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O Verdadeiro Espírito de Natal

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Nesta quadra, é habitual ler lamentos de pessoas católicas ou tradicionalistas, queixando−se de que se perdeu o verdadeiro espírito de Natal. Que o materialismo e o consumismo imperam, que os cidadãos só pensam nas compras e nas prendas e esqueceram o aspecto espiritual do Natal. O aspecto espiritual do Natal talvez seja ter um presépio em vez duma árvore decorada, contar às crianças a história do Menino Jesus em vez da do Pai Natal, pôr os sapatinhos na chaminé em vez de perto da árvore, sair a meio da noite de 24 para 25 de Dezembro, enfrentando frio, chuva a se calhar neve, com crianças de colo e tudo, para ir à missa do Galo ouvir um padre debitar uns lugares−comuns requentados numa igreja gelada, com saudades dos lençóis caseiros. (Se calhar as igrejas agora já têm aquecimento; não vou lá muito, não sei.)

Óscar Lobão

Meio caniche, meio cão de água, o Óscar Lobão pertence a Luís Lobão, o meu patrão. Daí o apelido. Mas passa pouco tempo em casa do dono, pois prefere ser um trabalhador não assalariado e não produtivo da Tipografia Lobão. Entra ao serviço logo de manhã, percorrendo todas as secções. Acaba por se dirigir ao seu caixote, ao lado da minha secretária. Não sei o que faz de noite, mas vem quase sempre estafado, sujo e cheio de sono. A primeira tarefa do dia para mim é fazer lhe uma sessão intensiva de massagens nas orelhas. Depois enrosca-se e dorme, só interrompido pelos visitantes que lhe fazem festas. Perto da hora do almoço, começa a interessar-se pelo mundo. Entra na casa de banho e ladra a chamar alguém que lhe abra a torneira do bidé, ou então vai à recepção e exige um copo de água mineral da fonte. Procura então saber qual o carro que vai seguir em direcção ao restaurante.

As administradoras da vida

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Estava eu a dormir no quarto de hóspedes duns amigos meus quando fui despertado pela rotina matinal de uma mãe a despachar as suas duas filhas para a escola. Lavar, vestir, tomar o pequeno-almoço, lavar os dentinhos, as mochilas, o carro, as horas. Suplicava, ameaçava, tentava vários tons de voz, repetia-se constantemente. As crianças, aparentemente, estavam noutra. Pareciam apostadas em torpedear, através da resistência passiva, o horário apertado da mãe. A voz dela denunciava um stress crescente.

Ruínas da memória

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Fui ver ruínas históricas e ruínas pessoais. Quanto às históricas, visitei o castelo de Paderne. Como o dinheiro e a pedra não abundavam, os Mouros construíram o castelo em taipa 1 , pintando nas paredes uma alvenaria fingida para enganar os inimigos cristãos. Oito séculos mais tarde, se calhar pelas mesmas razões, falta de fundos e pedra, o meu avô materno, no início do século vinte, usou a mesma técnica construtiva para erguer um casebre para a sua numerosa família, antes de se finar de forma muito temporã. Não fingiu alvenaria, antes pintou tudo com singela cal.

Globalização no Portugal profundo

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Praia do Alfamar, 18/09/09 Finalmente estou a trabalhar para o bronze. Já tenho até umas queimaduras, sem as quais não me atreveria a voltar à Grande Lisboa. Já não tenho família em Portimão, onde cresci, pelo que desta vez vim parar a Boliqueime, terra dos meus pais. O Algarve que eu conheci em garoto já não existe (felizmente!). Saí de cá cedo, sem ter acompanhado as grandes mudanças que o tempo e o turismo operaram. As pessoas falam-me de  uma nova toponímia com nomes de empreendimentos turísticos (Quinta do Lago) ou praias outrora ignoradas que se tornaram famosas por causa de gente famosa (do Alemão, dos Tomates, do Ancão). Não conheço nada disso. Boliqueime, pelo contrário, está cheia de imagens da minha infância. Houve muita construção, é claro, mas nada da avalanche de betão que soterrou os Olhos de Água, por exemplo. Apesar do mar se ver no horizonte, a distância da costa salvou o sítio. Ando pelas ruas sonolentas esmagadas pelo sol, vejo casas que reconheço,...

Biostase

Vamos imaginar que é necessário salvar o mundo. Mesmo a sério? Que ferramentas são necessárias? Tenho uma cabeça de designer e, uma vez posto o problema, não pude largá-lo. Levei umas boas seis semanas a escrever este artigo, o que não é muito, se considerarmos a importância do assunto. O resultado pode levar-me a ser apedrejado de vários quadrantes, o que também é normal para quem tente salvar o mundo. Leiam e critiquem, por favor. O artigo é um pouco grande para o blog, portanto foi para o meu site:   Biostase — artigo em www.carloscabanita.eu

Sushi

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Consegui viver 57 anos sem ter provado sushi. Essa privação finalmente acabou. Foi uma revelação. Sabores suaves e ricos, em especial os peixes. O estranho arroz japonês. As algas. Uma massa picante estranhamente suave mas poderosa. Os pratos também são uma festa para os olhos. Não vejo a hora de voltar a experimentar.