2018-12-20

Feliz na tal

Gosto de um Natal humano. De crianças felizes com as suas prendas, de famílias reunidas, de desejos de felicidade e bom ano a torto e a direito, de velhas canções sempre recicladas.

Esses desejos não são sinceros? São, quase sempre. O Natal é uma festa mercantil? Pois é, mas apenas reflete a sociedade em que vivemos. Não sou o indivíduo mais festivo da minha rua, mas gosto destas pequenas alegrias e boas vontades, destas luzes coloridas no meio da penumbra do inverno.

2018-12-14

Venda de (parte de) João Crioulo, de 12 anos

Documento da Biblioteca Nacional do Brasil, em formato digital. Trata-se da escritura da venda de uma criança, como uma mercadoria. A sua posse como escravo era repartida entre um casal e a viúva do pai do marido, porque o tinham herdado. A data é 1864.

2018-11-20

Preciso de remédios para tratar dos meus problemas mentais – porque é que não conseguem aceitar isso?

Maria Yagoda

Como serviço público, traduzi este artigo de Maria Yagoda, uma jornalista que escreve no site do portal Vice dedicado ao público feminino, de género não conforme e LBTQ Broadly. O artigo original está aqui.

Aos 27 anos, depois de uma década a tomar medicação para a depressão e para a ansiedade, estou acostumada a estranhos dizerem-me que em vez disso deveria tentar ioga ou fazer exercícios de respiração. Mas tenho a certeza de que a minha vida seria muito pior sem remédios.

Quem quer que lute com uma doença mental ou transtorno do humor tem que suportar rotineiramente uma ladainha de sentimentos, ideias, soluções e propostas não solicitadas, da parte de gente que se imagina doutor à mera sugestão de saúde mental. Um tema recorrente é a aversão à medicação. Falar abertamente sobre as tuas lutas de saúde mental é entrar em contacto com a crença generalizada de que tomar medicamentos é desnecessário, tóxico ou resultado de algum tipo de falha pessoal – como se não estivesses a esforçar-te que chegue para ser feliz e bem-ajustada.

2018-11-19

Ciência como constructo social: Aracnofobia

Tradução de um artigo no blogue Pharyngula.

PZ Myers

PZ Myers é um biólogo na Universidade do Minnesota-Morris (EUA) e autor do blogue de ciência Pharyngula. Este blogue tem uma legião de seguidores. Tem-se notabilizado na denúncia do criacionismo, na defesa da Evolução contra ataques religiosos e na defesa do ateísmo. É acérrimo defensor do feminismo.

2018-11-18

A lógica retorcida do 'direito histórico' dos judeus a Israel

Tradução de um artigo no diário israelita Haaretz.

Shlomo Sand

Shlomo Sand (pronuncia-se Zand) (Linz, 10 de setembro de 1946) é um historiador israelita, professor emérito de História na Universidade de Tel Aviv e autor do livro "A Invenção do Povo Judeu" (2009). Tem como principais áreas de interesse o nacionalismo, a história do cinema e a história intelectual francesa. A sua orientação política é anti-sionista. Neste artigo defende a posição de que não há qualquer direito histórico dos judeus a ocupar a Palestina e entra em polémica com Chaim Gans, um professor de Filosofia da mesma universidade, que procura arranjar uma justificação 'sionista de esquerda' para o estado de Israel.

2018-06-18

O Significado Gnóstico do Êxodo - R. Salm comenta H. Detering (5)

É fácil fartar-se com as muitas seitas e nomes que povoam a história da religião. Este e o próximo post mencionam os Terapeutas, o Mandaísmo, os Falasha, o Zoroastrismo, o Maniqueísmo, o Gnosticismo, o Budismo ... No entanto, defendo que tempos e lugares diferentes têm nomes diferentes para a mesma coisa – neste caso, o caminho para o conhecimento da vida (literalmente, Manda d'Haije em mandaico). Eu aconselho o leitor a focar-se na unidade de doutrina e perspetiva subjacentes, em vez de na pletora de nomes bastante enganosa. Desta forma, apreciará melhor a tentativa corajosa do Dr. Detering de construir uma ponte entre culturas e religiões cruzadas entre o Oriente e o Ocidente, baseada num exame do Êxodo, da travessia, do atingir "o outro lado".

