porque aqui entre nós o fantasma da psicanálise ainda se mantém.


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igmund Freud quase que não conseguia sair de Viena em 1938. Partiu a 4 de junho, no Expresso do Oriente, três meses depois do exército alemão entrar na cidade. Embora a perseguição aos judeus vienenses tivesse começado logo – quando os alemães chegaram, Edward R. Murrow, reportando em Viena para a rádio CBS, foi testemunha ocular do saque de casas de judeus – Freud resistiu aos apelos de amigos para que fugisse. Mudou de ideias depois da sua filha Anna ser presa e interrogada pela Gestapo. Conseguiu resgatar parte da sua família, mas deixou quatro irmãs para trás. Todas morreram nos campos, uma, de fome, em Theresienstadt; as outras, provavelmente gaseadas, em Auschwitz e Treblinka.

Londres era o refúgio de Freud, e amigos instalaram-no em Hampstead, numa grande casa que hoje é o Museu Freud. Em 28 de janeiro de 1939, Virginia e Leonard Woolf vieram tomar chá. Os Woolfs, fundadores e proprietários da Hogarth Press, eram os editores britânicos de Freud desde 1924; a Hogarth publicou posteriormente a tradução em 24 volumes das obras de Freud, sob a direção de Anna Freud e James Strachey, que é conhecida como a Edição Padrão. Este foi o único encontro dos Woolfs com Freud.

O inglês era uma das muitas línguas de Freud. (Depois de se estabelecer em Hampstead, a BBC gravou-o, a única gravação desse tipo que existe.) Mas tinha 82 anos e sofria de cancro do maxilar, e a conversa com os Woolfs foi estranha. Ele “estava sentado numa grande biblioteca com estatuetas numa grande mesa brilhante escrupulosamente arrumada”, escreveu Virginia no seu diário. “Um velho encolhido e enrugado: com olhos claros de macaco, movimentos espasmódicos paralisados, inarticulado: mas alerta.” Ele foi formal e cortês à moda antiga e presenteou-a com um narciso. O palco fora cuidadosamente montado.

[Armando Veve / New Yorker]

Os Woolfs não se impressionavam facilmente com celebridades, e certamente não com o cenário. Eles compreendiam a natureza transacional do chá. “Todos os refugiados são como gaivotas com os seus bicos abertos para possíveis migalhas”, observou friamente Virginia no diário. Mas, muitos anos depois, na sua autobiografia, Leonard lembrou-se de que Freud lhe dera um sentimento que, disse ele, “só algumas poucas pessoas que conheci me deram, um sentimento de grande gentileza, mas por trás da gentileza, uma grande força... Um homem formidável.” Freud morreu naquela casa em 23 de setembro de 1939, três semanas após o início da Segunda Guerra Mundial.

Hitler e Estaline expulsaram ambos a psicanálise da Europa, mas o movimento reconstituiu-se em dois sítios onde os seus praticantes eram bem-vindos, Londres e Nova Iorque. Produto da Mitteleuropa, antes centrada em cidades como Viena, Berlim, Budapeste e Moscovo, a psicanálise foi, portanto, de forma improvável transformada num fenómeno médico e cultural amplamente anglo-americano. Durante os doze anos em que Hitler esteve no poder, apenas cerca de cinquenta analistas freudianos migraram para os Estados Unidos (um país que Freud visitou apenas uma vez e que desprezava). Eles foram no entanto, alguns dos maiores nomes da área, e tomaram conta da psiquiatria americana. Após a guerra, os freudianos ocuparam cátedras universitárias; ditaram os currículos das escolas médicas; escreveram as duas primeiras edições do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (o DSM). A teoria psicanalítica orientou o tratamento de pacientes hospitalares e, em meados da década de 1950, metade de todos os pacientes hospitalares nos Estados Unidos foram diagnosticados com transtornos mentais.

Mais importante ainda, a psicanálise ajudou a transferir o tratamento da doença mental do asilo e do hospital para o consultório. A psicanálise é uma psicoterapia, o que significa que as pessoas que, de outro modo, funcionariam normalmente, podiam ter acesso ao tratamento. Quanto maior o número de pessoas que desejavam esse tipo de terapia, maior a procura de terapeutas, e as décadas do pós-guerra foram um período de boom para a psiquiatria. Em 1940, dois terços dos psiquiatras americanos trabalhavam em hospitais; em 1956, só dezassete por cento o faziam. Doze e meio por cento dos estudantes de medicina americanos escolheram a psiquiatria como profissão em 1954, um recorde histórico. Uma grande percentagem deles recebeu pelo menos alguma formação psicanalítica e, em 1966, três quartos relataram que usavam a “abordagem dinâmica” ao tratar os pacientes.

A abordagem dinâmica é baseada no princípio cardeal freudiano de que as fontes dos nossos sentimentos estão ocultas de nós próprios, que o que sobre eles dizemos quando entramos no consultório do terapeuta não pode ser o que realmente está a acontecer. O que na realidade está a acontecer são coisas que negamos, reprimimos, sublimamos ou projetamos no terapeuta pelo mecanismo da transferência, e o objetivo da terapia é trazer à luz essas coisas.

