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Já mataste alguém?

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A questão era retórica e a resposta evidente: claro que não! Mas... Hoje, por acaso, estive em Lisboa a tratar de uns assuntos. Precisei de almoçar e entrei num snack-bar . Fui lavar as mãos. Quando abri a torneira, fiz com que lá longe, nem sei bem onde, uma estação de captação de água da rede de Lisboa sorvesse a pouca água que usei. Sentei-me e pedi um bitoque de porco. Eu não matei aquele porco. Já estava morto muito antes de eu decidir que ia almoçar ali. Mas matei o seguinte. A febra que comi ficou a faltar no frigorífico e não tarda nada telefonam para o talho a pedir mais. Esses telefonam para o matadouro e ditam a sentença de morte dos bichos seguintes. Essa foi a consequência da minha decisão económica. Do mesmo modo, evidentemente, se passou com as batatas, o arroz, as alfaces, o pão e o vinho, até com o guardanapo. A minha ação influenciou os seus circuitos de distribuição e produção.

Instrumentos de poder

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Em antigos tempos, os poderosos lutavam entre si pelo poder utilizando como armas o maior número possível de súbditos dispostos a sacrificar as vidas pela fortuna dos amos. Como os exércitos de escravos nunca tiveram sucesso, excepto como remadores nas galés ou esporadicamente quando se revoltavam, não podiam ser usados como ferramentas de luta pelo poder. Restava então aos poderosos coagir de várias formas os seus subalternos e servos a lutar por eles. Promessas de partilha do saque, de partilha da glória, várias formas de pressão ou apenas a tracção das ideias heróicas e religiosas manipuladas por demagogos e sacerdotes arrastavam os simples para o matadouro.

Eu ganho mais dinheiro que ele!

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Libby Anne é uma bloguista americana que conta, no seu blogue Love, Joy, Feminism , uma experiência pessoal extraordinária. Foi criada nas profundezas das seitas mais radicalmente fundamentalistas, em que os homens detêm autoridade absoluta sobre as mulheres, estas devem ficar em casa e ter o maior número de filhos possível, os quais devem ser educados em casa, à espera da segunda vinda de Cristo — mas rompeu com todas essas ideias e hoje é ateia e feminista. O seu blogue procura ajudar as pessoas que fogem desses cultos estranhos e opressivos. Resolvi traduzir este artigo, pela sua clareza e atualidade, mesmo no nosso contexto. Link do texto original: “I Make More Money Than He Does” O blogue de Libby Anne faz parte da divisão ateia do portal Patheos , um local vocacionado para o debate de assuntos filosófico-religiosos.

Portugal deprimido

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Aspectos da vida do nosso país, nestes últimos tempos, têm-me feito lembrar um quadro clínico infelizmente, para mim, familiar. Recentemente fui vítima de uma depressão grave e alguns dos sintomas que me habituei a reconhecer e que tive de combater para sobreviver, encontro-os reproduzidos na paisagem mental deste nosso país em crise. Todos sabemos que a crise é real, não estou a dizer o contrário. O que me faz confusão é a forma como os portugueses a enfrentam. Perpassa em todo o lado uma resignação, um baixar de braços, um encolher de ombros, uma aceitação inexplicável da falta de esperança, da falta de futuro.

Democracia & aparência

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Outro dia, a Câmara Municipal de Almada fez uma reunião no meu clube, o Vitória das Quintinhas , integrada num ciclo chamado Opções Participativas . Era suposto a reunião dedicar-se a receber as contribuições dos munícipes para o Plano de Atividades 2013 . Vim tarde do trabalho, lá comi uma sandes e bebi uma imperial no bar e fui para o pavilhão participar na reunião. Contribuir para o Plano de Atividades da Câmara? Pareceu-me bem.

A última valsa

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No Vitória Clube das Quintinhas, o baile se São João é um sucesso relativo. Para um clube que tenta recuperar a dinâmica, o facto de terem comparecido sócios em número apreciável é bom. O grande recinto não estava cheio, mas os corpos gerentes dão-se por satisfeitos. É um passo na direção certa. Depois das sardinhas que estavam gordas e das febras saborosas, alguns pares evoluem no terreiro, ao som da música pimba de Euclides e Durão , um duo veterano nestas andanças, com órgão dotado de batida sintética e vocalista. Abriram com “Marina, Marina, Marina”, imaginem. Foi um sucesso nos anos 60, era eu garoto, lembro-me perfeitamente. No todo, uma noite feliz.

