Apocalypse Now: Caminhoterapia

Traduçãp do artigo Apocalypse Now: Caminoterapia, de Antón Pombo, em Gronze, site ligado à divulgação do Caminho de Santiago. O autor liga certos usos recentes do Caminho de Santiago às modernas manias da auto-ajuda, new age e espiritualismo individualista.

Não vamos replicar o discurso do coronel Kurtz ou entrar em disquisições morais sobre o bem e o mal, mas apenas tentar abordar mais uma vez, sem preconceitos mas através de uma nova abordagem, o aparente sucesso actual do Caminho de Santiago.

Contemplação do pôr-do-sol no Cabo Finisterra

O título pretende refletir este caos a que estamos a assistir, como convidados de pedra, no início deste milénio, no qual uma série de acontecimentos desastrosos parece ter sido encadeada: a crise financeira global, começando com a falência do Lehman Brothers, que começou em 2008 e nos lembrou que o capitalismo navega num mar de sargaços; a pandemia que começou em 2019, que se tornou crónica na sua versão mais inofensiva à medida que novas zoonoses se propagavam; ou a guerra na Ucrânia, que o agressor e autocracias semelhantes continuam a chamar uma operação militar especial. Isto é muito diferente da segunda metade do século XX, quando o Caminho estava a viver o seu feliz renascimento, pois então este pântano a que Bauman chamou “modernidade líquida” ainda não tinha começado a emergir, este território instável sem referências a que se agarrar, especialmente quando a religião deixou de cumprir a sua função tradicional de refúgio e consolo. Como resultado, as pessoas são forçadas a procurar novos pontos de referência para fornecer sustento ou escapar; este último, na esfera do lazer ou entretenimento, é, acima de tudo, o que o sistema económico atual nos fornece.

Há algumas décadas atrás, o historiador e sociólogo Christopher Lasch, um inimigo declarado do narcisismo individualista promovido pela última geração do capitalismo, disse que em tempos de crise, os seres humanos tendem a criar uma bolha que preserva a sua estabilidade pessoal, e quando o bem-estar material está em risco, é pelo menos essencial preservar o seu bem-estar psicológico ou emocional.

É precisamente aqui que o Caminho de Santiago entra em cena, porque a experiência do peregrino alude habitualmente a este reforço da psique, é verdade que com a necessária colaboração do meio e dos seus atores, companheiros de viagem e hospitaleiros, mas fundamentalmente como um acto de reflexão e sensibilização, de modo que, em suma, é uma praxis eminentemente individual, não individualista. Recentemente um leitor expressou que a alma do Caminho não existe, que a alma é fornecida por cada peregrino: este é o discurso individualista que, de uma forma furtiva e aparentemente inócua, penetrou até à medula dos ossos.

A comunhão com valores mais ou menos etéreos, e com experiências cada vez mais distantes das religiões organizadas, e mais próximas do que veio a ser conhecido como “espiritualidade laica”, permite a geração de um estado de consciência, percetível ou impercetível, que ajuda a lidar com as tristezas da vida e as circunstâncias do presente. Neste sentido, o Caminho com o seu verniz “espiritual”, mesmo transformado numa ratoeira da qual já não se sabe como escapar, tem ajudado, e está a ajudar, muitas pessoas.

Mas este tipo de experiência de crescimento e transformação pessoal, dado o negócio existente, está a ser adocicado com métodos, típicos da educação emocional, destinados a reforçar a auto-estima, o empoderamento ou a resiliência: assim surge o Caminho como um desafio ou teste para obter um benefício, ou a peregrinação como solução, porque só dentro de nós está, aparentemente, o remédio para todos os males que nos assolam, ignorando o que os governos fazem, o Fundo Monetário Internacional ou as grandes corporações multinacionais, e, claro, as nossas limitações pessoais.

O campo era portanto fértil para os gurus da auto-ajuda, coaching e mindfulness, mágicos e curandeiros do nosso tempo que com as suas receitas subiram às barbas dos psicólogos — embora neste campo, supostamente científico, também actue com o seu repertório de simplicidade a escola do positivismo — perceberem que o Caminho de Santiago era uma mina a ser explorada. Assim surgiram as terapias caminheiras, muito do mundo americano e anglo-saxónico em geral, e os seguimentos pós-Caminho, que é mais ou menos o que as irmandades jacobeias* do passado praticavam, mantendo a chama da paixão jacobeia acesa, uma doce memória dessa grande aventura, mas agora com mais dinheiro à mão.

Parte do sucesso do Caminho, descartando a percentagem devida ao uso turístico intensivo, teria portanto a ver com esta ideia de refúgio, associada a outros mitos urbanos como a suposta abordagem à natureza (o que chamamos hoje em dia natureza?). E tudo isto para resolver o conjunto de problemas associados à “sociedade do bem-estar”: angústia, solidão, depressão, doença mental e, em suma, deslocação e infelicidade. É necessário experimentar novos cenários e métodos, ao mesmo tempo que os laços e relações sociais que nos protegem — família, amigos, vizinhos, associações, etc. — estão em declínio. Quanto ao sistema, que é certamente rudimentar e escravo da química, limita-se a fornecer um remédio infalível: Prozac.