De forma surpreendente, os americanos, um povo em estereótipo alérgico a sistemas abstratos, acharam esse modelo da mente irresistível. Muitos estudiosos tentaram explicar o porquê, e há, sem dúvida, vários motivos, mas a explicação oferecida pela antropóloga Tanya Luhrmann é simples: as teorias alternativas eram piores. “As teorias de Freud eram como uma lanterna numa fábrica de velas”, é como ela põe a questão. Os conceitos freudianos foram adotados por intelectuais, que escreveram sobre catexias, memórias reprimidas e formações reativas, e foram absorvidos pelo discurso popular. Pessoas que nunca leram uma palavra de Freud falavam com confiança sobre o superego, o complexo de Édipo e a inveja do pénis.

Freud foi recrutado para a política anti-utópica dos anos cinquenta. Intelectuais como Lionel Trilling, em “Freud and the Crisis of Our Culture”, e Philip Rieff, em “Freud: The Mind of the Moralist”, sustentaram que Freud nos ensinou os limites da perfectibilidade humana. Revistas populares equipararam Freud a Copérnico e a Darwin. As pretensões eram grandes. “Será que o século XX entrará para a história como o século freudiano?”, perguntou o editor de um volume chamado “Freud e o Século XX”, em 1957. “Não podem as novas formas de consciência que brotam da obra de Freud vir a servir como um símbolo mais autêntico da nossa consciência e da qualidade da nossa experiência, mais profundo do que os frutos incertos da fissão do átomo e do novo mapeamento do Cosmos?”

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s professores dos departamentos de literatura, naturalmente, questionavam-se sobre como poderiam participar na ação. Não lhes custou muito encontrar uma via, pois não é ir longe de mais tratar os textos literários da mesma forma que um analista trata o que o paciente diz. Embora os professores não gostem do termo “significados ocultos”, descodificar um subtexto ou expor um significado ou ideologia implícitos é o que faz grande parte da crítica literária académica. Os críticos académicos estão, portanto, sempre em busca de um aparato teórico que possa dar coerência e consistência a esse empreendimento, e o freudianismo era adequado de forma ideal para essa tarefa. Descodificar e expor são a essência da psicanálise.

Um dos professores animados com essas possibilidades foi Frederick Crews. Crews doutorou-se em Princeton em 1958, com uma dissertação sobre E.M. Forster. A dissertação explicava o que Forster pensava, olhando para o que Forster escreveu. Era uma crítica simples da história das ideias, e Crews achava-a aborrecida. Na graduação, em Yale, apaixonou-se por Nietzsche, e Nietzsche levou-o a Freud. Quando o livro sobre Forster foi lançado, em 1962, ele era professor em Berkeley, e o seu segundo livro, “The Sins of the Fathers”, era um estudo psicanalítico de Nathaniel Hawthorne. Foi lançado em 1966 e, junto com "Psychoanalysis and Shakespeare" de Norman Holland, publicado no mesmo ano, foi uma das obras pioneiras na crítica literária psicanalítica. Crews começou a ministrar um popular seminário de pós-graduação sobre o assunto.

Também se envolveu no movimento antiguerra no campus, servindo como co-presidente do Comité para a Paz da faculdade. Como muitas pessoas em Berkeley naquela época, radicalizou-se e considerou o interesse por Freud como parte do seu radicalismo. Pensava que Freud, como mais tarde disse, "autorizou um espírito de interpretação dogmaticamente rebelde". Na verdade, Freud desprezava a política radical. Pensava que a crença de que a mudança social poderia tornar as pessoas mais saudáveis ​​ou felizes era ilusória; esse é o ponto de "Mal-Estar na Civilização". Mas a ideia de Crews, de que o freudianismo era de alguma forma libertador, foi amplamente compartilhada nos anos 60 (embora geralmente exigisse alguns ajustes na teoria, conforme ministrados, por exemplo, por escritores como Herbert Marcuse e Norman O. Brown).

Em 1970, Crews publicou uma antologia de ensaios a promover a crítica psicanalítica, “Psychoanalysis and Literary Process”. Mas começou a arrefecer o seu entusiasmo. Também se azedou com a política radical — no início dos anos 70, "Berkeley" havia praticamente voltado a ser "Cal", um campus politicamente quiescente — e a sua experiência com o seminário de pós-graduação começou a fazê-lo pensar que havia algo demasiado fácil na crítica psicanalítica. Os alunos propunham leituras psicanalíticas contraditórias, e todas pareciam boas, mas era apenas um concurso de habilidade. Não havia como provar que uma interpretação era mais verdadeira do que outra. A partir daí, seguia-se que o que acontecia no consultório do analista também poderia ser nada mais que uma espécie de arbitrariedade interpretativa. A psicanálise estava a começar a parecer uma metodologia circular e autojustificativa.

