2018-12-23

Contos de Natal - 3 - Tirem os Reis Magos do estábulo!

Presépio da Madre de Deus, Convento da Madre de Deus, Lisboa, Portugal

Présépio barroco – Convento da Madre de Deus, Lisboa, Portugal

Tradução do artigo O Holy Night! How Matthew Screwed Up the Christmas Story (Noite de Paz! Como Mateus fez asneira na história de Natal) em Debunking Christianity.

Por David Madison em 21/12/2018

Tirem os Reis Magos do estábulo!

Podemos imaginar os agentes literários de Mateus, Marcos, Lucas e João reunidos para beber um copo, uma sexta-feira à noite depois do trabalho. Todos eles recebem mensagens a dizer que o Comité Bíblico Autorizado da igreja decidiu publicar os quatro Evangelhos juntos, de enfiada. Todos estremecem. Não é boa ideia! Isso vai encorajar os fiéis a comparar os quatro relatos de Jesus. Mateus e Lucas plagiaram (e alteraram) Marcos extensivamente – sem contar a ninguém – e o autor do Evangelho de João tinha a certeza de que os outros três não haviam contado a história nada bem, e pelo que inventou coisas para "melhorar" o conto. Que trapalhada!

Mas, não temam, passariam muitos séculos antes que os fiéis tivessem acesso à Bíblia, e mesmo quando pudessem ter as suas próprias cópias, nunca desenvolveriam o hábito de comparar criticamente os quatro Evangelhos. Estes eram livros sagrados, afinal de contas, e qualquer coisa que parecesse suspeita ou difícil de engolir era apenas parte do mistério.

Chegou uma altura, porém, em que estudiosos piedosos do Novo Testamento decidiram estudar os Evangelhos usando os métodos dos historiadores, e tornou-se um desafio explicar a confusão. Especificamente, este foi o começo do fim para as narrativas de nascimento familiares em Mateus e Lucas, que falham em todos os relatos como história. Mas vamos examinar a versão de Mateus como se ele pensasse que estava a contar a verdade.

As tradições familiares têm tendência a manter-se, e os cristãos não estão prestes a desistir das suas cenas da Natividade, com pastores e Magos adorando o bebé Jesus num estábulo. Os fiéis não parecem notar que esta representação é uma salada impossível de Mateus e Lucas. Esses dois autores escreveram histórias diferentes sobre o nascimento de Jesus – na verdade, Mateus não descreve o nascimento de Jesus – e, se os cristãos prestassem atenção, poderiam facilmente descobrir.

Aposto que nunca notou

Tem sido muito fácil deixar passar as trapalhadas de Mateus. Bem, são trapalhadas da nossa perspetiva, já que somos capazes de comparar os Evangelhos e ter uma ideia muito melhor de como o mundo funciona.

A história de Mateus nem sequer acontece na época do Natal; ele não diz nada sobre a noite em que Jesus nasceu. Sem estábulo, sem pastores, sem anjos. O foco de Mateus era o conto desastrado dos Reis Magos, e parece ter datado a visita bem depois do nascimento de Jesus. Estes astrólogos aparentemente viram uma estrela que apareceu quando Jesus nasceu e então propuseram-se encontrá-lo. Quanto tempo demoraram para chegar lá? Um palpite comum é que os magos eram sacerdotes zoroastrianos da Pérsia, e isso significaria uma caminhada de mil e quinhentos quilómetros ou mais.

Quando chegaram a Belém – depois de um desvio por Jerusalém (mais sobre isso depois) – chegaram à casa (não a um estábulo) onde Maria e a criança estavam (Mateus 2:11). Não um recém-nascido, mas um paidion – a palavra grega para criança pequena. Em Mateus 19:14, o próprio Jesus usa a mesma palavra: “Deixai vir a mim as crianças”. O bebé recém-nascido (grego brefos), envolvido em panos numa manjedoura, é encontrado no relato de Lucas da noite em que Jesus nasceu, presumivelmente semanas ou meses antes. Assim, as cenas da Natividade, que incluem os Reis Magos ajoelhados frente ao estábulo para apresentar os seus presentes, fazem parte da salada impossível. Note também Mateus 2:16, que relata a operação de Herodes para eliminar Jesus: “...ficou muito irado e mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o seu território, da idade de dois anos para baixo, conforme o tempo que, diligentemente, tinha inquirido dos magos".