2018-06-17

História Geral da África

Se tens curiosidade sobre a história africana e gostarias de ter acesso a uma versão não colonial e menos eurocêntrica (e, já agora, em português), aqui está esta coleção monumental  em oito volumes de PDFs gratuitos editados pela Unesco. Serve também, naturalmente, de obra de referência.

2018-06-08

O Significado Gnóstico do Êxodo - R. Salm comenta H. Detering (4)

Nota: A edição alemã do artigo do Dr. Detering, acaba de aparecer e está vinculada ao seu website aqui.

A edição em inglês, traduzida por Stuart Waugh, está iminente.

(Este post não tem código de cores, pois é inteiramente comentário meu. Muitas das informações abaixo são do meu ensaio "Pre-Rational Religion", Kevalin Press: 2010, difundido em privado. - RS)

Água sagrada e significado oculto abaixo da superfície

No seu tratamento do tema do Êxodo, o argumento do Dr. Detering centra-se no elemento da água e na sua interpretação alegórica. Como observado no post anterior, já no terceiro milênio AEC, Elam tinha um ritual de água sagrada, e a divindade mesopotâmica Enki era o Senhor da água, da sabedoria e da criação. Podemos perguntar: Porque foi a água usada como símbolo sagrado desde tempos tão primitivos?

2018-04-23

O Significado Gnóstico do Êxodo - R. Salm comenta H. Detering (3)

“O significado gnóstico do Êxodo e o começo do culto Josué / Jesus ”(2017)

Comentários de René Salm a um artigo de Hermann Detering (3)


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6 de abril de 2018

Código de cores: o material de Detering em castanho, os meu comentários em verde e pontos particularmente significativos (de qualquer um de nós) em vermelho.

2018-04-21

O Significado Gnóstico do Êxodo - R. Salm comenta H. Detering (2)

H. Detering, “O Significado Gnóstico do Êxodo” – Um comentário (Pt. 2)

René Salm (tradução de um post no seu blogue Mythicist Papers


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6 de abril de 2018

Código de cores: o material de Detering em castanho, os meu comentários em verde e pontos particularmente significativos (de qualquer um de nós) em vermelho.

O Significado Gnóstico do Êxodo - R. Salm comenta H. Detering (1)


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René Salm, um norte-americano criado em Beirute, pertence à corrente miticista, ou seja, os que defendem que não existe um Jesus histórico, mas a sua pesquisa tem duas originalidades: Durante anos, este autor dedicou-se a desmontar o mito de Nazaré. Tendo em conta que Nazaré não existia no suposto tempo de Jesus, ele desmascara a armadilha turística que é atualmente o suposto local do nascimento de Jesus. Insiste que o Nazareno não se refere a Nazaré, mas a uma seita preexistente, os nazoreanos.

2018-04-19

Riqueza traz felicidade? Até certo ponto...

A questão de saber se a riqueza traz felicidade ou não tem ocupado os filósofos e os moralistas há milénios. Vários ditos irónicos circulam, sendo o mais conhecido o de que o dinheiro não traz a felicidade mas ajuda muito. Os que prestam mais atenção ao desenvolvimento das qualidades morais tendem a desprezar o dinheiro ou até, como fazem os budistas, negar a noção de desejo. A felicidade seria o Nirvana, ou a morte do desejo.

A ciência tem o hábito de cortar nós górdios, substituindo palavreado por análise matemática e, neste caso, entrou na questão armada de um grande machado epistémico. Bom, a felicidade é subjetiva, mas a felicidade ou infelicidade de grandes números pode ser tratada como um dado objetivo. Porque é que não perguntamos às pessoas?

2018-04-15

Ordem & caos

Não sou colecionador de moedas, mas tinha algumas numa caixa. Moedas de um e de dois euros, cinquenta, vinte, dez, cinco e um cêntimo, umas quantas de cinquenta e vinte escudos dos tempos antigos, marcos e francos também de antes do euro, umas poucas peças inglesas e norte-americanas. Também levas e leuas das minhas passagens pela Bulgária e pela Roménia. Cinquenta escudos de Cabo Verde e um par de kwanzas. Até uns rublos da velha URSS que alguém me deu.

Resolvi arrumar todas as moedas em pilhas por denominação e valor. Todos os euros ficaram numa pilha de euros, os marcos numa pilha de marcos, os cinquenta cêntimos de euro na sua pilha, por aí fora. Terminada a tarefa, arrumei a caixa na minha secretária.