Crews registou a sua crescente desilusão numa coleção de ensaios lançada em 1975, "Out of My System". Ainda acreditava que havia aspetos resgatáveis ​​no pensamento de Freud, mas estava de saída, como uma segunda coleção de ensaios, "Skeptical Engagements", em 1986, deixou claro. Em 1993, com a publicação de uma peça na The New York Review of Books chamada “The Unknown Freud”, ele emergiu como um crítico ferrenho do freudianismo e o líder de um grupo de estudiosos revisionistas conhecidos como os Freud-bashers (os que batem em Freud).

O artigo era uma resenha de vários livros de revisionistas. A psicanálise já tinha sido desacreditada como ciência médica, escreveu Crews; o que os pesquisadores agora revelavam é que o próprio Freud era possivelmente um charlatão — um autodramatizador oportunista que deliberadamente deturpava a boa fé científica das suas teorias. Continuou com outro artigo na Review, sobre casos de memória recuperada — casos em que adultos foram acusados ​​de abuso sexual com base em memórias supostamente reprimidas eliciadas por crianças — que atribuiu à teoria do inconsciente de Freud.

Os artigos de Crews desencadearam uma das mais rancorosas pancadarias intelectuais já publicadas, num jornal que já publicou um bom quinhão delas. Cartas de suprema irritação derramadas na Review, autores que lamentavam que as considerações de espaço os impedissem de apontar mais do que um punhado de erros e deturpações de Crews, e depois continuavam a ocupar muitos centímetros de coluna a enumerá-los.

Os que enviavam cartas ofendidas à Review pareciam muitas vezes não entender o facto de que a publicação dá sempre aos seus redatores a última palavra, e Crews aproveitou o privilégio longamente e com prazer. No balanço final, deu mais do que apanhou. Em 1995, publicou as suas peças na Review como "The Memory Wars: Freud's Legacy in Dispute". Três anos depois, editou "Unauthorized Freud: Doubters Confront a Legend", uma antologia de escritos dos críticos de Freud. Crews aposentou-se do ensino em 1994 e é agora um professor emérito em Berkeley.

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 arco da reputação americana de Freud percorre o arco da carreira de Crews. A teoria psicanalítica atingiu o pico do seu impacto no final dos anos 50, quando Crews estava a mudar da crítica da história das ideias para a crítica psicanalítica, e começou a desvanecer-se no fim dos anos 60, quando Crews começou a notar uma certa circularidade nos trabalhos dos seus alunos de graduação. Parte do declínio teve a ver com mudança social. O freudianismo foi um grande alvo de escritoras associadas ao movimento das mulheres; foi atacado como sexista (com razão) por Betty Friedan em "A Mística Feminina" e por Kate Millett em "Política Sexual", como o havia sido, mais de uma década antes, por Simone de Beauvoir em "O Segundo Sexo".

A psicanálise também estava a sofrer danos entre a comunidade médica. Estudos a sugerir que tinha uma baixa taxa de cura já existiam há algum tempo. Mas a compreensão de que a depressão e a ansiedade podem ser reguladas por medicamentos fez um modo de terapia cujo tempo de tratamento chegava a centenas de horas faturáveis ​​parecer, no mínimo, ineficiente e, na pior das hipóteses, uma fraude.

As empresas de prestação de serviços e de seguros de saúde chegaram certamente a essa conclusão, e a terceira edição do DSM, em 1980, eliminou quase todos os traços do freudianismo. A terceira edição foi elaborada por um grupo de psiquiatras da Universidade de Washington, onde, dizem, uma foto emoldurada de Freud foi pendurada por cima de um urinol nas casas de banho masculinas. Em 1999, um estudo publicado na American Psychologist relatou que “a pesquisa psicanalítica foi virtualmente ignorada pela corrente principal da psicologia científica nas últimas décadas”.

Entretanto, a imagem de Freud como um pioneiro solitário também começou a desgastar-se. Essa imagem foi cuidadosamente selecionada pelos discípulos de Freud, especialmente pelo primeiro biógrafo de Freud, o analista galês Ernest Jones, que era um associado próximo. (Ele voou para Viena, depois da chegada dos nazis, para instar Freud a fugir.) A biografia de Jones, em três volumes, surgiu na década de 1950. Mas a imagem teve origem e foi cultivada pelo próprio Freud. Até mesmo o seu pequeno discurso para a BBC, em 1938, é sobre o alto preço que pagou pelas suas descobertas (ele chama-as “factos”) e a sua luta contra a resistência contínua a elas.

Na década de 1970, historiadores como Henri Ellenberger e Frank Sulloway indicaram que a maioria das ideias de Freud sobre o inconsciente não eram originais e que as suas teorias se baseavam em conceitos antiquados da biologia do século XIX, como a crença na capacidade de herdar características adquiridas (Lamarckianismo). Em 1975, o biólogo médico vencedor do Prémio Nobel Peter Medawar chamou a teoria psicanalítica "o mais estupendo abuso de confiança intelectual do século XX".

Um recanto da vida intelectual anglo-americana em que o freudianismo sempre foi visto com suspeita foram os departamentos de Filosofia. Alguns filósofos, como Stanley Cavell, que tinha interesse em literatura e pensadores continentais, adotaram Freud. Mas para os filósofos da ciência, as garantias de conhecimento da psicanálise sempre foram duvidosas. Em 1985, um deles, Adolf Grünbaum, da Universidade de Pittsburgh, publicou “The Foundations of Psychoanalysis”, uma exposição assustadoramente completa destinada a mostrar que, quaisquer que fossem os fundamentos da psicanálise, não eram científicos.

