25 de março de 2014

Notas sobre a Ucrânia

Para ajudar a pensar sobre o que se passa na Ucrânia, vou juntar aqui algumas informações. Em primeiro lugar, convém não ver isto como um romance, com bons e maus. Há gente bem intencionada dos dois (ou mais) lados, há gente má e muito má dos dois (ou mais) lados. Dos dois lados, há também um espesso nevoeiro de propaganda, mais grosseira ou mais subtil, mas sempre muito eficiente. Há ódios velhos, motivados por crueldades que temos dificuldade em imaginar. Muitas vezes, a coisa mais sensata, quando não se pode saber o que se passou, é esperar para ver. Mas a História acontece, e como de costume o que acontece não é nada claro.


O que parece indiscutível é que teve lugar uma revolução popular na Ucrânia Ocidental, em que um regime extremamente corrupto foi deposto. O modelo é semelhante a outras revoluções modernas, como as da Tunísia ou do Egito. Tal como essas outras situações, esse movimento político, de origem interna, foi sujeito a uma interferência intensa por parte de forças externas com interesses geopolíticos no seu resultado.

De um lado, a NATO. Mas a NATO não é de forma nenhuma uma força coerente neste caso. É muito mais correto falar nos interesses geo-estratégicos dos EUA, há muito fixados na exploração do Cáucaso e do Mar Negro. A NATO é apenas um véu transparente. Politicamente, usa a forte atração do soft power da União Europeia. Mas desconfio que a NATO (mais concretamente, a CIA) tem apoiado as piores forças para conseguir os seus objetivos, ou seja, a extrema-direita. Há demasiados antecedentes na Europa, sobretudo com a constituição da rede Gladio, para não desconfiarmos que é exatamente isso que está a acontecer.

Distribuição dos protestos pelo território da Ucrânia

Lembremo-nos da revolução portuguesa de 74. O que a CIA estava habituada a fazer era apoiar a extrema-direita. Tinha acabado de fazer exatamente isso no Chile com Pinochet, há menos de sete meses. Portanto, começou a apoiar o ELP. Mas Mário Soares entrou em conversações com Frank Carlucci, foram os dois a Washington e convenceram Henry Kissinger (algo contrariado, e para simplificar bastante) a canalizar a ajuda para o PS, garantindo que seria essa a maneira de contrariar o PCP, que entretanto também recebia bastante ajuda externa da URSS. A ajuda ao PS teve a cumplicidade de Willy Brandt e Mitterrand, do SPD alemão e do PS francês e na verdade foi decisiva para que no nosso país pegasse uma democracia parlamentar estável. De contrário, provavelmente teríamos passado por uma guerra civil.

(É favor ler o parágrafo anterior como Mário Soares alegadamente terá entrado... e terão ido os dois... Os participantes ainda vivos negam que a história tenha sucedido assim).

Portanto, a importância das forças de extrema direita no novo poder de Kiev cheira-me a esturro. Desconfio que andou a mãozinha do costume a alimentá-los. Mas já volto a falar sobre eles.

A geo-política russa

Do lado da Rússia, a questão da Ucrânia é vista sempre, naturalmente, como uma ameaça geopolítica. A Rússia é um país com muita terra, mas com pouca sorte no que toca aos acessos ao mar. Tem essencialmente quatro: a norte, no Árctico, Murmansk, a sua principal base naval e acesso direto ao Atlântico. Mas é um sítio mau e cheio de gelo. Depois, a saída ocidental, é São Petersburgo, um bom porto na costa do Báltico. O Báltico dá acesso ao Atlântico, mas tem que se pedir licença à Dinamarca, membro da NATO, que governa os estreitos de entrada desse mar. A Rússia também tem portos no Pacífico, nomeadamente Vladivostock, que servem a sua região oriental. (Um pequeno aparte: com o aquecimento global, os russos ganharam novo acesso a norte, com a passagem do Nordeste). Mas a sul, é importante a Crimeia, com o grande porto de águas quentes de Sebastopol e a foz do Don (o Don e o Volga, interligados, formam a grande via fluvial que penetra quase até Moscovo). Mais uma vez, o acesso ao Mediterrâneo é condicionado pelos turcos, que mandam nos Dardanelos.

O acesso ao Mar Negro, e por aí ao Mediterrâneo, tem sido uma saga multissecular para a Rússia e um ponto constante nas suas ambições geo-estratégicas. Inicialmente a Crimeia estava sujeita ao Império Otomano e as zonas a norte a vários poderes, desde potentados cossacos a um poder militar em tempos importante e hoje esquecido, a Comunidade das Duas Nações Polónia-Lituânia, que chegou a englobar os três estados bálticos, a Polónia e grande parte da Ucrânia. Aliás, quem dirigia a coligação que em 1683 derrotou os turcos em Viena e pôs fim à expansão otomana foi o rei dessa nação. Através de uma série de guerras, os czares foram conseguindo desmembrar a Polónia-Lituânia e submeter gradualmente os cossacos. Mesmo assim, a fronteira sul era volátil e bravia. Os cossacos eram usados como tropa de choque para subjugar outros povos, mas de vez em quando eram eles os insubmissos. Na Crimeia mandava o Canato dos Katars, muçulmanos mais ou menos leais aos turcos.

