24 de março de 2010

Amigas (ou o homem que gosta de mulheres)

Ah, eu devia ter vivido outra vida!

Devia ter tido sempre um monte de amigas.

É verdade, posso viver sem mulher, mas sem amigas não. Casar com elas é que não dá resultado. É diferente. Nunca consegues ter com a tua mulher o entendimento profundo que tens com uma amiga.

Eu casei-me três vezes e tenho de confessar que fui feliz. Por diferentes razões e em diferentes contextos, fui feliz. Também sofri muito, por diferentes razões e em diferentes contextos, mas isso faz parte. Se não conheceres a fome, em qualquer ponto da tua vida, nunca conhecerás o prazer de comer. Se nunca estiveste só, nunca desfrutarás o prazer de ter companhia. Sem privação, nunca terás o verdadeiro prazer do sexo. Sem saudades, nunca sentirás o prazer de encontrar quem amas.

Nunca pode haver felicidade eterna, porque a felicidade não faz sentido sem a infelicidade.

Eu sou um homem muito estranho, porque gosto realmente de mulheres. A maioria dos homens que conheci não gosta delas. São demasiado estranhas. Gostam de fodê-las (eu também), mas não têm verdadeiro prazer em conviver com elas.

Vista de um banco É a estranheza das mulheres que me atrai. Sempre me atraíram os estrangeiros, os contos de mundos diferentes, as vidas diferentes – e cedo compreendi que o bicho mais estranho que anda por aí é a mulher. O contrário é também verdade, claro. A maioria das mulheres não faz ideia de como os homens são estranhos para o seu ponto de vista.

Acreditem, é mais fácil para mim intuitivamente compreender um pastor do Quénia, analfabeto e supersticioso, do que uma mulher da minha própria cultura.

Foi no meu primeiro amor que eu compreendi que sensação de partilha, de unidade com a pessoa amada, é uma ilusão. Esse rude despertar não me desiludiu, tornou-me ainda mais curioso. Não desisti de amar, mas compreendi que ia amar um ser essencialmente estranho e incompreensível.

Estudo as mulheres e amo-as, enquanto as estudo, há para aí uns quarenta anos. Não sou um Casanova, isso é para outro tipo de homem. O que aprende três ou quatro truques para levá-las para a cama e depois vai-as coleccionando. Isso é uma actividade idiota ou desumana, na minha opinião. Mas quem sou eu para julgar?

Pelo contrário, sinto sempre quando, na relação com uma mulher, ultrapassei o limite de intimidade a partir do qual JÁ NÃO posso levá-la para a cama. Eu sei. Acreditem que eu sei. E continuo em frente. Que se lixe!

Há homossexuais que são grandes amigos de mulheres. Vão às compras com elas, discutem toilettes e maquilhagem, interessam-se, em suma, pelo folclore das mulheres.

Eu não sou assim. Nunca me interessei por homens, nem sequer compreendo como é que elas gostam de nós. Às vezes há amigos meus que dizem assim: eu se fosse mulher era uma ganda puta! Eu respondo logo: eu, se fosse mulher, era lésbica! Não há forma nenhuma de eu deixar de gostar do que sempre gostei…

Ao fim destes anos todos, conhecendo-me um bocadinho melhor, concluo que o melhor que eu teria feito era ter um monte de amigas, nunca casar nem acasalar com nenhuma e, quando a fome apertasse, sacar uma balda de vez em quando, a uma ou outra. Tendo o cuidado de fazer perdurar a amizade para lá do sexo.

Essa teria sido, possivelmente, uma vida feliz.

Ou então, é mais uma fantasia.

Mas lembro-me de uma menina acabada de nascer que me olhou um dia com olhos estranhos, que me fizeram estremecer. Os olhos dela diziam: eu sou tua. Sou tua enquanto viver. E tu és meu enquanto viveres.

Deixei cair uma lágrima no berço e fiquei ali, a sentir toda a minha geografia a mudar, novas ilhas onde sempre houvera mares, planícies onde antes havia serras. O centro do mundo, agora era aquela menina.

Navegar é preciso, viver não é preciso. Mas foi a viver para ela que eu tive acesso às dimensões mais difíceis e preciosas da vida. Qualquer mulher compreende isto sem pensar. Muitos homens também, felizmente.

Passaram os anos, tive sucesso. Não tive sucesso profissional, mas isso agora já não interessa. Tive-o no fundamental da minha vida.

A tal menina já não precisa de mim. Ainda somos um do outro, claro. Sempre seremos. Talvez um dia eu precise dela, mas não tenho pressa. Tem três meninos que, imagino eu, lhe dizem com o olhar o que ela me disse um dia.

E eu continuo com amigas. Não tenho mulher, mas tenho amigas. Não posso viver sem amigas.

Como devem calcular, nenhuma delas alguma vez me deu ou dará uma balda. Já todas passaram do tal ponto…

1 comentário:

  1. amigo Carlos, sim porque eu considero-te um amigo, é e será sempre um prazer ler algo tao simples, mas ao mesmo tempo muito interessante escrito por ti, concordo plenamente com o que escreves aqui, grande abraço e até sempre amigo

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