A atenção dos revisionistas também se voltou para a biografia de Freud. O principal cão de caça nesta pista foi Peter Swales, um homem que já se autodenominou "o historiador punk da psicanálise". Swales nunca terminou o ensino médio; na década de 1960, trabalhou como assistente pessoal dos Rolling Stones. Pareceria uma cena difícil de fugir, mas ele fê-lo e, por volta de 1972, interessou-se por Freud e decidiu dedicar-se a desenterrar tudo e mais alguma coisa associado à vida de Freud. (Swales é uma das duas figuras — a outra é Jeffrey Moussaieff Masson — perfiladas no relatório inteligente e divertido de Janet Malcolm sobre os revisionistas de Freud, "In the Freud Archives", publicado em 1984.)

A afirmação mais espetacular de Swales foi que Freud engravidou a sua cunhada, Minna, providenciou para que ela fizesse um aborto e, em seguida, pôs tudo em código numa história clínica fictícia — um caso sherlockiano quase bom de mais para verificar (embora algumas evidências corroborantes tenham sido descobertas posteriormente). Swales e outros investigadores também foram capazes de mostrar que Freud deturpou consistentemente os resultados dos tratamentos em que baseou as suas teorias. No caso de um dos únicos pacientes cujas anotações de tratamento Freud não destruiu, Ernst Lanzer — o Homem dos Ratos — é claro que também deturpou os factos. Num estudo dos quarenta e três tratamentos sobre os quais algumas informações sobreviveram, descobriu-se que Freud quebrara as suas próprias regras sobre como conduzir uma análise, geralmente de forma flagrante, em todos os quarenta e três.

Em 1983, uma pesquisadora britânica, E.M. Thornton, publicou "Freud and Cocaine", no qual argumentou que Freud, que no início da sua carreira foi um defensor do uso médico da cocaína (então uma droga legal e popular), e estava efetivamente viciado nela nos anos anteriores a escrever “A Interpretação dos Sonhos”. Freud tratou um amigo, Ernst Fleischl von Marxow, com cocaína para curar um vício de morfina, o que fez com que Fleischl se viciasse em ambas as drogas e morresse aos quarenta e cinco anos. Thornton sugeriu que Freud estava drogado com cocaína ao escrever os seus primeiros artigos científicos, o que explica a sua negligência com os dados e a imprudência das afirmações.

Em 1995, tinham-se acumulado evidências suficientes do caráter duvidoso das credenciais científicas da psicanálise e questões suficientes sobre o caráter de Freud, para permitir aos revisionistas forçar o adiamento de uma grande exposição dedicada a Freud na Biblioteca do Congresso, com o fundamento de que a mostra apresentava a psicanálise em uma luz demasiado favorável. Crews chamou a isso um esforço "para polir a imagem manchada de uma empresa a caminho da falência". A exposição teve que ser redesenhada e só foi inaugurada em 1998.

Nesse ano, numa entrevista com um professor canadiano de filosofia, Todd Dufresne, Crews foi questionado se estava pronto para largar Freud. "Absolutamente", disse ele. “Depois de quase vinte anos a explicar e ilustrar a mesma crítica básica, basta-me indicar a quem estiver interessado ‘Skeptical Engagements’, ‘The Memory Wars', and ‘Unauthorized Freud'. Quem quer que que não se mova com o meu raciocínio, não vai ser tocado por qualquer outra coisa que eu possa dizer.” Falou demasiado cedo.

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rews parece ter ficado preocupado com o facto de que, embora Freud e o freudianismo possam parecer mortos, não podemos estar completamente, totalmente, cem por cento certos. Freud pode ser como o Comendador em “Don Giovanni”: é morto no primeiro acto e depois aparece para jantar no final, o Convidado de Pedra. Assim, Crews passou onze anos a escrever "Freud: The Making of an Illusion" (Metropolitan), recém-lançado — uma estaca de seiscentas e sessenta páginas cravada no coração frio, frio do homem.

O novo livro sintetiza cinquenta anos de estudos revisionistas, repetindo e ampliando as descobertas de outros pesquisadores (plenamente atribuídas) e agregando algmas acusações adicionais. Crews é um estilista atraente e organizado e tem uma história incrível para contar, mas a sua crítica a Freud é implacável até à monomania. Evidentemente que considera que o “equilíbrio” seria dar um salvo-conduto à vigarice, e até mesmo leitores que simpatizem com o argumento podem achar difícil ler todo o livro. Devia vir com uma cabeça de alho.