O planeta

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Sarilhos no nosso quintal Os portugueses, coitados, andam muito preocupados com a sua crise. Não é para menos, evidentemente. De vez em quando, até cá se passam coisas importantes. Mas se levaram até aqui ensimesmados numa sociedade iludida com promessas de prosperidade sem ter que descobrir novas fontes que a justificassem, enleados na complacência com a corrupção enquanto esta mantivesse um ar simpático e bonacheirão, agora muitos mudaram de ponto de vista e começaram a preocupar-se.

Liberdade e solidariedade

Estive a fazer um questionário a mim próprio, no sentido de esclarecer a minha posição política. Uma posição política é necessariamente pública, por isso aqui dou conta do resultado, por enquanto (ou sempre) provisório. Pode ser que interesse outros que se põem os mesmos problemas. A questão de fundo é: que se pode fazer para melhorar a sorte de todos os seres humanos? Será possível fazer chegar a prosperidade a toda a humanidade e ao mesmo tempo assegurar uma sustentabilidade futura da nossa espécie neste planeta e arredores? Será possível isso e ao mesmo tempo manter e aprofundar sociedades abertas assentes sobre valores humanistas?

Exercício moral

Imaginamos que sempre fomos assim. Que sempre tivemos os gostos, opiniões e posturas perante a vida que temos hoje. Essa ficção é possivelmente necessária para assegurar a nossa estabilidade mental e está de certeza ligada a outra ficção, a da continuidade do eu. A continuidade da memória, que nos faz actores e espectadores do filme da nossa vida, é a base da nossa identidade pessoal.

Fecha-se isto? Ou abre-se?

O texto de Clara Ferreira Alves que a Isabel Maria da Palma publicou no seu blogue é mais um dos milhares de textos deste género, escalpelizando a desgraça nacional, desde... desde quando? Contamos os estrangeirados ? Contamos o Eça? Contamos o Pessoa? Exprimem a desilusão com o nosso atraso, exprimem o nosso complexo de inferioridade. Nada mais. Critiquei o texto por isso, por clamar por visão política ser a ter, Fui criticado, desafiado a apresentar a minha visão política. Andei a pensar no assunto uns dias.

Pílulas ideológicas – depois do marxismo

O colapso do marxismo significa que a direita venceu, que a injustiça é inamovível, que a ausência de uma utopia partilhada nos impede de lutar pela liberdade e pela solidariedade? Não me parece. Parece-me que teremos de aprender a lutar pelo que consideramos justo, sem saber nem querer saber se isso cabe numa ideia predeterminada do futuro. Há muito tempo que preocupa o problema de descobrir uma nova política para a esquerda, após o fim do marxismo. Bem sei que muitos não me acompanham no passar desta certidão de óbito, mas para mim o óbito é evidente. A questão decisiva é a previsão que o marxismo fazia sobre a história, que dava todo o sentido à luta dos militantes e uma perspectiva de esperança aos oprimidos. O marxismo afirmava que ao modo de produção capitalista se seguiria o modo de produção comunista, com a eventual transição pelo socialismo, com a colectivização dos meios de produção, uma distribuição igualitária da riqueza, a planificação central da economia e, eventualme...

Para uma cultura (e ética) universal / Towards a universal culture (and ethics)

  Versão em Português. See English version in the end. Quando o TED publicou a conferência de Sam Harris “A Ciência Pode Responder a Questões Morais” em Fevereiro deste ano, iniciou uma grande polémica. Sam Harris afirma, em primeiro lugar, que o conhecimento científico, incluindo o conhecimento da forma como trabalham os nossos cérebros,  influencia a forma como as questões morais são postas. A seguir, argumenta com a consideração das condições gerais em que as sociedades humanas prosperam para mostrar picos que sirvam de exemplo para um mapa da eficiência ética das sociedades. Por fim, argumenta que as opiniões relevantes para a definição do valor de uma moralidade não são as de todas as pessoas, mas as de um grupo de peritos socialmente aceites. O crédito moral do Dalai Lama não é o mesmo que o de um assassino em série. Se não damos valor à opinião dos Talibãs sobre física teórica, porque havemos de apreciar a sua ignorância sobre questões morais?  