2018-03-22

Juventude europeia abandona religião

Tradução e adaptação do artigo Report Finds Young People in Europe Are Abandoning Organized Religion in Droves no blogue Friendly Atheist, de Hemant Mehta.

Um relatório recente (PDF), realizado pelo professor de teologia Stephen Bullivant, da Universidade St. Mary em Londres, descobre que muitas nações europeias estão a marchar rapidamente para longe da religião.

Basta olhar para a percentagem de "Nenhuns" (ateus, agnósticos, pessoas que não pertencem a nenhuma religião organizada) no grupo etário dos 16 aos 29 anos.

Na República Checa, 91% das pessoas com menos de 30 anos não têm nenhuma afiliação religiosa. E num conjunto de 12 países a opção "nenhuma" é maioritária na mesma faixa etária.

2018-02-03

Um Conto de Duas Caixas, Éticas Sexuais em Contraste

Tradução do artigo "A Tale of Two Boxes, Contrasting Sexual Ethics", no blogue Love, Joy, Feminism, de Libby Anne. Trata-se de uma autora com muito público, do canal não religioso (ateu) do portal de discussões sobre religião Patheos. Educada numa família fundamentalista cristã, Libby Anne foca-se habitualmente no seu percurso de deconversão e discute problemas enfrentados por quem fez o mesmo caminho.

Have you ever killed anyone?

The question was rhetoric and the answer obvious: of course not!

But...

I happened to be in Lisbon today dealing with some business. I needed lunch and entered a snack bar. Before seating down, I went to the bathroom to wash my hands. When I turned on the faucet, I caused a water collection station — far away, I'm not sure where, in the Lisbon water network — to sip in the small quantity of water I used.

I sat down and ordered a pork steak.

I did not kill that pig. It was already dead long before I decided I was going to have lunch there. But I killed the next pig. The steak I ate is missing in the fridge and before long the snack bar manager will call the butcher to ask for more. The butcher will call the slaughterhouse and dictate the death sentence of the next beasts. That was the consequence of my economic decision.

2018-01-29

Jesus cannot be the only Son of God

Even though we may never find our fellow sentient beings*, due to the enormous size of space-time and the brevity of our lives, these cultures certainly exist, existed, and will exist in the Universe. All those beings, don’t they need to be saved?

2018-01-22

Jesus não pode ser o único Filho de Deus

Mesmo que provavelmente nunca encontremos* os nossos congéneres, devido ao tamanho descomunal do espaço-tempo e à brevidade das nossas vidas, essas culturas decerto existem, existiram e hão-de existir. Não precisam todos esses seres de ser salvos?

2018-01-16

Cronologia do miticismo sobre Jesus

Um assunto que me interessa bastante é a questão de saber se Jesus foi uma figura histórica ou um mito. Do ponto de vista filosófico, não me faz qualquer diferença que Jesus seja um mito fantástico construído sobre a memória de algum humilde pregador e curandeiro da Palestina, ou que esse mito seja preexistente e se lhe tenha criado a lenda de uma pessoa real.

Está fora de questão é que tenha sido o deus em que os cristãos acreditam, ou mesmo o profeta da versão islâmica.

Mas, tendo em conta a minha história pessoal, doutrinado em criança nos dogmas do cristianismo, o assunto fascina-me porque quero saber até onde foi a minha alienação e a vastidão das ilusões que partilhei.

O miticismo sobre a figura de Jesus não é assunto novo nem moda moderna da Internet. Há séculos que estudiosos, sempre minoritários, das escrituras cristãs têm  aderido a esta explicação, mesmo por vezes à custa de perda dos seus empregos e outras sanções religiosas e civis.

A cronologia do miticismo de Jesus que aqui mostro resulta de uma tradução e adaptação de um artigo na página Myticist Papers, de René Salm.

2018-01-01

René Salm e o outro Jesus

Vários investigadores se têm dedicado ao problema da existência histórica do Jesus da fé cristã e concluíram que se trata de um personagem mítico. Esta corrente tem sido minoritária mas muito persistente. Alguns dos proponentes desta ideia não são aceitáveis, por lhes faltar a preparação académica, o conhecimento das linguagens antigas ou por se inclinarem para o conspirativismo.

No entanto, no fim do século XX o principal autor a defender a versão científica desta ideia, com amplo conhecimento da história, das linguagens e das ideias do tempo foi Earl Doherty, no seus livros e website The Jesus Puzzle.