O Jesus na história de Mateus poderia ter sido um uma criança pequena, não um bebé. Então, por favor, cristãos, tirem esses magos do estábulo!

Misturando Teologia com Astrologia

Ainda mais inepta, no entanto, é a invenção por Mateus de astrólogos "do Oriente" em primeiro lugar. Porque se importariam eles com o nascimento de um Messias judeu? Como é que poderiam "ver uma estrela" e inferir que tinha alguma coisa a ver com um pedaço de teologia judaica? Bem, os astrólogos dizem coisas ainda mais incoerentes do que os teólogos. Então, não, Mateus, isto não faz sentido.

E como é que os cristãos se podem sentir confortáveis ​​a abraçar a astrologia, especialmente no que concerne a história de Jesus? Que presságios no céu estão relacionados com pessoas famosas era uma superstição comum da época; queriam mesmo os cristãos ir por aí? Seria difícil imaginar como a astrologia – a noção de que os destinos humanos são determinados por alinhamentos estelares e planetários – pode ser enxertada na teologia cristã. A astrologia prospera onde não há compreensão do viés de confirmação e a capacidade de pensamento crítico entrou em colapso; a teologia tem uma epistemologia fraca, a astrologia não tem nenhuma.

Porquê o Nilo?

Os disparates de Mateus tornam-se ainda piores. Ele é bem conhecido pelas ultrajantes citações do Antigo Testamento fora do contexto para "provar" que Jesus era o Messias, e talvez o exemplo mais notório seja seu uso (Mt 2:15) de Oseias 11:1: “Quando Israel era ainda menino,eu amei-o, e chamei do Egipto o meu filho". Sim, Oseias queria dizer Israel. Mas Mateus queria desesperadamente fazer com que isto se aplicasse a Jesus. Como iria conseguir meter José, Maria e Jesus no Egito?

Deus disse a José num sonho que Herodes estava prestes a entrar em fúria, por isso eles deveriam fugir para ... onde? Porque iriam para o Egito entre todos os lugares? Não é que o bebé Jesus tivesse sido marcado de alguma forma (o halo não foi adicionado até que os artistas trabalharam na história muito mais tarde), então a Sagrada Família poderia ter-se misturado entre os camponeses quase em qualquer lugar longe de Belém. Mas para o enredo forçado de Mateus, tinha que ser o Egito.

Por fim, tiveram que voltar para casa. Mas a casa era onde? José planeava voltar para a Judeia (Mt 2:22) – de volta a Belém, presumivelmente – mas isso ainda era inseguro, então “...retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré...”. Parece que foram para lá pela primeira vez! A suposição de Mateus era que José e Maria haviam morado sempre em Belém.

Lucas pensava que eles estavam originalmente baseados em Nazaré, e teve que encontrar uma maneira de levá-los a Belém para o nascimento. Por isso, falou de um censo que exigia que as pessoas fossem aos seus lares ancestrais para serem "registadas". Por diversos motivos, os historiadores descartaram a história como um disparate. Obviamente, havia uma forte tradição de que Jesus era de Nazaré; Lucas teve Maria e José lá desde o começo; Mateus trouxe-os para lá depois de abandonarem a sua casa em Belém. Mais salada impossível.

A estrela estraga tudo

Anteriormente chamei a história dos Reis Magos "desastrosa" porque, da maneira como Mateus a conta, muitas crianças pequenas acabaram por ser mortas. Ele relata que os astrólogos se dirigiram a Jerusalém para indagar onde a criança santa poderia ser encontrada. Os principais burocratas religiosos, consultados por um alarmado rei Herodes, concordaram que Belém era o lugar, baseado em Miqueias 5:2, "... é de ti que me há-de sair aquele que governará em Israel". Então os Reis Magos partem para Belém, mas agora – esperem! – a estrela transformou-se num GPS!

“…E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou" (Mateus 2:9-10).

