15 de março de 2020

Nada de quarentenas com a família

Rachel Maddow, famosa repórter da cadeia norte-americana MSNBC, entrevista o jornalista de ciência e saúde Donald McNeal, do New York Times, a propósito do testemunho dos cuidados com o Covid-19 na China. A entrevista mostra uma medicina anti-epidemiológica bem mais avançada, creio eu, que a praticada na Europa e nos EUA. Provavelmente pagaremos bem caro a diferença.

O homem é um bocado difícil de entender. Por isso, resolvi transcrever e traduzir toda a entrevista, a título de serviço público. Veja a transcrição a seguir ao vídeo.

Rachel Maddow ‒ O fiasco da quarentena, que eu acho que está a par do fiasco dos testes, parece-me um ponto em que nos devemos focar, porque me parece mais fácil de resolver. Na coisa dos testes, obviamente fizemos asneira a sério como país. Estão a tentar aumentar a escala disso. Muitos esforços se concentram aí. Isto prejudica os nossos esforços. Entretanto, sem testes, tudo o que podemos fazer é mitigação em larga escala, coisas como livrar-nos das multidões, dizer às pessoas para não voar. Além disso, as pessoas que acreditam ter sido expostas deveriam entrar em quarentena. Será que ajudaria haver padrões federais claros, com indicações sobre o como e em que circunstâncias?

Donald McNeil ‒ Essa não é a abordagem correta. Não vamos querer pessoas infetadas, ou com suspeita de infeção, com as suas famílias. Vão transmitir a doença. A China teve um sucesso enorme em bater esta epidemia. Não sabemos o que vai acontecer quando a China tentar reabrir a economia e deixar as pessoas voltar às fábricas, aos metropolitanos, aos escritórios e aos restaurantes, não sabemos o que acontecerá. Estiveram em bloqueio todo este tempo. Vemos as imagens de drone das cidades. O bloqueio tem sido terrível, mas não é isso que importa. Tiveram que o fazer para introduzir as medidas que impuseram para combater a epidemia, que eram testar, testar, testar. Descobrir o vírus. Se consegues sair de casa, se vais a algum edifício, medem-te a temperatura. Eu entrei num edifício e fizeram-me perguntas parvas que eu podia ter respondido com mentiras, mas a questão é: entras num autocarro, tiram-te a temperatura, entras na estação de comboios, tiram-te a temperatura, voltas para o teu apartamento, tiram-te a temperatura.

Rachel Maddow ‒ Que acontece se acusar febre?

Donald McNeil ‒ Então, mandam-te para uma clínica de febre. As pessoas não são mandadas para os consultórios dos seus médicos. O consultório do médico é perigoso. Se um dos testes te fizer tossir ou engasgar, infetas o médico, o pessoal do consultório ou os que estão na sala de espera. As pessoas são mandadas para clínicas específicas de febre, as quais os chineses já tinham desde que combateram a epidemia de SARS, em 2002. A clínica de febre é num hospital, mas é separada do hospital, com entrada separada. São recebidos por pessoal com equipamento completo de proteção. Medem-lhes a temperatura, perguntam-lhes rapidamente quais os sintomas, se foram expostos a contágio, como foram expostos a contágio, fazem-lhes uma rápida contagem dos glóbulos brancos, o que leva meia hora e mostra a probabilidade da doença. Fazem um teste à gripe, se têm gripe talvez possam ser excluídos e ir para casa. Se não acusam nada, fazem um TAC rápido. Os TACs entre nós levam meia hora a uma hora. São coisas extremamente caras. Eles têm TACs económicos por onde têm passado para cima de 200 pessoas por dia. Basta um par de fatias dos pulmões para mostrar se existem as grandes opacidades vítreas que são boas indicações disto. Se der positivo, então fazem um teste PCR (reação em cadeia da polimerase), que é o teste de que temos estado a falar. Metem um cotonete pelo nariz adentro quase até ao cérebro… Não é agradável, mas tiram um esfregaço nasal. Conseguiram reduzir o tempo do teste a quatro horas. É tudo feito ali. Não é preciso mandar as amostras para fora do estado, para o departamento de saúde.

Rachel Maddow ‒ Então, sentas-te e esperas pelo resultado.

Donald McNeil ‒ Sentas-te e esperas. Mandam-te sentar. As pessoas sentam-se separadas de todas as outras um par de metros. Contaram-me que as pessoas ficam lá muito quietinhas, agarradas ao seu envelope cor-de-rosa do TAC, com medo de se aproximar uns dos outros, com medo que o vizinho esteja infetado. E esperam pelo resultado do teste. Se o resultado não vier hoje, são levados para um hotel, um hotel de quarentena, e esperam lá pelos resultados.

Rachel Maddow ‒ Separados da família.

Donald McNeil ‒ Separados da família. E isso é a chave de tudo. Não há isolamento em casa. Não há quarentena em casa. 75 a 80% da transmissão na China foi dentro de núcleos familiares. Houve notícias a dizer, oh meu Deus, está nas prisões, oh meu Deus, está no Parlamento (neste caso não, mas...), mas 75 a 80% do contágio foi nas famílias. Eles sabiam que tinham que parar aquilo, se queriam acabar com a doença, e rapidamente e literalmente tiraram as pessoas das famílias e levaram-nas para ginásios gigantes, ou estádios, onde eram… não eram campos de concentração, tinham camas lá e tinham enfermeiros com equipamento de proteção para cuidar das pessoas. Até tinham aulas de dança! Porque se tens lá montes de velhotas à espera para saber se estão bem, se as puseres a dançar, primeiro, ajuda a limpar os pulmões, até se tiverem pneumonia, depois, os que não se conseguem levantar, se calhar são os que se estão a ir abaixo. Não é uma má prática. Nós rimos a ver fotos das pessoas a dançar no que parecem fatos espaciais. Mas é qualquer coisa medicamente inteligente. Se as pessoas têm que ser hospitalizadas, as que não têm que ser hospitalizadas, os tais 80% de casos leves… Eu lamento, no meu primeiro artigo, ter usado a expressão casos leves, porque percebi depois, analisando cuidadosamente o estudo, que sintomas leves para eles era tudo desde quase sintomas nenhuns até pneumonia, mas que não precisem de oxigénio, não precisem de hospitalização. Eu já tive pneumonia e não é de todo como uma constipação. Tive-a com diferença de 15 dias de Hillary Clinton, que caiu na rua e teve que ser levada para uma carrinha. Eu estava num jogo de softball com amigos e pensei, vou colapsar aqui, e fui ao médico.

Então esses casos têm que ser isolados e vão para o hospital. Na verdade, as pessoas começaram a entrar no sistema: os casos suspeitos, os casos leves, que não precisavam de ser hospitalizados, e os casos críticos que tinham que ser hospitalizados.

A coisa crucial neste sistema é: quebrar as cadeias de transmissão, e também fazer o possível para evitar que os hospitais fiquem sobrecarregados. Quando os hospitais ficam sobrecarregados, acabas por ter que dizer: Ok, esta vive, aquela vive, aquele morre, aqueloutro morre. Esta é jovem e tem filhos, vamos salvá-la; a vovó, adeus! Essas são as escolhas que se têm que fazer no norte de Itália, agora mesmo, e não tarda nada por todo o país, e aqui também.

Rachel Maddow ‒ Donald McNeal, repórter de ciência e saúde para o New York Times. Vamos fazer um clipe disto e mandar para os departamentos de saúde, por causa da distância entre o que descreve e o que nós estamos a fazer e estamos preparados para fazer. Obrigado, Donald McNeal.

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