27 de dezembro de 2020

A nova esquerda radical

Por Fabien Escalona, doutor em ciência política (Universidade Grenoble-Alpes), colaborador científico da Cevipol (Université Libre de Bruxelles). Libération, 30 de agosto de 2017

Há uma semelhança de família entre Syriza, Podemos e a France Insoumise [e o Bloco de Esquerda, nota do tradutor]. Uma força que se cristaliza perante uma classe política em desacordo com o consentimento da população.

A France Insoumise em França, o Podemos na Espanha, o Syriza na Grécia, várias formações vermelho-verdes noutras partes da Europa... O quadro ainda é impressionista, mas não já podemos dizer que é incoerente. Essas forças, surgidas em poucos anos, apresentam uma “semelhança de família”. Para entender isto, é necessário recorrer a uma análise “histórico-conflituosa” destes partidos, considerá-las como agentes mobilizadores e mediadores de grupos sociais cujos interesses e valores defendem, dentro dos nossos regimes representativos.

Fabien Escalona

Fabien Escalona

Há alguns anos, o futuro da esquerda da transformação social parecia inexistente. Em 2001, o sociólogo Seymour M. Lipset diagnosticava a "americanização" da esquerda europeia.1 Os Estados Unidos, onde o socialismo partidário nunca tinha penetrado, já não eram uma anomalia nas democracias consolidadas. Podia-se ver aí o futuro dos sistemas partidários de estilo europeu, exigindo uma polarização crescente entre dois blocos de centro-direita e centro-esquerda, cujas ideologias e políticas públicas seriam cada vez menos diferentes, a não ser em questões culturais em vez de económicas.

Os sociais-democratas integraram-se e até se normalizaram dentro dos aparelhos governamentais, enquanto os comunistas seguiram caminhos nacionais e/ou entraram em colapso com a desintegração soviética.

De facto, esgotou-se um ciclo vinculado ao movimento operário e às suas "internacionais". Não é por acaso que as esquerdas que avançaram recentemente se destacaram desta história. Outros fatores de sucesso certamente desempenharam um papel: a gravidade da recessão e as (contra) reformas implementadas, a rotura da ordem eleitoral em vigor e a facilidade de acesso à competição política... Mas mesmo com condições favoráveis, os partidos dogmáticos (como o PC grego) ou tradicionais (como o PC francês ou a Esquerda Unida espanhola) estagnaram2

Organizações inovadoras e flexíveis eram necessárias para aproveitar a janela de oportunidade aberta pela crise de 2008. Em poucos anos, a redução nas perspetivas de bem-estar, uma austeridade impermeável às alternâncias, mas também a sensibilidade à rotura do sistema Terra que protege a vida humana, coligaram grupos sociais e geracionais dos quais apenas uma fração fora enquadrada no seio do movimento operário.

O que está em jogo já não é a lealdade nacional dos proletários em busca da plena cidadania, mas a de segmentos que questionam a legitimidade de uma classe política acusada de ter, ela própria, escapado ao intercâmbio nacional entre representantes e representados. Voltada para os imperativos da competição económica global, obedecendo aos constrangimentos de estruturas de poder supranacionais impossíveis de contestar nas urnas, cada vez mais incapaz de atender às expectativas sociais, essa classe política é criticada por governar "demasiado em rotura" com o consentimento da população.

Para simplificar, as suas opções ideológicas e estratégicas podem ser distribuídas entre dois polos. Por um lado, [...] contentar-se em exercer pressão sobre as elites tradicionais, confirmando interpretações do populismo como um "sintoma" de disfunção democrática. Por outro lado, [apostar] no poder instituinte do povo e nas suas capacidades de autogoverno. A esquerda radical procuraria antes tentar transformar a ordem sócio-política, abrindo então o populismo a via para um "protagonismo" dos cidadãos comuns

É, pelo menos, um tal protesto que as novas formações de esquerda radical estão a tentar organizar e canalizar, orientando várias experiências vividas para a sua própria agenda, que inclui tons de vermelho mais ou menos radicais (para lutas sociais), verde (para lutas ambientais) e violeta (para reivindicações feministas, LGBT e anti-racistas). Nesse contexto, a intensidade dos debates sobre o populismo é melhor compreendida. O conteúdo programático dessas forças é, evidentemente, parte da longa história da esquerda e da "igualiberdade". Para tornar esse conteúdo confiável e atraente, é útil traçar uma fronteira clara entre os que o veiculam e a classe política vigente. Em contrapartida, o apelo ao “povo desprezado” deve ser o mais inclusivo possível, uma vez que já não há um sujeito político de massas constituído e organizado – este trabalho está só na infância.

Reconhecemos aqui preocupações muito presentes no seio do Podemos e da France Insoumise. No entanto, as reflexões sobre um novo ciclo da esquerda encontram a sua origem bem a montante, nos meios antiglobalização, mas também no norte da Europa. Já em 1995, por exemplo, as organizações finlandesas revisitaram o conceito de “terceira esquerda”, promovendo uma democracia radical e antiprodutivista, capaz de superar os becos sem saída da esquerda “liberal” e “proletária”.3

Esta família política emergente enfrenta precisamente as dificuldades e contradições ligadas ao seu progresso nas urnas e nas instituições. Para simplificar, as suas opções ideológicas e estratégicas podem ser distribuídas entre dois polos. Por um lado, um polo "à la Lefort", que leva o nome deste filósofo que via no povo um "não-poder", um poder que lembra constantemente aos governantes que não devem ser oprimidos. Nessa perspectiva, a esquerda radical iria contentar-se em exercer pressão sobre as elites tradicionais, confirmando interpretações do populismo como um "sintoma" de disfunção democrática. Por outro lado, um pólo "à la Castoriadis", que leva o nome deste filósofo que apostou no poder instituinte do povo e nas suas capacidades de autogoverno. A esquerda radical procuraria antes tentar transformar a ordem sócio-política, abrindo então o populismo a via para um "protagonismo" dos cidadãos comuns.


1 Seymour M. Lipset, «The Americanization of the European Left», Journal of Democracy, 2001.

2 Luke March e Dan Keith (dir.), Europe’s Radical Left. From Marginality to the Mainstream?  Rowman and Littlefield, 2016.

3 Jan Otto Anderson, «Fundamental Values for a Third Left», New Left Review  I/216, 1996.

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