O lugar onde as pessoas interessadas no pensamento de Freud geralmente começam é "A Interpretação dos Sonhos", que foi lançado em 1899, quando Freud tinha 43 anos. Crews só chega a esse livro na página 533. O único trabalho subsequente que discute em profundidade é o chamado caso Dora, que foi baseado num tratamento (abortado) que Freud conduziu em 1900 com uma mulher chamada Ida Bauer, e que publicou em 1905, como "Fragmento de uma Análise de um Caso de Histeria". Crews toca brevemente nas outras histórias clínicas famosas que Freud trouxe antes da Primeira Guerra Mundial — o Homem dos Ratos, o Homem dos Lobos, o Pequeno Hans, a análise de Daniel Paul Schreber e o livro sobre Leonardo da Vinci. As obras de psicologia social extremamente influentes que Freud escreveu — “Totem e tabu”, “O futuro de uma ilusão”, “Mal Estar na Civilização” — são amplamente ignoradas.

A "ilusão" no subtítulo do livro de Crews não é o freudianismo, no entanto. É Freud. Por muitos anos, Freud foi descrito como um cientista intrépido que ousou descer à asquerosa loja de ferro velho da mente e que emergiu como a personificação de uma sabedoria trágica — um homem que seria capaz de enfrentar o terrível facto de que um narciso nunca é apenas um narciso, que por baixo do alçapão da mente há um poço cheio de cobras de desejo e agressão e, sabendo de tudo isso, ainda conseguia tomar chá com os seus convidados. Na linha de Yeats, aqueles olhos antigos e brilhantes eram alegres. Essa é, obviamente, a reputação que os Woolfs carregavam com eles quando foram ao encontro de Freud em 1939.

Como Crews tem razão em acreditar, esse Freud sobreviveu em muito à psicanálise. Por muitos anos, mesmo enquanto os escritores descartavam os elementos mais patentemente absurdos da sua teoria — a inveja do pénis ou a pulsão de morte — continuaram a homenagear a visão inabalável de Freud sobre a condição humana. Essa persona ajudou Freud a evoluir, no imaginário popular, de cientista para uma espécie de poeta da mente. E o que acontece com os poetas é que não podem ser refutados. Ninguém pergunta sobre “Paraíso Perdido”: Mas é verdade? Freud e os seus conceitos, agora convertidos em metáforas, juntaram-se à legião de mortos-vivos.

Há algo novo a dizer sobre essa pessoa? Uma das ocasiões para o livro de Crews é o surgimento bastante recente da correspondência de Freud com sua noiva, Martha Bernays. Freud ficou noivo em 1882, quando tinha vinte e seis anos, e o noivado durou quatro anos. Ele e Martha passaram a maior parte desse tempo em cidades diferentes, e Freud escrevia-lhe praticamente todos os dias. Cerca de 1500 cartas sobreviveram. Crews dá grande importância à correspondência e encontra muitos motivos de desaprovação.

Quem gostaria de ser julgado por cartas enviadas a uma amante? O que os trechos citados por Crews parecem mostrar-nos é um jovem imaturo e atrevido, ambicioso e inseguro, orgulhoso e carente, ardente e impaciente — tudo o que se costuma encontrar em cartas de amor. Freud faz comentários como “pretendo explorar a ciência em vez de me deixar ser explorado por ela”. Crews usa isso para expor a atitude mercenária de Freud em relação à sua vocação. Mas os jovens querem ganhar a vida. É por isso que têm vocações. O motivo do noivado prolongado era que Freud não tinha dinheiro para se casar. Não é surpreendente que ele quisesse garantir à sua noiva que mantinha os olhos sempre no prémio.

Freud menciona a cocaína com frequência nas cartas. Usava-a para superar situações sociais stressantes, mas também apreciava os seus benefícios como afrodisíaco, e Crews cita várias cartas nas quais ele provoca Martha sobre seus efeitos. “Ai de ti, princesinha, quando eu chegar”, escreve numa. “Vou-te beijar e deixar-te bem vermelha e vou-te encher bem gordinha. E se fores marota, verás quem é mais forte, uma menina gentil que não come ou um grande homem selvagem com cocaína no corpo." Comentário de Crews: Freud "concebia o seu eu quimicamente erotizado não como o companheiro afetuoso de uma pessoa querida, mas como um companheiro poderoso que teria o que queria, deleitando-se com o esmagamento da relutância virginal". (Freud, aliás, era um homem baixo, com um metro e setenta. Era mais alto do que Martha, mas não muito. O “grande homem selvagem” era uma piada.)

Freud seria a última pessoa a ter razões para contestar o interesse de um biógrafo na sua vida sexual, mas as afirmações de Crews nesta área são muitas vezes especulação. Durante seu noivado, por exemplo, Freud passou quatro meses a estudar em Paris, onde às vezes sofria de ansiedade. “É fácil imaginar como a agitação de Freud deve ter sido intensificada pelo desfile diário de rostos atrevidos e quadris baloiçando que testemunhou durante as suas caminhadas”, observa. Crews está confiante que Freud, durante sua separação de Martha, se masturbava regularmente, "ficando doente com a culpa por isso" (algo que ele diz que os biógrafos de Freud encobriram). Também suspeita que Freud fez sexo com uma prostituta e, portanto, não era virgem quando, aos trinta anos, finalmente se casou. Observando (como outros fizeram) o tom homoerótico nas cartas de Freud para e sobre homens de quem estava próximo — Fleischl e, mais tarde, Wilhelm Fliess — Crews sugere que Freud "lutou contra impulsos homossexuais".

