19 de dezembro de 2020

Os esquadrões da morte afegãos da CIA

The Intercept documenta atuações terroristas dos EUA no Afeganistão:

"O zumbido de um drone à noite foi o primeiro sinal de problemas.

Em seguida, veio o rugido de um avião maior, a voar baixo, que alertou os residentes da aldeia afegã de Omar Khail de que havia soldados nas proximidades. Homens camuflados percorriam as ruas falando pachto e inglês. Era dezembro de 2018 e o ar estava gélido. Seguiram para a madrassa, ou escola religiosa, onde mais de duas dúzias de meninos com idades entre 9 e 18 anos dormiam no chão de vários dormitórios.

Um vizinho que observava de uma janela do outro lado da rua viu um flash e ouviu uma forte explosão quando o portão da frente da madrassa foi arrombado. Lá dentro, o barulho acordou Bilal, de 12 anos, que estava encolhido numa sala com outros nove meninos, quando um soldado afegão irrompeu pela porta.

'Acorda!' o homem gritou em pachto, apontando para os meninos um a um com o cano da sua espingarda, no qual estava montada uma lanterna. Um segundo soldado entrou, escolheu os dois rapazes mais altos e conduziu-os porta fora. O primeiro soldado virou-se para sair, mas antes disso, proferiu um aviso ao resto dos meninos que se agachavam diante dele: 'Se eu os encontrar nesta madrassa novamente, não deixaremos uma única criança viva.'

Bilal e os outros espremeram-se o mais longe que podiam da porta, de costas para uma grande janela que dava para um pátio central. Muitos choravam; outros não conseguiam falar. Do corredor, Bilal ouviu palavras que reconheceu como inglesas.

'Eles não nos vão deixar viver', murmurou um aluno.

Em preparação para a morte, alguns dos meninos recitaram a declaração de fé muçulmana, conhecida como Shahada: 'Não há Deus senão Alá, e Maomé é o seu Profeta'.

Nesse momento, o som de tiros automáticos rasgou o corredor. 'Por um tempo muito curto', disse Bilal, parecia que 'havia muitas armas'. Os gritos dos rapazes vieram a seguir, seguidos de duas fortes explosões. 'Uma sacudiu todo o edifício', disse Bilal. 'Não ouvimos mais nada depois disso. Ficámos todos calados.'

Quando o sol nasceu horas depois, Bilal e cerca de uma dúzia de outros alunos permaneciam agachados em silêncio, alguns ainda a tremer de medo. Perto dali, em duas das outras salas da escola e na cave, mais 12 rapazes, com os corpos rasgados por balas, estavam espalhados no chão."

Bilal, de 12 anos, sobreviveu a um ataque noturno em dezembro de 2018, na sua madrassa na província de Wardak, no Afeganistão, durante o qual 12 outros meninos foram massacrados. “Havia americanos no corredor”, disse Bilal a The Intercept. “Podíamos ouvi-los a falar.” [Foto: The Intercept / Andrew Quilty / Agence Vu]

Crime de guerra isolado? Não. Estes actos fazem parte de uma política generalizada:

"Os 12 meninos mortos na madrassa de Omar Khail, naquela noite de inverno, estavam entre dezenas de civis massacrados durante pelo menos 10 raids noturnos não documentados anteriormente na província afegã central de Wardak. Começando em dezembro de 2018 e continuando por pelo menos um ano, os agentes afegãos, que se acredita pertencerem a uma unidade paramilitar de elite treinada pela CIA conhecida como 01, em parceria com as forças de operações especiais dos EUA e o seu poder aéreo, desencadearam uma campanha de terror contra civis. Esta história é baseada em entrevistas com mais de 50 residentes de Wardak, incluindo 20 sobreviventes e testemunhas em primeira mão e 29 parentes das vítimas e residentes locais que testemunharam as consequências das mortes, poucas horas depois de terem ocorrido. Alguns desses relatos foram corroborados por autoridades locais, analistas e representantes da comunidade.