Robert Price justamente ridicularizou esta história: “… nenhuma estrela pode identificar um casebre individual do alto no espaço. Já não estamos a falar de uma estrela, como no começo da história dos Magos. Estamos a falar da fada Sininho".

Na verdade, estamos a falar de uma grande falha no enredo e de um Deus incompetente que não pensou em nada; ou foi apenas Mateus que não notou a incompetência de Deus? Mais uma vez, Robert Price, que diz que temos que perguntar:

“… Porque é que a estrela Sininho os levou primeiro a Jerusalém, a cidade errada – e muito pior – a Herodes, que só se deu conta do nascimento de um potencial rival depois dos magos perguntarem sobre o recém-nascido rei dos judeus. Foi então e só então que Herodes resolveu matar Jesus. Porque é que o dispositivo de orientação celestial de Deus não os levou diretamente a Belém, em primeiro lugar, como eventualmente acabou por fazer? Herodes, então, não teria conhecimento do nascimento e não teria razão para enviar um esquadrão da morte para matar todos os meninos de Belém". (Robert Price, Blaming Jesus for Jehovah: Rethinking the Righteousness of Christianity, pp. 22-23, negrito adicionado). Mas, claro, Mateus precisava do esquadrão da morte como pretexto para levar Jesus ao Egito.

Mateus achava que poderia dar um impulso ao culto a Jesus afirmando que uma estrela no céu tinha marcado a chegada de seu herói à terra – e até mesmo padres estrangeiros vieram adorá-lo. A literatura de fantasia religiosa não precisa de estar em conformidade com a lógica.

Essa outra citação errada

Talvez me critiquem por sugerir mais acima que o uso de Oseias 11:1 por Mateus era sua citação errada mais espantosa. O seu maior erro, sem dúvida, que foi notado há muito tempo e tem sido discutido ad infinitum, é o uso de um erro de tradução de Isaías 7:14 na versão grega do Antigo Testamento: “a jovem está grávida e vai dar à luz um filho". No hebraico original, a palavra não é virgem, mas simplesmente jovem e, no contexto de Isaías 7, refere-se a uma situação política / militar na época. Não tinha nada a ver com o nascimento de um Messias séculos depois. Ao puxar esse texto para sua história, Mateus foi desleixado ou desonesto &ndasn;–talvez ambos.

Mas a questão ainda maior é porque terá Mateus pensado que seria boa ideia enxertar o nascimento virginal na história de Jesus. Este conceito claramente derivou de outras religiões do mundo antigo (veja Richard Carrier, Virgin Birth: It’s Pagan, Guys. Get Over It). Seria uma questão de "seja o que for que o teu deus pode fazer, o meu deus pode fazer melhor"? Ou Mateus só queria ter certeza de que o pedigree divino de Jesus estava garantido? “... o que ela concebeu é obra do Espírito Santo” (Mt 1:20).

Esta é uma opinião minoritária no Novo Testamento, a propósito. Lucas aderiu com entusiasmo, mas Marcos não sabia nada sobre da questão; para ele, o status de Jesus foi selado no seu batismo e na sua transfiguração. Para o apóstolo Paulo, a ressurreição era tudo o que importava, e provavelmente não teria mencionado o nascimento virginal, mesmo que tivesse ouvido falar no assunto. O autor do Evangelho de João certamente conhecia a história de Mateus, mas não precisava dela, não a queria: o seu Jesus estava presente na criação! Talvez achasse que o nascimento virginal era, a seu tempo, um cliché.

Uma das consequências infelizes resultantes foi a idealização da castidade e o exagero da virtude de Maria. De facto, na piedade católica, Maria teve que permanecer virgem para preservar sua santidade especial; o que é um desafio para os apologistas católicos, já que os Evangelhos mencionam os irmãos de Jesus!

Nascimento Virginal = outra parcela do pensamento mágico. O que não ajuda a defender o cristianismo.

