26 de março de 2020

EUA: chumbo por incompetência

No site Foreign Policy, dedicado a política externa do ponto de vista dos EUA, apareceu este artigo, The Death of American Competence, a declarar que um dos fatores decisivos de decadência desse país é o seu falhanço espetacular ao nível da competência. Não contesto a afirmação do autor, mas discuto as consequências disso para o resto do mundo. Estará a China pronta para agarrar o testemunho?

O artigo é interessante. Não tenho quaisquer dúvidas de que os EUA se afundaram definitivamente na ambição da supremacia mundial. Foi durante as crises, ao saber responder a elas, que subiram ao topo, é na crise e na forma como respondem que se afundam. Nada a fazer, o mundo é um juiz implacável. Desse ponto de vista, a China sem dúvida ocupou agora o seu lugar de potência mundial, precisamente ao saber responder, de forma minimamente competente, ao problema. Mas a China tem uma quantidade de problemas terríveis a resolver até poder assumir plenamente esse papel. O seu sistema político é um anacronismo, é insustentável.

A China, para dizer sem rodeios, tem que tornar-se uma sociedade aberta. Pode conseguir um equilíbrio diferente do Ocidente, pode basear-se no pensamento de Confúcio em vez de no de Adam Smith, se quiser. Mas tem que ser uma sociedade aberta.

Porquê? Porque a liberdade de circulação de informação é o ponto decisivo de luta pela supremacia. Qualquer sistema que corte a liberdade de pensamento está a cortar as suas próprias pernas. É por isso que a China ainda não é a capital da inovação que queria ser. Consegue fabricar eficientemente coisas que outros imaginaram. É na criatividade que tudo se joga.

Mas para ter criatividade, tem que haver liberdade de pensamento, liberdade de diálogo. Que inclui, naturalmente, a liberdade de discordar do governo e trabalhar para a sua queda.

Em portugal, durante a ditadura salazarista, era proibido ter um policopiador, ou stencil.

Na URSS, era necessário licença para um cidadão privado ter uma máquina de escrever.

Em Portugal, durante a ditadura, era proibido dispor de máquinas de reprodução documental como fotocopiadoras (muito recentes na altura) ou policopiadores. Era preciso uma licença especial. Eu sei, que imprimi propaganda contra o regime com um policopiador clandestino. Mesmo assim, era um regime relativamente liberal. Por comparação, na União Soviética, até a posse de uma máquina de escrever era controlada. A informação clandestina circulava por cópias caseiras. E a razão principal da queda da União Soviética foi essa: a sua sociedade era incapaz de permitir a circulação livre de informação, precisamente na altura em que só a livre circulação de informação criaria a inovação tecnológica que permitiria sustentar o seu poderio económico, técnico, militar e até ideológico. Incapaz de permitir a liberdade de informação, a URSS afundou-se.

Este artigo cita um analista da União Soviética dos seus últimos anos: "Roubávamo-nos a nós próprios, recebíamos e pagávamos subornos, mentíamos nos relatórios, nos jornais, nos congressos, espojávamo-nos nas nossas mentiras, dávamos medalhas uns aos outros. E tudo isto — do topo à base, da base ao topo.”

Em certa medida, é possível que esta erosão da verdade esteja a ferir os EUA de forma igualmente dolorosa. A China também não é nada brilhante a gerir a verdade.

Uma ditadura do Partido Comunista que nada tem já de comunista, além do caráter autoritário, é um anacronismo total. Não é por aqui que a China ganhará o seu papel de superpotência aceite pelos países do mundo

Não se esqueçam de Hong-Kong. A nomenclatura chinesa tem muito medo do que se passou em Hong-Kong — e com razão. Imaginem o que se passou em Hong-Kong a passar-se em Pequim, Changai, Cantão... porque é isso que vai acontecer.

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