Lembro-me agora daquela frase lapidar com que um peregrino iniciou a conversa em Ferreiros: E porque estás no Caminho, que problema tens? Pode ser o início de um manual intitulado Caminhoterapia.

Também não há dúvida de que as sociedades sedentárias sempre expressaram o seu desejo, que flui no sangue, de regressar, mesmo que apenas momentaneamente, ao nomadismo dos seus antepassados, que vagueiam agora quase completamente livres de emboscadas perigosas, mas com um certo grau de surpresa e aventura face a encontros e acontecimentos inesperados. E quando as coisas parecem más em casa, a opção de desenraizamento temporário ganha peso.

Embora nos faltem estudos conclusivos, estamos convencidos de que um bom número de indivíduos que hoje decidem tornar-se peregrinos a Compostela o fazem motivados, conscientemente ou não, por estes pressupostos de fuga, por um lado, e pela necessidade de encontrar soluções ou respostas para o bloqueio mental e pessoal gerado nas suas vidas pelo sistema. Porque parece que o Caminho é um bálsamo ou talismã, como o expressam aqueles de nós que o vivem, capaz de, se não resolver todos os problemas e dramas, pelo menos de os suavizar, trazendo novas perspetivas àqueles que vêm com espírito aberto e vontade de mudar, deixando-se levar pelas circunstâncias. Neste sentido, as crises favoreceriam este tipo de peregrinações.

Não devemos esconder a nossa preocupação com a proliferação de charlatães, na sua maioria oportunistas, que tentam tirar partido de tudo isto, organizando viagens terapêuticas e de crescimento pessoal. Já nesse filme, uma porcaria, intitulado Al final del Camino (2009), uma comédia de mau gosto com Fernando Tejero e Malena Alterio, tratava-se da figura de um guru que resolvia os problemas dos casais ao longo do Caminho de Santiago. O enredo não era ficção, e desde então os gurus estão a tomar o Caminho de assalto, misturando todo o tipo de discursos, desde o esoterismo à Nova Era, e multiplicando os seus rituais, supostamente ancestrais e ligando-se com não sei quê dos antepassados celtas, em lugares como o castro de Baroña (vimo-los, com as suas conchas e mestre iniciático, recentemente).

O próprio David Lodge, num brilhante e irónico romance sobre depressão e as suas irresolúveis manias persecutórias (Terapia), propõe ao protagonista hipocondríaco da sua história o Caminho de Santiago como o derradeiro bálsamo de Ferrabrás**, mais uma vez entendido como remédio para o corpo mas, acima de tudo, para a alma.

Sem nos darmos conta, estamos a cair na armadilha sibilina do capitalismo, que quer que esqueçamos os problemas sociais e colectivos e mergulhemos em soluções individuais isoladas do contexto. E neste processo, o Caminho de Santiago pode tornar-se um soma*** à Aldous Huxley, uma mera evasão da realidade bem embalada e comercializada, como poderiam ser drogas, jogos de vídeo, sexo puramente físico, futebol ou qualquer outro tipo de viagem de ida e volta que nunca sacia.

Chegámos mesmo a pensar se esses valores do Caminho, que nos é tão caro para melhorar as nossas vidas, como a liberdade, a humildade, aprender a desfrutar de coisas simples ou ser feliz com uma carga leve nas nossas mochilas, não são de facto mais do que truques a que o sistema recorre nesta próxima fase de automatização, com a consequente insegurança e degradação das condições de trabalho que isso implicará em muitos campos. Uma vez que não poderão consumir ao nível que se consome agora, pelo menos estas camadas cada vez maiores da sociedade deveriam habituar-se a viver com menos, utilizando albergues e comendo ementas baratas, porque se isso as faz felizes, problema resolvido e boa viagem.

Para concluir, fazemos uma profissão de fé nos grandes ensinamentos que a experiência Caminho proporciona, mas não na sua interpretação individualista, porque sem o encontro com os outros, a dimensão comunitária, fraterna e solidária, o acto de peregrinação é completamente inútil e torna-se uma viagem interior, verdadeira, mas apenas para a maior glória do próprio ego.

Antón Pombo é jornalista especializado no Caminho de Santiago e historiador


Jacobeu é tudo o que se refere a Santiago de Compostela, de Jacob, nome hebraico do apóstolo que corresponde ao português Tiago, Iago ou Jaime. As irmandades jacobeias organizavam peregrinações ao santuário.

** Ferrabrás é um personagem de D. Quixote, de Cervantes, a quem é proposto um bálsamo universal.

*** Soma é a droga da felicidade referida no romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Tinha "todos os benefícios do cristianismo e do álcool, e nenhum dos defeitos", segundo o autor.

 

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