1 de dezembro de 2020

A nova/antiga teoria da educação inuit

Achei este artigo tão interessante que decidi traduzi-lo. Sempre me interessaram os problemas da educação, em particular das primeiras idades. Mas aqui estamos na intersecção da educação e da antropologia. Se as ideias aqui expostas têm, sem dúvida, interesse prático e imediato para quem educa, iluminam uma outra questão intrigante:

Será que as modernas teorias de educação — anti-autoritárias, solidárias, inclusivas, respeitadoras da individualidade e agência própria da criança e desenvolvidas no século XX por Piaget, Montessori, Freinet, Gardner, Steiner e outros — são ideias totalmente novas, saídas de mentes de todo originais, ou será que se trata do repor, pelo menos em parte, de práticas muito antigas, vindas de um tempo em que o autoritarismo, a patriarquia e a opressão classista ainda não tinham subvertido em grande parte as relações entre as pessoas? Decerto, a segunda hipótese é para onde aponta este artigo. Leiam e pensem, por favor.


Tradução do artigo How Inuit Parents Teach Kids To Control Their Anger (Como os pais inuit ensinam os filhos a controlar a raiva) do site NPR.

13 de março de 2019, Michaeleen Doucleff e Jane Greenhalgh


Na década de 1960, uma aluna de pós-graduação de Harvard fez uma descoberta marcante sobre a natureza da raiva humana.

Aos 34 anos, Jean Briggs viajou para lá do Círculo Polar Ártico e viveu na tundra por 17 meses. Não havia estradas, sistemas de aquecimento ou mercearias. As temperaturas no inverno podem ultrapassar facilmente os 40 graus negativos.

Briggs persuadiu uma família inuit a “adotá-la” e a “tentar mantê-la viva”, como escreveu a antropóloga em 1970.

Por mais de 30 anos, os Inuit acolheram nas suas vidas a antropóloga Jean Briggs, para que pudesse estudar a forma como criam as suas crianças. Nesta imagem, Briggs visitava em 1974 a Ilha de Baffin.
[Jean Briggs Collection / American Philosophical Society]

Na época, muitas famílias inuit viviam de forma semelhante aos seus ancestrais, há milhares de anos. Construíam iglos no inverno e tendas no verão. “E comíamos apenas o que os animais forneciam, como peixe, foca e caribu”, diz Myna Ishulutak, produtora de cinema e professora de línguas que viveu um estilo de vida semelhante quando era jovem.

Briggs percebeu rapidamente que qualquer coisa de notável estava a acontecer nessas famílias: os adultos tinham uma capacidade extraordinária de controlar a sua ira.

“Eles nunca se comportavam com cólera em relação a mim, mesmo que estivessem muito zangados comigo”, disse Briggs à Canadian Broadcasting Corp. numa entrevista.

Myna Ishulutak (em cima, à direita, com casaco azul) viveu uma vida de seminómada em criança. Aqui estão fotos da menina e da sua família, no acampamento de caçadores de Qipisa, no verão de 1974.
[Jean Briggs Collection / American Philosophical Society]

Até mesmo mostrar um pouco de frustração ou irritação era considerado uma fraqueza e uma infantilidade, observou Briggs.

Por exemplo, uma vez, alguém fez cair um bule de chá a ferver no iglo, danificando o piso de gelo. Ninguém mudou de cara. “Que pena”, disse o culpado calmamente, e foi reabastecer o bule.

Noutro caso, uma linha de pesca – que tinha levado dias a ser trançada – quebrou-se de imediato, ao ser usada pela primeira vez. Ninguém estremeceu de raiva. “Vamos coser isto juntos”, disse alguém calmamente.

Em contraste, Briggs parecia uma criança brava, embora se esforçasse muito por controlar a sua cólera. “O meu comportamento era muito mais rude, menos atencioso e mais impulsivo”, disse ela ao CBC. “[Eu era] frequentemente impulsiva, de uma forma anti-social. Amuava, respondia torto ou irritava-me, ou fazia coisas que eles nunca fizeram.”

Briggs, que morreu em 2016, descreveu as suas observações no seu primeiro livro, Never in Anger. Mas ficou com uma pergunta persistente: Como é que os pais inuits instilam esta habilidade nos seus filhos? Como é que os Inuit transformam crianças com tendência a ter ataques de raiva em adultos calmos?