Os 10 ataques resultaram na morte de pelo menos 51 civis, de acordo com o relatório de The Intercept. Na maioria dos casos, homens e meninos de apenas 8 anos, poucos dos quais parecem ter tido qualquer relação formal com os Talibãs, foram executados sumariamente. Alguns morreram sozinhos, outros ao lado de amigos e familiares. Vários ataques foram acompanhados por ataques aéreos ou, pelo menos num caso, pela detonação de explosivos lançados à mão em estruturas conhecidas por serem ocupadas por civis."

[...]

Moradores de quatro distritos de Wardak – Nerkh, Chak, Sayedabad e Daymirdad – falaram de uma série de massacres, execuções, mutilações, desaparecimentos forçados, ataques a instalações médicas e ataques aéreos contra estruturas conhecidas por alojar civis. As vítimas, segundo esses residentes, raramente eram talibãs. No entanto, a unidade afegã e seus amos americanos nunca foram publicamente responsabilizados pelo governo afegão ou pelo dos Estados Unidos."

A história da utilização de milícias locais pela CIA é muito longa e triste. Desde a sua fundação, a agência tem organizado, financiado e dirigido, por exemplo, grupos anticomunistas na Grécia, em Cuba, no Vietname, no Laos e na América Central, bem como os mujahidines afegãos na década de 1980. Desde os ataques de 11 de setembro, a CIA reaproveitou e acelerou o uso desses métodos, dispensando treino e armas a supostos aliados, da Somália à Síria, com resultados muito duvidosos.

No caso do Afeganistão, não se trata de milícias civis, mas de unidades militares secretas integradas na Direção de Segurança Nacional do Afeganistão. Os seus efetivos ganham muito acima do ordenado das tropas regulares do país, são sujeitos a um treino rigoroso por parte de militares dos EUA e agem inteiramente sob o controlo do país ocupante, sem sequer comunicar o que fazem às restantes estruturas militares afegãs — e no terreno são sempre acompanhadas por tropas especiais americanas.

As populações vítimas desta campanha de terror conhecem bem estas tropas, pelo seu modo de operação: aparecem quase sempre de noite, acompanhadas pela panóplia completa do poder aéreo dos EUA: drones, helicópteros e jatos de ataque, aviões de apoio de artilharia Hércules AC-130. Vêm transportadas também em helicópteros americanos Chinook.

Para além do seu aspeto criminoso, tal política de terror suscita também dúvidas sobre a sanidade de quem a planeia. Na verdade, se o objetivo fosse ajudar os Talibãs a recrutar militantes, esta atuação do poder ocupante seria a ideal.

No pensamento tortuoso de quem decide estes crimes, parece que as madrassas se tornaram objetivo militar. Como, aparentemente, os Talibãs recrutam militantes entre os estudantes destas escolas islâmicas, os cérebros brilhantes de Langley decidiram que se aterrorizassem as crianças iriam dissuadi-las. Há aqui também a loucura do desespero: é que nada do que os EUA tentaram no Afeganistão resultou, nesta guerra de 18 anos prestes a saldar-se por mais uma derrota estratégica.

Mas não nos esqueçamos de quem é o responsável: Este tipo de operações secretas só pode ser autorizado por uma pessoa: o presidente dos Estados Unidos. Esta orientação parece corresponder a declarações de Trump, de que os EUA já não estavam a fazer nation building, mas a "matar terroristas". O que é mais uma mentira de Trump: não andam a matar terroristas, andam a eles próprios a ser terroristas.

Esta estratégia terrorista parece ter o objetivo de permitir uma saída não demasiado vergonhosa das tropas dos EUA do Afeganistão, o que, certamente, não vai acontecer. Note-se que o democrático Obama, antecessor de Trump, também não teve um cadastro nada honroso no Afeganistão, ao privilegiar os assassínios e ataques com drones e bombardeamentos, teoricamente contra os Talibãs e o Daesh, na prática, maioritariamente, contra civis.