O chicote, a cenoura e a palmada nas costas

Há uma semanas o meu sobrinho Rui Cabanita publicou um vídeo da RSA (Royal Society for the Arts, a irmã menos conhecida da Royal Society) sobre motivação. Entre outras coisas muito interessantes, explicava-se que numa tarefa que não incluísse criatividade, a produtividade podia ser aumentada com incentivos quantitativos, vulgo prémios. Porém, uma actividade criativa não pode ser motivada por prémios. Essa conclusão perfeitamente contra-intuitiva e contrária a toda a tradição de gestão de recursos humanos vem espaldada em abundantes números e estudos de caso.

O fundamentalista sou eu?

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Pessoa que me é muito querida e cujas opiniões (raríssimas) muito prezo, outro dia acusou-me de ser fundamentalista sobre a questão religiosa. Dito de outro modo, acusou-me de ser intransigente no meu ateísmo. Há algum tempo que queria escrever sobre esta questão e essa crítica deu-me a motivação necessária.

B16 vem à cidade

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Lembro-me bem de quando o Salazar fazia coisas destas. Mandava fechar os serviços, o pessoal das Casas do Povo que pusesse camionetas e comboios à disposição de todos, a União Nacional, a Mocidade Portuguesa, as dioceses, todos arrebanhavam gente para vir aqui. Enquadravam-nos, pintavam-lhes os cartazes, davam a muitos a possibilidade de ver pela primeira vez a capital. Enchia-se assim o Terreiro do Paço de povo reverente perante a improvável figura de pai conjurada pela ditadura para servir um homem cruel, seco e antipático.

A fada boa

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A pessoa que eu conheço mais parecida com uma fada boa é a minha amiga Henriqueta. Lembram-se da fada boa dos filmes de Walt Disney, baixinha, com um nariz redondinho, cabeleira farta e olhos bondosos, sempre pronta a arranjar uma magia para dar força ao lado bom? A Henriqueta não tem varinha mágica (pelo menos que eu tenha visto…) mas tem grandes poderes.

Sangue na água – começou o espectáculo!

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Andei armado em Cassandra, a avisar que se aproximavam ameaças graves para o nosso país, no seguimento da crise da Grécia. Escrevi uma série de artigos neste meu blogue, intitulados precisamente Sangue na Água . Não é que a minha voz tenha importância ou que eu perceba alguma coisa de finanças. Fiz o meu dever de cidadão. Nunca esperei que este meu triste país reagisse à ameaça, nem que os ridículos aparelhos políticos que o governam — ou que se governam com ele — tomassem alguma medida preventiva. Tudo se passa com a inevitabilidade majestosa de uma tragédia portuguesa ou grega. Hoje caiu o outro sapato. A Standard & Poor e a Fitch baixaram o rating da dívida portuguesa. Tal como na Grécia, a nossa tragédia, ou farsa, ou tragicomédia começa assim.

Em verdade vos digo

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Em verdade vos digo: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um papa ser justo. Em verdade vos digo: é mais fácil centenas, milhares de crianças serem maltratadas, espancadas, insultadas e violadas; É mais fácil esconder os violadores, transferi-los para junto de mais crianças, deixá-los morrer de velhos; É mais fácil mentir, insultar de novo em adulto, com o epíteto de mentiroso, quem já foi espancado e violado em criança; É mais fácil gastar o dinheiro do peditório para tentar calar a boca aos injustiçados; É mais fácil taxar de inimigos todos os que não calam a injustiça; Tudo isso é mais fácil do que um papa confessar o seu crime.

O arco do PPD

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Qual é o centro de Portugal? Não o geométrico, mas o imaginário, o político? Para mim, talvez para toda a gente, é o Arco da Rua Augusta. A porta de Lisboa, o centro do poder. Exactamente nesse sítio, no lugar mais à vista de todo o País, está escondida uma inscrição. Escondida pela sua enorme notoriedade. A maioria dos portugueses já passou por ali, muitos milhares passam todos os dias. Olham e não vêem, lêem e não compreendem. Eu sou um deles.

Sangue na água

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Portugal está prestes a ser atacado. Submarinos, fragatas, caças supersónicos ou brigadas blindadas não servirão de nada. Os cidadãos escusam de pensar em armar-se: não há nada que possam fazer. Massivas forças especulativas, com verbas já mobilizadas no valor de milhares de milhões de euros, preparam-se para destruir a pouca prosperidade que ainda temos.