17 de março de 2010

Provincianos

Podem não ligar muito à minha opinião, mas não podem ignorar a de Fernando Pessoa. Ele e eu estamos inteiramente de acordo num ponto: “Se (…) quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo.” (Fernando Pessoa, O Provincianismo Português, Guimarães Editores, 2006, online em multipessoa.net)

O mal supremo dos portugueses é serem provincianos. Pois.

Já o sabia há muito, antes de ter encontrado este livrinho luminoso. Sofro quase fisicamente, quando sou confrontado com as ideias limitadas e tacanhas dos meus compatriotas. Não que eu seja especialmente cosmopolita, mas procuro ter uma perspectiva global das coisas, bem como avaliar (e amar) as nossas coisas dentro dessa perspectiva.

As coisas que um provinciano ama e de que se orgulha são ridículas e mesquinhas. Nem repara nas coisas belas e únicas que existem no nosso país, pois não tem a cultura para perceber como são belas e únicas.

Por exemplo, Lisboa. Um provinciano (Pessoa nota de passagem que os lisboetas são os mais provincianos de todos) concentra-se na Ponte 25 de Abril e discutirá o seu lugar entre as maiores pontes do mundo. Irrelevante. Há várias centenas de grandes pontes pênseis no mundo, todas quase fotocópias umas das outras. Mas a perspectiva de Lisboa debruçada sobre o Tejo é única. Um estrangeiro vê uma foto panorâmica e diz: Lisboa. Vê uma foto do Terreiro do Paço, ou de qualquer ponto da Baixa e diz: Lisboa. Até de um eléctrico. (Podia escrever uma tirada semelhante sobre o Porto, claro.)

Outro exemplo, o Português. O provinciano não compreende a importância do Português. Para ele o Português é uma das nossas coisinhas com que estamos muito satisfeitos. Uma língua de 10 milhões. Não vê a língua como parte das vidas de centenas de milhões de pessoas com outras experiências culturais enriquecedoras nem percebe o papel privilegiado que o nosso país tem nessa comunidade. Em vez disso, uiva contra os brasileiros ou os angolanos que não querem falar o seu Português. O provinciano é contra o acordo ortográfico, ça va sans dire.

Sofro mais ainda quando o provinciano se relaciona com estrangeiros. Esses, as mais das vezes, provincianos à sua maneira, já vêm com sentimentos de superioridade, e os nossos compatriotas não fazem mais que justificá-los.

E a TV, esse vómito? O noticiário internacional quase não existe, o que é um sintoma de provincianismo, as notícias nacionais são paroquiais e insignificantes, mas o pior é o entretenimento. É tudo tão mau que me recuso a ver. Fico mal disposto. Até a publicidade é provinciana! A TV da Galiza é muito melhor!

Não pensem que a alta cultura é imune. Sempre abundaram as teses e estudos com um assunto do género “A Inquisição em Portugal”, “O Cultivo da Vinha em Portugal” ou ou “O Cagar de Cócoras em Portugal”. Qual a relação da Inquisição aqui com a espanhola ou a romana, que influências houve? Não interessa. Cagava-se de cócoras de forma diferente na Alemanha ou no Norte de África? Não se quer saber.

Um exemplo incontornável de provincianismo é a noção de saudade. Há muitos anos, um propagandista qualquer do Estado Novo concebeu a ideia parva de que o Português é a única língua com uma palavra específica para saudade. Essa ideia caiu no goto do provincianismo nacional, de tal modo que ainda hoje há gente a repeti-la. O mais elementar bom senso levaria a pensar que todas as pessoas em todo o mundo sentem saudades e nenhuma língua seria viável se não pudesse exprimir esse sentimento.

Para além dessa presença constante do provincianismo, fascina-me a forma como, na nossa história, breves períodos heróicos de glória e criatividade alternam com longas modorras saloias. Os Descobrimentos seguidos da Inquisição. A Expo 98 seguida do Europeu de Futebol (o período começou aí, mas ainda estamos nele).

O inverso do provinciano, a outra face da moeda, é o estrangeirado. Na nossa História há muitos exemplos de portugueses ligados à cultura mundial, que, ao esforçarem-se por introduzir ideias avançadas no país, foram perseguidos e acabaram por mergulhar no desespero. O nome mais conhecido é Luís António Verney. Mas foi o Cavaleiro de Oliveira que exprimiu esse desespero da forma mais bela e impiedosa, chamando ao nosso querido rectângulo uma “fermosa estrivaria”.

Mas Pessoa, no seu livrinho, analisa de forma brilhante a provincianismo. Três características são fundamentais para ele:

  • Entusiasmo e admiração pelas grandes metrópoles. “Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele?”
  • Entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade. “Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção.”
  • Incapacidade de ironia. “É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz.”

A cura do provincianismo? Aqui Pessoa parece Freud a querer substituir o Id pelo Ego: saber que se é provinciano é meio caminho andado para deixar de o ser:

"Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos."

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