Então, em 1971, Briggs encontrou uma pista.

Estava a passear numa praia pedregosa no Ártico, quando viu uma jovem mãe a brincar com o seu filho – um menino de cerca de dois anos. A mãe pegou numa pedra e disse: "'Bate-me! Vá lá. Bate-me com mais força'", lembrou Briggs.

O menino jogou a pedra à mãe e ela exclamou: “Ai! Isso dói!”

Briggs estava completamente confusa. A mãe parecia estar a ensinar ao filho o oposto do que os pais desejam. E as suas ações pareciam contradizer tudo o que Briggs sabia sobre a cultura Inuit.

“Pensei, ‘O que se passa aqui?’” disse Briggs na entrevista de rádio.

Acontece que a mãe estava a operar uma ferramenta parental poderosa, para ensinar ao seu filho como controlar a sua cólera – e uma das estratégias parentais mais intrigantes que encontrei.

Iqaluit, vista de inverno. É a capital do território canadiano de Nunavut.
[Johan Hallberg-Campbell/NPR]

Sem ralhar, sem impor castigos

Estamos no início de dezembro na cidade ártica de Iqaluit, Canadá. E às 14 horas, o sol já está a fechar a loja. Lá fora, está a temperatura amena de 10 graus centígrados negativos. Gira uma leve neve.

Vim para esta cidade do litoral, depois de ler o livro de Briggs, em busca da sabedoria dos pais, especialmente quando se trata de ensinar as crianças a controlar as suas emoções. Assim que saí do avião, comecei a recolher dados.

Sento-me com idosos na casa dos 80 e 90 anos, enquanto almoçam “comida do campo” — foca cozida, baleia beluga congelada e caribu cru. Falo com mães que vendem casacos de pele de foca feitos à mão numa feira de artesanato da escola secundária. E participo numa aula para pais, onde instrutoras de um centro diurno aprendem como os seus ancestrais criavam filhos pequenos há centenas – talvez até milhares – de anos atrás.

Os idosos de Iqaluit almoçam no centro de dia local. Às quintas-feiras, o que chamam "comida do campo" está no menu, coisas como caribu, foca e galinha-do-gelo.
[Johan Hallberg-Campbell/NPR]

Em geral, todas as mães mencionam uma regra de ouro: não se grita nem berra com crianças pequenas.

A educação tradicional Inuit é incrivelmente carinhosa e terna. Se tomássemos todos os estilos de criação de filhos à volta do mundo e os classificássemos segundo a gentileza, a abordagem Inuit provavelmente ia classificar-se perto do topo. (Até têm um beijo especial para bebés, onde se encosta o nariz à bochecha e se cheira a pele.)

A cultura vê a repreensão – ou mesmo falar com as crianças com voz agressiva – como inadequada, diz Lisa Ipeelie, uma produtora de rádio e mãe que cresceu com doze irmãos. “Quando eles são pequenos, não adianta levantar a voz”, diz ela. “Isso só vai fazer subir a sua frequência cardíaca.”

Mesmo se a criança nos bater ou morder, não se levanta a voz?

“Não”, diz Ipeelie com uma risada que parece sublinhar como a minha pergunta é tola. “Com as crianças pequenas, muitas vezes pensamos que elas estão a provocar-nos, mas não é isso que está a acontecer. Estão irritadas com qualquer coisa e temos que descobrir o que é."

Tradicionalmente, as mulheres e crianças na comunidade comem com uma faca ulu.
[Johan Hallberg-Campbell/NPR]

Tradicionalmente, os Inuit veem o gritar com uma criança como uma vergonha. É como se o adulto estivesse a fazer uma birra; é basicamente rebaixar-se ao nível de uma criança, documentou Briggs.

Os anciãos com quem falei dizem que a intensa colonização durante o século passado está a prejudicar essas tradições. E, portanto, a comunidade está a esforçar-se muito para manter a sua abordagem parental intacta.

Goota Jaw está na linha de frente deste esforço. Dá aulas a pais no Arctic College. O seu próprio estilo parental é tão gentil que nem sequer acredita em pôr de castigo uma criança por mau comportamento.

