5 de março de 2014

Do bom selvagem...


A Guerra do Fogo, Jean-Jacques Annaud, 1981, Dailymotion

O bom selvagem não tinha uma vida fácil. Era naturalmente elegante, porque rapava fomeca de rabo.

A esperança de vida era curta. Sem Serviço Nacional de Saúde, qualquer lesão ou maleita era uma ameaça à sobrevivência. Lá para os 30 anos, se tivesse a sorte de lá chegar, estava feito um velho.


O filme do clip inicial, A Guerra do Fogo, descreve bem as condições brutais desses tempos. Não quero aqui discutir se a reconstituição é inteiramente correcta. Sabemos ainda muito pouco sobre a nossa história primitiva e a ciência está constantemente a fazer novas descobertas. Uma coisa é segura: as condições em que viviam os nossos antepassados eram, se não iguais, pelo menos equivalentes ao que é retratado. E afinal de contas, Desmond Morris foi consultor científico do filme...

É possível que datem dessa altura os primeiros alicerces do nossos pensamento ético, se não vêm de épocas anteriores ainda. A subsistência não estava de forma nenhuma garantida para todos os membros do grupo. Na melhor das hipóteses, todos tinham para comer. Na pior, era a fome. Hão havia riqueza para acumular.

Seria de esperar que os mais fortes disputassem a comida dos mais fracos, não? Não era boa ideia. Na altura em que o grupo estava mais fraco, a luta interna ia destruir a sua coesão e comprometer verdadeiramente a sobrevivência de todos.

Na verdade, a inteligência colectiva da nossa espécie descobriu uma solução melhor: se todos passassem um bocado de fome, podia ser que todos, ou quase todos, conseguissem sobreviver. Não digo que, em condições verdadeiramente más, a coesão do grupo não se desfizesse, mas este singelo raciocínio está na base de todos os nossos edifícios morais.

Pode não parecer muito, mas o passo seguinte também foi importante: e se os mais fortes, para quem a morte pela fome era mais remota, partilhassem comida com os mais fracos? Ninguém lhes poderia exigir isso, mas o seu prestígio na comunidade sairia muito aumentado...

Estes edifícios morais básicos da nossa espécie não eram necessariamente genéticos. Eram talvez só culturais. Mas eram, numa espécie gregária, essenciais à vida. E dos vários grupos em competição, os que tinham as formas culturais mais eficientes foram os que sobreviveram.

Fast forward uma quantidade de milénios. Chegados à revolução agrícola, há finalmente riqueza excedente. Cada um poderia ter mais qualquer coisa que o sustento diário. Que vai passar-se?

Há tempos, eu e o meu sobrinho Rui discutimos isso com uma cerveja na mão. Dizia ele: "O problema é que assim que há algum excedente há demasiado incentivo para os traidores! O incentivo é simplesmente irresistível." Ficámos a fitar cabisbaixos as nossas cervejas. De facto, se há demasiado incentivo para os traidores, uma sociedade igualitária é impossível.

Mas eu fiquei a pensar naquilo. O problema dos traidores é que, uma vez que tenham deitado mão ao excedente de riqueza dos outros, têm de mandar parar a brincadeira, visto que a partir de agora são eles os melhores candidatos a serem espoliados. Portanto os primeiros ladrões têm que se fazer polícias, para guardar a propriedade (roubada).

Andando mais uns quantos milénios até hoje, estamos numa situação em que a eficiência técnica de todas as actividades produtivas aumentou tanto que é relativamente fácil para a infra-estrutura produtiva matar a fome a toda a gente, vestir e calçar toda a gente, educar toda a gente... mas isso não pode ser feito dentro dos interesses dos tais guardiões do excedente social. As situações absurdas acumulam-se.

Talvez esteja na agenda uma nova discussão com os traidores.

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