Guerra da Crimeia, Cerco de Sebastopol, Franz Roubaud

Para resolver o acesso ao Mar Negro, a Rússia travou várias guerras com esse fim: a Guerra Russo-Turca de 1686–1700 em que ganhou parte da Ucrânia, ainda no tempo de Pedro, o Grande, a Guerra Austro-Russo-Turca de 1735-1739, uma tentativa de conquistar a Crimeia que correu mal, as Guerras Russo-Turcas de 1768–74 e de 1787-1792, no tempo de Catarina II, que lhe deram acesso ao Mar Negro, a de 1806-1812, a Guerra de Independência Grega seguida da Guerra Russo-Turca de 1828-29, a Guerra da Crimeia (1853-1856) que não lhe correu bem, e finalmente a Guerra Russo-Turca de 1877–78, de que resultou a independência da Bulgária.

O século 20, revolução e barbárie

No seguimento da I Guerra Mundial, o Tratado de Versalhes implementou a independência da Ucrânia. Foi criado um governo hostil aos comunistas que entretanto tinham tomado o poder em Moscovo. O destino da Ucrânia recém-criada cedo se resolveu no quadro geral da Guerra Civil. A Ucrânia foi integrada na Federação das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A parte ocidental da Ucrânia, entretanto, ficou em poder da Polónia, no seguimento de um conflito entre este país e a URSS. Várias formas de perseguição de minorias étnicas tiveram lugar, nomeadamente polacos na URSS e ucranianos na Polónia. Nesta altura foi criada a organização nacionalista de Stefan Bandera, um agrupamento fascista paramilitar.

Os comunistas tinham ganho a guerra civil a custo, com pulso de ferro, e um dos seus recursos tinha sido a requisição forçada de cereais, mais pesada na Ucrânia, celeiro da Rússia. Em 1930, a situação económica deteriorou-se e Moscovo teve que escolher: ou parar o desenvolvimento industrial, ou usar os cereais para obter divisas externas.

Na russificação da Crimeia, os Tatars ficaram de fora
Escolheu a segunda opção. Os cereais foram requisitados e exportados e a população que os produzira foi deixada morrer à fome. No que ficou conhecido como Holodomor (fome em ucraniano), não se sabe bem quantos morreram, entre 2,5 e 7,5 milhões. Alguns historiadores acusam os estalinistas de tentarem enfraquecer pela fome o nacionalismo ucraniano, outros consideram que se trata de uma crueldade casual. Onde não foi decerto casual foi na região do Kuban, a oriente da Crimeia, onde, para além da fome, se procedeu à limpeza étnica e ao apagamento de todos os traços de presença ucraniana. Na Crimeia, o poder soviético, devido à sua situação estratégica, queria-a povoada por russos e não por povos de lealdade questionável. Depois de requisições forçadas e fome terem reduzido os Tatars a metade, acabaram por ser deportados junto com com gregos e búlgaros. Muitas destas populações foram parar aos Gulags e foram usadas como escravos na construção de grandes infra-estruturas.

E isto foi apenas o começo do terror estalinista.

No começo da II Guerra Mundial, de acordo com o pacto Hitler-Estaline de 1939, a Polónia foi dividida e invadida em conjunto pela Alemanha e pela Rússia. Os soviéticos aproveitaram logo para prender os elementos burgueses da Polónia Oriental e da Ucrânia Ocidental, junto com muitos polacos étnicos nesta zona da Ucrânia, levá-los para Kharkov e matá-los a tiro.

Mas pouco depois, em 1944, começa a Operação Barbarossa, a invasão da União Soviética. Em breve toda a parte ocidental da União Soviética está submetida à Wehrmacht. O seu projeto não era dominar essas terras, era simplesmente limpá-las para criar espaço vital para a raça dos senhores. A sua prática preferida era, por isso, o genocídio, os massacres e a captura de milhões de escravos para a sua indústria de guerra. As crueldades da frente russa só são ultrapassadas pelo Holocausto.

Stefan Bandera tinha a ambição de obter o apoio de Hitler para uma Ucrânia independente e fascista e assim proclamou a independência assim que se deu a invasão. Os alemães não gostaram, e prenderam-no em Berlim até ao fim da guerra. Entretanto, usaram as suas milícias para chacinar populações polacas, ao mesmo tempo que usavam milícias polacas para chacinar populações ucranianas.

Uma questão de soft power

É por isso que não é surpreendente a escolha da Ucrânia de se separar da Federação Russa em 1981. Muito lixo muito feio andava escondido debaixo do tapete. A insistência da propaganda russa em catalogar toda a oposição como fascistas, continuando a glosar os temas do tempo da II Guerra Mundial, não ajuda muito. O regime de Putin não é nada antifascista. É um regime conservador, autoritário e cleptocrático com mais laços com os velhos czares que com os sovietes. Até fez uma aliança com a Igreja Ortodoxa: em troca do seu apoio, ele perseguia os gays.

A atração da União Europeia, mesmo semidestruída pelas políticas conservadores e nacionalistas recentes, continua a ser notável. Hipoteticamente, a Eurásia de Putin podia exercer o mesmo soft power. Mas para isso, é claro, tinha que ser um paraíso de liberdades. Tinha que ser, por exemplo, um sítio onde um cidadão pudesse viver sem medo de perseguição por ter uma orientação sexual menos comum. Enfim, tinha que ser um sítio em que Putin não mandasse.

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