O começo enfadonho do Novo Testamento

Mateus aceitou a forte tradição de que o Messias seria um descendente do rei David, por isso ele incluiu uma lista dos antepassados ​​de Jesus – os primeiros 16 versículos de seu Evangelho – remontados a David e até a Abraão. Isso tem sido um grande bocejo para muitos leitores, e nós temos que perguntar porque é que Mateus se deu na esse trabalho, visto que Jesus não tinha um pai humano! Será que não se deu conta de que, acrescentando a história do nascimento virginal, eliminava a relevância desse pedigree remontando a David? Ou será que esparava que os seus leitores não notassem?

Os escribas que copiaram os manuscritos notaram, no entanto. Na Nova Versão Revista, verso 16 é traduzido: “… e Jacó, pai de José, o esposo de Maria, de quem Jesus nasceu…” Diferentemente da fórmula dos versos precedentes, José não é listado como o pai de Jesus. Existem diversas variantes deste verso nos manuscritos gregos – todos copiados à mão – porque vários escribas reescreveram o versículo de diversas formas, perplexos sobre como conciliar “descendente de David” com “não teve pai humano”. Apresentar a genealogia era obviamente incoerente.

Na terra dos sonhos

Mateus relata que José ouviu Deus em sonhos, e até mesmo os Magos foram "avisados ​​sobre Herodes" num sonho. Um romancista tem a "perspetiva omnisciente", isto é, sabe o que está a acontecer dentro das cabeças dos personagens. Aqueles que afirmam que a narrativa de Mateus é história têm que explicar como o autor sabia o conteúdo dos sonhos.

Claro que as pessoas têm sonhos,o problema não é esse. No entanto, para Mateus, o historiador, relatar o conteúdo dos sonhos – o que Deus disse a José, por exemplo – ele precisaria ter acesso a algum tipo de documentação contemporânea: é assim que a história é escrita. Se José tivesse mantido um diário em que tivesse escrito o que Deus lhe disse, bem, esse é o tipo de documentação que Mateus poderia ter usado. Não quer dizer que um deus realmente tenha falado com José, mas seria uma documentação do que José achava que o seu deus lhe dizia.

Como não há nenhuma evidência de que houvesse um diário, e como sabemos que Mateus falha como historiador cuidadoso, não é de surpreender que encontremos o seu uso da perspetiva omnisciente na criação dessa literatura de fantasia. Mateus decepciona-nos repetidamente em todo o seu Evangelho (veja o meu artigo Who the Hell Hired Matthew to Write a Gospel? – Quem diabo contratou Mateus para escrever um Evangelho?).

Vamos voltar ao constrangimento de ter os quatro Evangelhos juntos. Podemos ver a desonestidade e o engano:

“Que Mateus é essencialmente uma reescrita de Marcos é quase universalmente aceite. Ele pede emprestado extensivamente a Marcos (quase toda a narrativa), e frequentemente copia o material literalmente. Em seguida, Mateus acrescentou uma Narrativa de Natividade ridícula, que nenhum historiador razoável deveria considerar senão ficção”. (Richard Carrier, On the Historicity of Jesus: Why We Might Have Reason for Doubt – Sobre a Historicidade de Jesus: Por Que Podemos Ter Razão para Duvidar, p. 456.)

É uma frustração que, em cada dezembro, os cristãos tirem do baú as narrativas da Natividade – e tão cansativo que defendam ferozmente os seus "presépios" nos relvados do tribunais* – como se essas histórias provassem algo sobre Jesus. Veja também o conto em Lucas 1-2; esse autor está ainda mais carregado de fantasias e fabricações ingénuas. A única coisa que essas histórias provam é que a teologia e a fé podem prosperar totalmente desligadas da realidade.

David Madison foi pastor da Igreja Metodista por nove anos e é doutor em Estudos Bíblicos pela Universidade de Boston. O seu livro, Ten Tough Problems in Christian Thought and Belief: a Minister-Turned-Atheist Shows Why You Should Ditch the Faith (Dez Problemas Difíceis no Pensamento e Crença Cristãs: Um Pastor-Tornado-Ateu Mostra Porque Você Deveria Descartar a Fé), foi recentemente reeditado pela Tellectual Press com um novo Prefácio de John Loftus. A biblioteca Cure for Christianity está aqui.


* Alusão a processos judiciais nos EUA, sobre a legitimidade de exposições religiosas nos edifícios públicos, nomeadamente presépios. [VOLTAR]

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