Suponhamos que Freud usasse cocaína como ansiolítico e afrodisíaco. Que tinha olho para mulheres sexy. Que se masturbava, solicitava uma prostituta, compartilhava fantasias masculinas com a namorada e se apaixonava por amigos homens. Que é que isso interessa? Os seres humanos fazem coisas destas. Mesmo que Freud tivesse relações sexuais com Minna Bernays — e daí? A hipótese revisionista padrão é que o sexo ocorreu em viagens que os dois fizeram juntos sem Martha, das quais, como Crews aponta, houve um número surpreendente. Mas Crews também imagina encontros na casa da família em Viena. Observa que o quarto de Minna ficava num canto distante da casa, o que significa que "o Sigmund noturno o poderia ter visitado impunemente antes do amanhecer". Poderia? Pelos vistos. Deveria? Provavelmente não. Visitou, de facto? Ninguém sabe. Então, porquê fantasiar sobre isto? Um freudiano suspeitaria que há qualquer coisa a acontecer aqui.

Uma coisa que acontece é bastante clara: este é um assunto interno nas guerras de Freud. Algum estudioso de Freud sugeriu que, como o quarto de Minna era ao lado do de Freud e Martha, haveria poucas oportunidades para brincadeiras. Coerente com sua política de não dar trégua aos malandros, Crews está determinado a dar cabo dessa sugestão. Está numa cruzada para desmascarar o que chama “freudolatria”, o culto a Freud construído e mantido pelos “historiadores da equipa da casa”. Entre eles estão o “biógrafo doméstico” Ernest Jones, o “crédulo” Peter Gay e os “leais” George Makari e Élisabeth Roudinesco. (A tradução em inglês de "Freud: In His Time and Ours" de Roudinesco foi publicada por Harvard no outono passado.)

Na visão de Crews, essas pessoas criaram uma imagem editada a Photoshop de probidade científica sobre-humana e retidão moral, e é importante reduzir seu herói ao tamanho humano — ou talvez, em compensação por todos os anos de exagero, um ou dois tamanhos abaixo. O Freud deles, plenamente consciente dos seus desejos ilícitos, para na porta do quarto da sua cunhada, pois sabe que a sublimação das pulsões eróticas é o preço que os homens pagam pela civilização. O Freud de Crews simplesmente entra a direito. (Em qualquer dos casos, a civilização acaba por sobreviver.)

Para os leitores com menos interesse nas guerras de Freud, a questão é: o que é que está em jogo? E a resposta tem de ser o freudianismo — a própria teoria e a sua vida pós-clínica depois da morte. Embora Freud tenha renunciado ao seu trabalho inicial com a cocaína, Crews examina-o cuidadosamente e mostra que, desde o início, Freud foi um péssimo cientista. Falsificou dados; fez afirmações infundadas; assumiu crédito pelas ideias de outros. Às vezes mentia. Muita gente no final do século XIX acreditava que a cocaína poderia ser uma droga milagrosa, e Crews pode ser um pouco injusto quando tenta atribuir a Freud grande parte da culpa pela epidemia posterior de uso de cocaína. Mesmo assim, mesmo a começar, Freud mostrou-se um homem que não tinha muitos escrúpulos profissionais. A afirmação fundamental dos revisionistas é que Freud nunca mudou. Foi ciência fictícia desde sempre. E a questão central para a maioria deles é o que é conhecido como teoria da sedução.

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 principal razão pela qual a psicanálise triunfou sobre as teorias alternativas e foi adotada em campos fora da medicina, como a crítica literária, é que apresentou as suas descobertas como indutivas. A teoria freudiana não foi um show de lanterna mágica, uma projeção imaginativa que nos forneceu metáforas poderosas para a compreensão da condição humana. Não foi “Paradise Lost”; era ciência, um sistema conceptual inteiramente derivado da experiência clínica.

Para freudianos e antifreudianos, a chave dessa afirmação é o destino da teoria da sedução. Segundo a narrativa oficial, quando Freud começou a trabalhar com mulheres com diagnóstico de histeria, na década de 1890, as suas pacientes relataram ter sido molestadas sexualmente quando crianças, geralmente pelos pais e geralmente quando tinham menos de quatro anos. Em 1896, Freud publicou um artigo anunciando que, tendo completado dezoito tratamentos, tinha concluído que o abuso sexual na infância era a fonte dos sintomas histéricos. Isso ficou conhecido como teoria da sedução.

O artigo foi recebido com escárnio. Richard von Krafft-Ebing, o principal sexólogo da época, chamou-lhe "conto de fadas científico". Freud ficou desanimado. Mas, em 1897, teve uma revelação, a qual relatou numa carta a Fliess que se tornou canónica. Os pacientes não estavam a lembrar-se do abuso sexual real, percebeu; estavam a lembrar-se das suas próprias fantasias sexuais. O motivo era o complexo de Édipo. Desde a infância, todas as crianças têm sentimentos agressivos e eróticos em relação aos pais, mas reprimem esses sentimentos por medo da punição. Para os meninos, o medo é da castração; as meninas, como acabam por descobrir, traumatizadas, já estão castradas. ("Castração" em Freud significa amputação.)