“Gritar: 'Pensa no que acabaste de fazer. Vai para o seu quarto!'” diz Jaw. “Eu discordo. Não é assim que ensinamos os nossos filhos. Assim, só estamos a ensinar as crianças a fugir."

E estamos a ensiná-las a ficar com raiva, diz a psicóloga clínica e autora Laura Markham. “Quando gritamos com uma criança – ou mesmo quando ameaçamos, do género ‘Estou começar a ficar danada’, estamos a treinar a criança para gritar”, diz Markham. “Estamos a treiná-la para gritar quando ficar irritada e que gritar resolve os problemas.”

Em contraste, os pais que controlam a sua própria ira estão a ajudar os seus filhos a aprender a fazer o mesmo, diz Markham. “As crianças aprendem a regulação emocional connosco.”

Perguntei a Markham se a política Inuit de não gritar poderia ser o seu primeiro segredo para criar filhos calmos. “Absolutamente”, diz ela.

Jogar à bola com a nossa cabeça

Bem, a um certo nível, todas as mães e pais sabem que não devem gritar com as crianças. Mas se não repreendemos ou falamos em tom agressivo, como é que disciplinamos? Como evitamos que o nosso filho de três anos corra para a estrada? Ou que dê socos no seu irmão mais velho?

Durante milhares de anos, os Inuit confiaram numa ferramenta antiga com um toque engenhoso: "Usamos a narrativa para disciplinar", diz Jaw.

Jaw não está a falar de contos de fadas, onde uma criança precisa de decifrar qual é a moral. Trata-se de histórias orais transmitidas de geração em geração de inuits, destinadas a esculpir o comportamento das crianças no momento. Às vezes, até salvam as suas vidas.

Por exemplo, como ensinar as crianças a afastarem-se do oceano, onde podem facilmente afogar-se? Em vez de gritar “Não te chegues ao pé da água!”, Jaw diz que os pais inuits adotam uma abordagem preventiva e contam às crianças uma história especial sobre uma coisa que está dentro da água. “É o monstro do mar”, diz Jaw, ele tem uma bolsa gigante nas costas só para as crianças.

“Se uma criança se chegar muito perto da água, o monstro vai pô-la na sua bolsa, arrastá-la para o oceano e levá-la-a para ser adotada noutra família”, diz Jaw.

“Assim, não é preciso gritar com uma criança", diz Jaw, “porque ela já está a entender a mensagem”.

Os pais inuits também contam com uma série de histórias para ajudar os filhos a aprender comportamentos respeitosos. Por exemplo, para fazer as crianças ouvirem os seus pais, há uma história sobre cera nos ouvidos, diz a produtora de cinema Myna Ishulutak.

“Os meus pais inspecionavam os nossos ouvidos e, se houvesse lá cera de mais, queria dizer que não estávamos a ouvir”, diz ela.

E os pais dizem aos filhos: se não pedires antes de tirar comida, o Dedos Compridos pode estender a mão e agarrar-te, diz Ishulutak.

Os pais inuits dizem às suas crianças para terem cuidado com as auroras boreais. Se não usarem os barretes de inverno, a aurora vem arrancar-lhes a cabeça para jogar à bola com ela!
[Johan Hallberg-Campbell/NPR]

Depois, há a história da aurora boreal, que ajuda as crianças a aprender a usar o barrete no inverno.

"Os nossos pais disseram-nos que, se saíssemos sem barrete, a aurora boreal ia arrancar-nos a cabeça e ia usá-la para jogar à bola”, disse Ishulutak. "Tínhamos tanto medo!”, exclama, e logo desata a rir.

No início, estas histórias pareciam-me um pouco assustadoras para crianças pequenas. A minha reação automática foi rejeitá-las. Mas a minha opinião mudou 180 graus depois de observar a resposta da minha própria filha a contos semelhantes – e depois de ter aprendido mais sobre a intrincada relação da humanidade com a narrativa.

A narrativa oral é conhecida como um universal humano. Por dezenas de milhares de anos, tem sido uma maneira fundamental dos pais ensinarem aos filhos sobre valores e sobre comportamento.