Outros ataques a madrassas

The Intercept descreve outros ataques às crianças das escolas islâmicas:

"11 de maio de 2019, Dadow Khail: Soldados entraram na madrassa da aldeia e saíram com vários rapazes. 'Ouvimos os meninos a implorar pelas suas vidas – a gritar e a chorar', disse Safiullah Mahmand, de 27 anos. 'Então, ouvimos o tiroteio.' Ao amanhecer, um velho descobriu uma pilha com os corpos de seis meninos na boca de um canal de irrigação. A vítima mais jovem tinha 10 anos.

29 de junho de 2019, Sar Posh: Helicópteros desceram a um vale, despejando soldados que destruíram a casa de um comandante local dos Talibãs, antes de subirem um vale estreito para a madrassa da aldeia. Quando os tiroteios e as explosões diminuíram e os soldados se foram embora, os moradores deitaram os corpos de nove meninos numa fila na rua. 'As pessoas disseram que a 01 veio com americanos num ataque noturno', disse um parente das vítimas ao The Intercept. Eles 'foram à madrassa, lançaram granadas e mataram os alunos'."

O mapa mostra a localização de pelo menos 10 raids noturnos, anteriormente não documentados, por agentes afegãos, que se acredita pertencerem a uma unidade paramilitar de elite treinada pela CIA conhecida como 01. [Mapa: The Intercept]

Depois do massacre

The Intercept retoma a narrativa do massacre de Omar Khail, desta vez na perspetiva de um professor da escola:

"Horas antes do nascer do sol, no sábado, 15 de dezembro de 2018, algumas dezenas de meninos de Wardak deixaram as suas aldeias, um ou dois de cada vez, para fazer a viagem semanal para a madrassa em Omar Khail, onde viveriam e estudariam por cinco dias antes de voltarem a casa para passar o fim-de-semana com as suas famílias.

Jamshid e Assad Khan tinham cerca de três quilômetros para caminhar, uma viagem que geralmente levava uma hora. Os irmãos estudavam juntos na madrassa de Omar Khail há quatro anos e conheciam bem a rota. Jamshid, de 13, já era um Qari, alguém que recita o Alcorão. Algumas noites depois das aulas na madrassa, ele e Assad Khan, de 10 anos, jogavam críquete com os outros alunos até escurecer.

Os sapatos dos meninos eram velhos e mal presos com cola. Antes de Jamshid e Assad Khan partirem naquela manhã, pediram ao pai que trouxesse sapatos novos de Cabul, onde ele trabalhava durante a semana, importando mercadorias do Paquistão e revendendo-as aos comerciantes locais. Ele prometeu que o faria.

Rapazes vieram de Nerkh naquela manhã. Malik Urfan, de 12 anos, veio de Tokarak na sua bicicleta; Safi, de 12 anos, carregando a roupa de cama para a semana, viajou num táxi compartilhado com o seu primo Jalal de Pirdad — como estudantes de madrassa, não tinham que pagar; Kamran, também com 12 anos, atalhou pelos campos a pé para uma viagem de uma hora de Suliman Khwar; e os irmãos Arman e Rafi, de 12 e 9, caminharam juntos da vizinha Kosai. O céu ainda estava escuro quando várias dezenas de meninos, incluindo os de Omar Khail, se juntaram ao professor Mawlawi Sadiq e ao restante corpo docente, no início da semana.

Três dias depois, na noite de terça-feira, 18 de dezembro, depois dos meninos e professores que moravam nas proximidades terem ido para casa passar a noite, os 25-30 alunos restantes sentaram-se para um jantar de batatas, feijão vermelho e pão. Por volta das 22h, estavam a dormir em quartos ao longo de um corredor na frente do edifício ou na cave, que era mais quente no inverno.

Por volta das 18h00, Mortazawa, um lojista de 23 anos, estava em casa com a sua família, em Omar Khail, quando ouviu o zumbido leve de um mosquito no céu. Soube que haveria um ataque naquela noite.

Eram 22h30. quando, dentro da casa da sua família, do outro lado da rua da madrassa, Mohammad Ghafar ouviu vários aviões a rugir por cima. Por essa altura, disse ele mais tarde, já os conhecia de ouvido. Um que ele ouviu — um avião de artilharia AC-130 — assinalou a presença de soldados no chão. Outro residente disse que os aviões voavam tão baixo que as janelas da sua casa tremeram.