No modelo hidráulico da mente de Freud, esses desejos e vontades proibidos são energias psíquicas em busca de uma saída. Visto que não podem ser expressos ou influenciados diretamente — não podemos matar ou fazer sexo com nossos pais —, surgem em formas altamente censuradas e distorcidas, como imagens em sonhos, lapsos de língua e sintomas neuróticos. Freud afirmou que a sua experiência clínica lhe ensinou que, pelo método da associação livre, os pacientes podiam descobrir o que haviam reprimido e obter algum alívio. E assim nasceu a psicanálise.

Esta narrativa foi contestada por Jeffrey Masson, cuja batalha com o establishment freudiano é o assunto principal do livro de Janet Malcolm. Em "The Assault on Truth", em 1984, Masson argumentou que, em pânico com a reação ao seu artigo sobre histeria, Freud surgiu com a teoria da sexualidade infantil como uma forma de encobrir o abuso sexual dos seus pacientes.

Mas acabou por haver dois problemas com a narrativa oficial sobre a teoria da sedução, e Masson não era nenhum deles. O primeiro problema é que a cronologia é uma reconstrução retrospetiva. Freud não abandonou a teoria da sedução depois de 1897, não insistiu na centralidade do complexo de Édipo até 1908, e assim por diante. Várias emendas tiveram que ser discretamente feitas na Edição Padrão e na edição da correspondência de Freud com Fliess, para que o registo se tornasse consistente com a cronologia preferida.

Esse é o problema menor. O grande problema, segundo os revisionistas, é que não houve casos. Ao contrário do que Freud alegou e do que Masson presumiu, nenhum dos pacientes subsequentes de Freud lhe disse espontaneamente que havia sido molestado — aqueles dezoito casos não existiam — e nenhum paciente posteriormente relatou ter desejos edipianos. Sabendo da sua reputação de obcecado por sexo, alguns dos pacientes de Freud produziram o tipo de material que sabiam que ele queria ouvir, e alguns parecem tê-lo enganado deliberadamente. Em outros casos, Freud persuadiu os pacientes a aceitar as suas interpretações, e eles cederam, como o Homem dos Ratos, ou abandonaram o tratamento, como Dora. Se o seu analista lhe disser que você está a tentar negar que quer dormir com seu pai, que vai fazer? Negar?

Desde que parou de ministrar o seu seminário em Berkeley, Crews queixou-se da sugestionabilidade do método psicanalítico de associação livre. Substituiu a hipnose como forma de tratar pacientes histéricos, mas não era muito melhor. Foi por isso que Crews escreveu sobre os casos de memória recuperada, nos quais os investigadores parecem ter alimentado as crianças com as memórias que elas eventualmente "recuperaram". Se Freud como terapeuta era efetivo, isso é contestado — muitas pessoas viajaram a Viena para serem analisadas por ele. Mas Crews acredita que Freud nunca teve “um único ex-paciente que pudesse atestar a capacidade do método psicanalítico produzir os efeitos específicos que ele reclamava”.

Uma resposta ao ataque à psicanálise é que, mesmo que Freud tenha inventado tudo, e mesmo que ele próprio tenha sido um péssimo terapeuta, a psicanálise funciona para alguns pacientes. Mas o mesmo acontece com o placebo. Muitas pessoas que sofrem de transtornos do humor beneficiam da psicoterapia e de outras formas interpessoais de tratamento, porque respondem à percepção de que estão a cuidar delas. Pode não interessar muito sobre o que falam; alguém está a ouvir.

As pessoas também acham atraente a ideia de que têm motivos e desejos dos quais não têm consciência. Esse tipo de psicologia "profunda" foi popularizada pelo freudianismo e é improvável que desapareça. Pode ser útil perceber que os nossos sentimentos em relação às pessoas que amamos são na verdade ambivalentes, ou que estávamos a ser agressivos quando achávamos que estávamos a ser só extremamente educados. Mas claro que não devíamos ter que penar o nosso caminho através da ansiedade da castração para chegar lá.

Ainda assim, presumindo que a psicanálise era um beco sem saída, será que fez a psiquiatria retroceder várias gerações? Crews disse que sim. “Se grande parte do século XX realmente pertenceu a Freud”, disse ele a Todd Dufresne, em 1998, “então perdemos cerca de setenta anos de ganhos potenciais em conhecimento enquanto nos confundíamos com uma concepção essencialmente medieval da mente 'possuída'.” O comentário reflete uma atitude presente em muitas críticas à psicanálise, especialmente a de Crews: uma idealização da ciência.