Grupos modernos de caçadores-recoletores usam histórias para ensinar a compartilhar, a respeitar ambos os sexos e a evitar conflitos, concluiu um estudo recente, após analisar 89 histórias de nove tribos diferentes do Sueste Asiático e de África. Com os Agta, uma população de caçadores-recoletores das Filipinas, o talento para contar histórias é mais valorizado que o talento para caçar ou os conhecimentos medicinais, afirmou o estudo.

Hoje, muitos pais norte-americanos descartam para os ecrãs a sua narração oral. E, ao fazer isso, pergunto eu se estamos a perder uma forma fácil – e eficaz – de disciplinar e mudar o comportamento. Poderiam as crianças pequenas estar, de alguma forma, “programadas” para aprender por meio de histórias?

A criação Inuit é carinhosa e terna. Até têm um beijo especial para as crianças chamado kunik. Maata Jaw faz o gesto Inuit de cheirar a cara da filha.
[Johan Hallberg-Campbell/NPR]

“Bem, eu diria que as crianças aprendem bem por meio de narrativas e explicações”, diz a psicóloga Deena Weisberg, da Universidade Villanova, que estuda como crianças pequenas interpretam a ficção. “Aprendemos melhor através de coisas que são interessantes para nós. E as histórias, pela sua natureza, podem conter coisas que são muito mais interessantes, de uma forma que as declarações simples não são.”

Histórias com uma pitada de perigo atraem as crianças como ímanes, diz Weisberg. E transformam uma atividade carregada de tensão, como o disciplinar, numa interação lúdica que é – ouso dizer – divertida.

“Não desprezemos o divertido que é contar histórias”, diz Weisberg. “Com as histórias, as crianças veem acontecer coisas que não acontecem na vida real. As crianças acham divertido. Os adultos também acham divertido.”

A cineasta e professora de língua Inuit Myna Ishulutak, quando era menina. A antropóloga Jean Briggs passou seis meses com a sua família nos anos 1970 a documentar a educação infantil.
[Jean Briggs Collection / American Philosophical Society]

Porque não me bates?

De volta a Iqaluit, Myna Ishulutak recorda a sua infância lá na terra. Ela e a sua família viviam num acampamento de caçadores com cerca de 60 outras pessoas. Quando se tornou adolescente, a sua família estabeleceu-se numa cidade.

“Tenho saudades de viver na terra”, diz ela enquanto comíamos um jantar de salmão do Ártico no forno. “Morávamos numa casa de colmo. Quando acordávamos de manhã, estava tudo congelado até acendermos a lamparina.”

Pergunto-lhe se conhece a obra de Jean Briggs. A sua resposta deixou-me sem palavras.

Ishulutak enfia a mão na bolsa e tira o segundo livro de Briggs, Inuit Morality Play, que detalha a vida de uma menina de três anos chamada Chubby Maata.

“Este livro é sobre mim e a minha família”, diz Ishulutak. “Eu sou Chubby Maata.”

No início da década de 1970, quando Ishulutak tinha cerca de três anos, a sua família recebeu Briggs em sua casa por seis meses e permitiu que ela estudasse os detalhes íntimos da vida quotidiana da sua filha.

Myna Ishulutak hoje, em Iqaluit, Canadá. Mãe de dois rapazes crescidos, ele diz: "Quando estou sempre a gritar com eles, eles a modos que me bloqueiam. Por isso há um ditado: Nunca gritar com eles."
[Johan Hallberg-Campbell/NPR]

O que Briggs documentou é um componente central da tarefa criar filhos calmos.

Quando uma criança no acampamento agia com cólera – quando batia em alguém ou tinha um acesso de raiva – não havia punição. Em vez disso, os pais esperavam que a criança se acalmasse e então, num momento de paz, faziam algo que Shakespeare compreenderia muito bem: encenavam um drama. (Como o Bardo escreveu uma vez, “é com o teatro que agarrarei a consciência do rei”.)

“A ideia é dar à criança experiências que a levarão a desenvolver o pensamento racional”, disse Briggs ao CBC em 2011.

Em suma, os pais vão representar o que aconteceu quando a criança se comportou mal, incluindo as consequências desse comportamento na vida real.

Os pais têm sempre um tom brincalhão e divertido. E em geral a performance começa com uma pergunta, tentando a criança a portar-se mal.

Por exemplo, se a criança bate noutras pessoas, a mãe pode começar o drama a perguntar: "Porque é que não me bates?”