Ghafar subiu as escadas e espreitou por uma pequena janela voltada para a madrassa, do outro lado da rua. Minutos depois, uma coluna de grandes blindados pesados ​​entrou pesadamente na aldeia. Os soldados caminhavam ao lado dos veículos, passando por baixo da sua janela. 'Havia uma mistura de soldados afegãos e americanos', lembrou Ghafar.

A coluna seguiu em frente, reconhecendo a área, depois voltou para a frente da madrassa. Dezenas de soldados subiram pelo acesso a pé. Ghafar ouviu uma forte explosão e viu um flash de luz. Tinham feito explodir o portão da frente da madrassa. Ghafar encolheu-se para longe da janela e correu de volta à sua família, lá embaixo.

Por essa altura, embora as casas da aldeia continuassem às escuras, quase todos em Omar Khail estavam acordados. Um vendedor de frutas disse que as suas duas irmãs mais novas ficaram apavoradas. 'Todos estávamos a tentar mantê-las quietas. Às vezes o meu pai segurava-as, às vezes a minha mãe e às vezes eu.'

Os homens da aldeia também estavam preocupados. Eles tinham ouvido histórias da 01 visar casas de civis em Wardak. Foi a consistência das táticas, assim como dos seus recursos e capacidades, que definiram a 01 em toda a província. Isso, e as manifestações de ignorância com que as famílias das vítimas e os anciãos locais eram recebidos quando confrontavam as autoridades governamentais, mais tarde, sobre os danos e as mortes.

Dentro de um dos dormitórios da madrassa, Bilal, de 12 anos, estava encolhido com outros sete meninos, depois dos dois soldados afegãos que entraram terem saído com os dois alunos de aparência mais velha. 'Havia americanos no corredor', disse ele a The Intercept. 'Podíamos ouvi-los a falar.'

Mawlawi Sadiq, um dos quatro professores da madrassa, começou o seu primeiro trabalho a ensinanr jovens estudantes religiosos há sete anos, em Omar Khail. Os Talibãs só tinham uma pequena presença na aldeia então; em dois anos, entretanto, estavam firmemente no controlo. Mas Sadiq manteve uma neutralidade cuidadosa, disseram vários residentes. Ele 'não declarou simpatia nem pelo governo nem pelos Talibãs', lembrou um homem. 'Ele só ensinava os seus alunos.'

Sadiq e a sua família também foram despertados pelo clamor daquela noite. A sua casa ficava a quase um quilómetro de onde a coluna parara perto da madrassa, mas o seu pai gritou de outro quarto: 'Não saias! Vais levar um tiro!'

'Todo o som parou antes do nascer do sol', disse Sadiq. Após a oração do amanhecer, quando a primeira onda de cor encheu o céu oriental, ele saiu de casa com o seu irmão. Caminharam rapidamente. Outros vieram também; espalhou-se a notícia de que a madrassa tinha sido invadida e os moradores convergiram de todas as direções.

'Quando vi esta situação horrível, desmaiei', disse Sadiq, enterrando o rosto nas mãos e chorando baixinho ao relembrar a cena. 'Quando imagino', disse ele, 'isto tortura-me.'

Abdullah, um vizinho de 50 anos, também esteve lá. 'Primeiro, quando abrimos as portas, os meninos não conseguiam nem andar nem falar', disse ele, referindo-se aos que ainda estavam vivos. 'As suas mãos tremiam [e] seus olhos estavam bravios.'

Os homens levaram os meninos para fora, tentando protegê-los da visão do massacre. Um dos sobreviventes, um menino de 8 anos, olhou para dentro de uma sala onde os corpos retorcidos de cinco colegas estudantes estavam espalhados pelo chão. 'Eles vão voltar', disse a Abdullah, 'e vão-nos matar'.

Arranjaram carros para levar cerca de uma dúzia de meninos sobreviventes para casa.

