7 de março de 2010

Ana Lamy, U2, Salman Rushdie e o cã-cã

É assim que as coisas acontecem: a minha vizinha Ana Lamy (agora na Super FM 104.8) publicou no seu Facebook uma ligação no Youtube a Unforgettable Fire, dos U2. Eu sou mais tipo Antena 2, bué da clássico e  erudito, tazaver, mas de vez em quando tenho uns acessos de chilaute, pope e roque. Lá fui ver.

Vídeo puxa vídeo e acabei a ver este, de que gosto mais: The Ground Beneath Her Feet:

 

Mas no meio do vídeo encontrei uma cara conhecida de outros carnavais.

O que estava o Salman Rushdie a fazer num clipe dos U2?

Fiquei a saber que ele é que tinha escrito a letra. Parece que Bono admirava Salman pelo seu livro sobre a Nicarágua, os Sandinistas e os Contras, O Sorriso do Jaguar, e o convidou para ir aos bastidores de um concerto seu, já no tempo em que Salman andava na clandestinidade por causa dos aiatolas que o mandaram matar, por ter escrito Os Versículos Satânicos. Ficaram amigos.

Mais tarde Salman enviou a Bono as provas finais de The Ground Beneath Her Feet (lamento, não encontro em português), uma versão do mito de Orfeu e Eurídice passada no mundo do roque. Queria saber a opinião de Bono, visto estar a mover-se em terreno pouco familiar. Bono respondeu que tinha feito uma canção com uma parte do texto, onde o herói lamenta a sua amada, morta por um terramoto. O chão mexeu-se mesmo debaixo dos pés dela…

Neste texto em The Nation, de 2001 (em inglês), Salman Rushdie conta a história, com muitos outros apartes, incluindo conversas com Wim Wenders sobre ironia e uma carraspana com Van Morrison.

Conheci Rushdie, para além das notícias, em Shalimar, o Palhaço, livro que, apesar de ser um romance, muito me ensinou sobre os processos do terrorismo e da islamização, e sobre como isso se passou em concreto em Caxemira.

Depois encontrei-o (na Web não no mundo) a fazer conferências em congressos e encontros ateus e humanistas, que costumo seguir.

Agora fico a saber que também andou metido no roque. Para quem está na clandestinidade, farta-se de aparecer!

Será que os aiatolas, entretidos a fazer a sua bomba atómica, se esqueceram de Salman Rushdie? Não sei qual das duas loucuras assassinas prefira…

A despropósito: Sabem qual é a versão mais conhecida do mito de Orfeu e Eurídice em música? Chamam-lhe a música do cã-cã do Moulin Rouge, mas trata-se do final de “Orphaeus in der Unterwelt” ("Orfeu no Mundo Subterrâneo") de Offenbach, uma opereta fin-de-siècle:

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