Céu e Inferno: uma história da vida depois da morte
Sempre me intrigaram duas noções que coexistem no pensamento cristão, ambas absurdas, mas totalmente incompatíveis, sobre a vida depois da morte. Primeiro, a profecia de que os mortos hão-de ressuscitar na sua carne física, no dia do Juízo Final, em cenas que os filmes de terror têm ilustrado inúmeras vezes: os cadáveres a surgir das sepulturas nos cemitérios, a carne e os ossos a recomporem-se, de preferência com música sinistra a acompanhar. Essa cena de filme está ancorada em sólida teologia, é declamada mesmo no Credo, a oração aprovada no Concílio de Niceia, em 325, como declaração de princípios comum: “Creio na Ressurreição dos mortos…” Depois, a noção de que existe uma alma, entidade espiritual e imortal, cuja vida, depois da morte do corpo físico, será recompensada ou punida eternamente por Deus. Tal alma não precisaria de esperar pelo Juízo Final nem dependeria do corpo, comparecendo imediatamente ao julgamento divino e encetando logo o seu estágio eterno de bem-aventurança ...