Desde a terceira edição do DSM, a ênfase tem sido nas explicações biológicas para os transtornos mentais, e isso faz a psicanálise parecer um desvio ou, como o historiador da psiquiatria Edward Shorter a chamou, um “hiato”. Mas a psiquiatria não estava, de todo, em bases médicas sólidas quando Freud apareceu. A ciência da mente do século XIX foi um espetáculo do Velho Oeste. Os tratamentos incluíam hipnose, eletroterapia, hidroterapia, massagem de corpo inteiro, analgésicos como morfina, curas de repouso, curas de “gordura” (alimentação excessiva), reclusão, “castração feminina” e, é claro, institucionalização. Também havia um interesse considerável no paranormal. Os diagnósticos psiquiátricos mais prevalentes do século XIX, histeria e neurastenia, nem são reconhecidos hoje. Isto não era ciência "má". Era ciência. Parte funciona; muito não. A psicanálise não foi a primeira psicoterapia, mas foi a ponte da hipnose para o tipo de psicoterapia que temos hoje. Não abusava do corpo do paciente e, mesmo se fosse um tratamento charlatão, não era muito pior e era indiscutivelmente mais humana do que muito do que se praticava.

A psicanálise tampouco interrompeu a psiquiatria somática. Durante a primeira metade do século XX, todos os tipos de intervenções médicas para transtornos mentais foram concebidos e colocados em prática. Isso incluía a administração de sedativos, principalmente cloral, que causa dependência e foi prescrito para Virginia Woolf, que sofria de depressão grave; comas induzidos por insulina; tratamentos de eletrochoques; e lobotomias. Apesar de sua reputação terrível, a eletroconvulsoterapia é um tratamento eficaz para a depressão grave, mas a maioria dos outros tratamentos em uso antes da era dos psicofármacos eram becos sem saída. Ainda hoje, em muitos casos, estamos basicamente a atirar produtos químicos ao cérebro com esperança do melhor. A acertar ou errar é como muito progresso é feito. Podemos chamar-lhe de ciência ou não.

As pessoas escrevem biografias porque esperam que as vidas tenham lições. Isso é o que Crews fez. Acredita que a história do início da vida de Freud tem algo a dizer-nos sobre o freudianismo e, embora insista em fazer o papel de um juiz justiceiro, muito do que tem a dizer sobre o caráter escorregadio de Freud e a factícia da sua ciência é persuasivo. Afinal, está a construir sobre uma montanha de investigação desses tópicos.

Crews apresenta o que parece ser uma nova acusação (pelo menos hoje em dia) contra a psicanálise. Argumenta que é anticristã. Ao promulgar uma doutrina que torna "a gratificação sexual triunfante sobre o sacrifício virtuoso para o céu", diz ele, Freud "pretendia derrubar toda a ordem cristã, vingando-se de todos os papas fanáticos, dos sádicos da Inquisição, dos modernos promulgadores de calúnia do libelo de sangue, e dos burocratas católicos que mantiveram refém o seu lugar de professor.” Freud se propôs a “derrubar o templo da lei paulina”.

Crews sugere que é por isso que o caso com Minna foi significativo. Se aconteceu, foi um pouco antes de Freud escrever “A Interpretação dos Sonhos”, o verdadeiro início do freudianismo. O sexo proibido poderia ter-lhe dado a confiança de que precisava para dar o passo extremo na leitura de mentes. “Possuir Minna”, diz Crews, “poderia significar, primeiro, cometer incesto simbólico com a mãe de Deus; em segundo lugar, para 'matar' o Deus pai por meio deste último sacrilégio; e terceiro, anular a autoridade tanto da igreja estabelecida da Áustria como do seu pai no Vaticano — assim, no drama interno de Freud, libertando seu povo de dois milênios de perseguição religiosa.” Então creio ele não entrou sem hesitação.

Tudo isto soa muito freudiano! De onde vem isto? Esse Freud destruidor de ídolos é radicalmente diferente do Freud de escritores como Trilling e Rieff, que o viam como um lembrete duradouro da futilidade de imaginar que melhorar o mundo pode tornar os seres humanos mais felizes. E certamente não foi assim que Freud se apresentou. “Não tenho a coragem de me levantar diante de meus semelhantes como profeta”, escreveu ele no final de “Mal Estar na Civilização”, “e curvo-me perante a sua crítica de que não posso oferecer-lhes consolo: pois, no fundo, é isso o que todos exigem — os revolucionários mais selvagens não menos apaixonadamente do que os crentes mais virtuosos.”

A ideia de Crews de que o alvo de Freud era o cristianismo parece ser um fruto tardio de seu antigo fascínio de estudante de graduação por Nietzsche. Aparentemente, Crews viu em tempos Freud como um crítico nietzschiano do moralismo negador da vida, um heróico Anticristo dedicado a libertar os seres humanos da subserviência aos ídolos que eles próprios criaram. Será a sua renúncia atual uma renúncia de sua própria juventude radical? A sua punição a Freud será realmente uma forma de autopunição? Não precisamos de ir por aí. Mas, uma vez que a humanidade ainda não se libertou das suas ilusões, se é isso que Freud realmente foi, ele continua morto-vivo. ♦

1 comentário:

  1. Boa noite, amigo. Não tenho conhecimentos suficientes para avaliar o texto, achei interessante e só tenho a agradecer a partilha do seu conhecimento e trabalho. Revela muita pesquisa e capacidade de interpretação, seja ela influenciada ou não por conceitos ou preconceitos que a vida nos leva a consumir.

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