Quando dois irmãos de 7 e 8 anos chegaram em casa, o seu irmão mais velho, Zainullah, viu a expressão de terror nos seus rostos. 'Não conseguiram falar por três dias', disse ele. 'Quando falaram, disseram-nos que [os soldados] agarraram nos alunos mais velhos, encostaram-nos à parede e abriram fogo em frente dos seus olhos.' Os irmãos disseram que foram poupados por causa da sua juventude.

Um dos professores mais novos da madrassa — 'ele devia ter 16 anos' — foi o rapaz mais velho que Abdullah viu entre os mortos. Os homens que reconheceram os meninos mortos contactaram as famílias; quando os telefones não funcionavam, mandavam um recado de carro. Antes da chegada dos pais e irmãos, 'arranjámos os corpos e limpámos um pouco as faces', disse Abdullah. 'Não queríamos que as famílias vissem onde e como foram mortos.'

Em pouco tempo, uma multidão reuniu-se e, um por um, os corpos foram retirados e levados. Assad Khan e Jamshid, os irmãos a quem o pai tinha prometido trazer sapatos novos, estavam entre os mortos.

O seu pai, Mahmoud, ainda estava em Cabul quando a esposa ligou em pânico. Ela não disse o que havia de mal, mas disse-lhe ele para voltar para casa imediatamente. Ao sair de Cabul, ele parou num bazar e comprou dois pares de sapatos infantis. Chegou a casa a meio da manhã, não muito depois dos corpos dos seus filhos.

'Que Alá os destrua a todos!', disse ele, lembrando-se do momento em que viu os seus filhos mortos. Havia muitos ferimentos de bala. De acordo com o costume islâmico para mártires mortos na guerra, foram enterrados sujos, vestindo as roupas com as quais foram executados.

O irmão de dois outros meninos mortos na madrassa jurou retaliar contra os americanos. 'Não estamos no país deles', disse ele a The Intercept. 'Eles estão no nosso país e a atacar-nos... Vou-me vingar dos meus irmãos e de todos os outros inocentes mortos!'

Quando Mawlawi Sadiq, o professor dos meninos, recobrou a consciência, depois de desmaiar na madrassa, estava em casa. Estava num estado mental tão mau que o seu pai não o deixou sair de casa para comparecer a quaisquer orações fúnebres ou enterros.

No dia seguinte, foi à madrassa. 'Havia sapatos e livros por todo o lado', disse ele. 'Havia buracos de bala dentro da madrassa e também na cave, no chão e nas paredes... Havia sangue por todo o lado.'

Questionado sobre se havia alguma possibilidade dos os meninos serem guerrilheiros, Sadiq foi categórico: 'Não, não há nenhuma possibilidade', disse ele. 'Eu conhecia as atividades daqueles meninos. Eram crianças.'

Ele não voltou a ensinar desde o ataque.

Hoje, o pai de Hassad Khan e Jamshid, Mahmoud, vagueia indiferente entre a culpa, o desespero e os pensamentos de vingança. Durante o inverno com neve, após a morte dos seus filhos, recusou-se a usar sapatos porque não os havia fornecido aos seus filhos. Quando um canal de irrigação que passa pela sua casa inundou, não teve coragem de limpá-lo. Eventualmente, a água infiltrou-se sob a parede e ela entrou em colapso. Como Mahmoud parou de trabalhar e não tinha dinheiro, os seus vizinhos pagaram as reparações.

Sempre que vê polícias ou soldados afegãos, ataca-os com qualquer arma que esteja ao alcance. Já foi espancado várias vezes por causa disso. Mas a sua maior fúria está reservada aos americanos. 'Se eu me vingar', diz ele, 'se eu matar pelo menos dois ou três deles, o fogo no meu coração vai apagar-se.'

A sua esposa, Malika, pratica rituais. Nas noites de quinta-feira, diz Mahmoud, coloca os dois turbantes de seda que os seus filhos usavam na madrassa em cima de travesseiros e diz à sala: 'Hoje, os meus filhos vão voltar para casa.' E, todas as manhãs e todas as noites, ela limpa os sapatos que Mahmoud trouxe de Cabul para casa e dispõe-os para os seus filhos."

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