Então, a criança tem que pensar: “Que devo fazer?” Se a criança morde o isco e bate na mãe, ela não a repreende ou ralha, mas, em vez disso, expõe as consequências. “Ai, isso dói!”, pode exclamar.

A mãe continua a sublinhar as consequências, fazendo uma pergunta complementar. Por exemplo: “Não gostas de mim?” ou “És um bebé?" Está a transmitir a ideia de que bater fere os sentimentos das pessoas, e “meninos grandes” não batem. Mas, mais uma vez, todas as perguntas são feitas com um toque de brincadeira.

A mãe ou pai repetem o drama de vez em quando, até que a criança pare de bater na mãe durante os dramas e o mau comportamento termine.

Ishulutak diz que esses dramas ensinam as crianças a não se deixarem provocar facilmente. “Ensinam-nos a ser fortes emocionalmente”, diz ela, “a não levar tudo tão a sério ou a não ter medo de provocações.”

A psicóloga Peggy Miller, da Universidade de Illinois, concorda: “Quando somos pequenos, aprendemos que as pessoas irão provocar-nos, e esses dramas ensinam a pensar e a manter algum equilíbrio.”

Por outras palavras, os dramas oferecem às crianças a possibilidade de praticar o controlo da ira, diz Miller, durante momentos em que não estão mesmo a sentir ira.

Esta prática é provavelmente crítica para as crianças que aprendem a controlar a sua cólera. Porque com a cólera dá-se isto: quando já estamos com cólera, não é fácil para nós reprimi-la – mesmo para os adultos.

“Quando tentamos controlar ou mudar as nossas emoções no momento, isso é muito difícil de fazer”, diz Lisa Feldman Barrett, psicóloga da Northeastern University que estuda como as emoções funcionam.

Mas, se praticamos ter uma resposta diferente ou uma emoção diferente nos momentos em que não estamos com raiva, teremos uma melhor possibilidade de controlar a raiva nesses momentos críticos, diz Feldman Barrett.

“Esta prática, essencialmente, ajuda a fazer novas ligações cerebrais para permitir criar uma emoção diferente [além da raiva] com muito mais facilidade”, afirma.

Esta prática emocional pode ser ainda mais importante para as crianças, diz a psicóloga Markham, porque os seus cérebros ainda estão a desenvolver os circuitos necessários para o autocontrolo.

“As crianças têm todos os tipos de grandes emoções”, diz ela. “Não têm muito córtex pré-frontal ainda. Portanto, o que fazemos para responder às emoções dos nossos filhos molda o seu cérebro.”

Muita coisa mudou no Ártico desde que o governo canadiano forçou as famílias inuit a estabelecerem-se em cidades. Mas a comunidade está a tentar preservar as práticas parentais tradicionais.
[Johan Hallberg-Campbell/NPR]

Markham recomenda uma abordagem próxima da usada pelos pais inuits. Quando a criança se comporta mal, sugere esperar até que todos estejam calmos. Então, num momento de paz, rever o que aconteceu com a criança. Pode-se simplesmente contar-lhe a história do que aconteceu ou usar dois bichos de peluche para encenar.

“Estas abordagens desenvolvem o autocontrolo”, diz Markham.

Mas é preciso garantir que fazemos duas coisas ao encenar o mau comportamento, diz ela. Primeiro, manter a criança envolvida, fazendo muitas perguntas. Por exemplo, se a criança tem um problema de bater, podemos parar a meio do espetáculo de marionetas e perguntar: “O Bobby, quer bater agora. Deve?”

Segundo, asseguremo-nos que a criança se mantém divertida. Muitos pais negligenciam a brincadeira como ferramenta de disciplina, diz Markham. Mas o teatro de fantasia oferece inúmeras oportunidades de ensinar às crianças o comportamento adequado.

"Brincar é o trabalho deles”, diz Markham. “É assim que aprendem sobre o mundo e sobre suas experiências.”

O que parece ser uma coisa que os Inuit conhecem há centenas, talvez até milhares de anos.

Os pais inuits valorizam o lado lúdico das crianças, mesmo quando as disciplinam. Acima: Maata Jaw e a filha.
[Johan Hallberg-Campbell/NPR]

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