25 de março de 2010

Sangue na água – começou o espectáculo!

Andei armado em Cassandra, a avisar que se aproximavam ameaças graves para o nosso país, no seguimento da crise da Grécia. Escrevi uma série de artigos neste meu blogue, intitulados precisamente Sangue na Água. Não é que a minha voz tenha importância ou que eu perceba alguma coisa de finanças. Fiz o meu dever de cidadão.

Nunca esperei que este meu triste país reagisse à ameaça, nem que os ridículos aparelhos políticos que o governam — ou que se governam com ele — tomassem alguma medida preventiva. Tudo se passa com a inevitabilidade majestosa de uma tragédia portuguesa ou grega.

Hoje caiu o outro sapato. A Standard & Poor e a Fitch baixaram o rating da dívida portuguesa. Tal como na Grécia, a nossa tragédia, ou farsa, ou tragicomédia começa assim.

A desgraça anunciada cumprir-se-á. Os esforços patéticos para procurar culpados não servirão de nada. As manobras para defender este ou aquele grupo das consequências apenas condenarão ainda mais o colectivo.

Li a imprensa sobre isto. Não há nada para ler. Os especialistas falam em código, os spin doctors posicionam os seus clientes, os necrófagos abrem as boquinhas à espera de uns nacos que sobrem do festim. Os suspeitos do costume apontam dedos acusadores aos outros suspeitos do costume.

Puxei conversa no café. Consegui interromper uma discussão sobre os processos disciplinares da Liga de Futebol, mas o resultado não foi famoso.

Estou triste e furioso. Pensei em dar cabeçadas no muro das lamentações nacional e chorar pelo meu país, como fazem os Judeus em Jerusalém: (Ó Portugal, estás lixado, Portugal, como é que deixaste que os teus vícios te dominassem? Agora é tarde, vão-te mastigar e cuspir os ossinhos, Portugal!)

Muro das Lamentações, Jerusalém

Pensei em escrever um texto só com os mais obscenos palavrões de que me conseguisse lembrar, numa forma desbragadamente poética de dar largas à minha raiva.

Por fim, acalmei-me e desisti. Vou deixar de escrever sobre este assunto. É demasiado deprimente.

1 comentário:

  1. Acho que não deves parar de escrever sobre isto.
    Na verdade, acho que muitos não estão preparados para encarar a realidade. É bem mais fácil discutir futebol, ser treinador de bancada. Nesse campo, todos têm opinião formada, todos têm a melhor solução.
    Pensarmos que caminhamos na direcção errada, que nos afundamos a cada passo é dificil de engolir. E é, sobretudo, triste. Quando é que o povo português deixa de ser espectador e lamechas? Quando é que o povo se começa a preocupar com assuntos realmente preocupantes e decisivos?
    Sou uma leiga em matéria de finanças amigo, mas sou uma portuguesa preocupada com o rumo dos acontecimentos e com o futuro do nosso país. Não quero assistir impávida e serena ao desmoronar da nossa nação (e não falo em Estado propositadamente).
    Assim, meu amigo, peço-te, não desistas do «sangue na água», é demasiado importante para o abandonares.

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