31 de janeiro de 2020

Joacine e o racismo

Aconteceu recentemente no nosso país que foi eleita uma deputada sob a bandeira do anti-racismo. Ainda por cima, mulher e gaga. Ainda por cima, ergue com audácia bandeiras que fizeram estremecer os baluartes tanto do racismo como do machismo, como ainda do capacitismo1. Desde o princípio, a sua posição não foi passar entre os pingos da chuva ou não fazer ondas. Não sei se por temperamento pessoal ou estratégia política, a posição de Joacine foi mostrar-se em desafio, para que toda a canzoada ladrasse ferozmente. E a canzoada, previsivelmente, não falhou.

Não serei eu o juiz do seu estilo de comunicação nem vou armar-me em estratego político e dizer que deveria ter feito assim ou assado, em vez do que fez. Nem sequer votei nela, por isso o seu cargo não me leva a escrutinar se está ou não a cumprir o mandato que lhe dei. Nem levo, com franqueza, o nosso Parlamento assim tão a sério.

É uma personalidade colorida, possivelmente sem o calo político que lhe permitiria não dizer imediatamente o que pensa e não irritar os frágeis egos da gente com que irá ter que trabalhar.

O meu texto não é sobre a Joacine, mas sobre a canzoada. A Joacine não teve um comportamento especialmente mau como deputada, por mais que pensem o contrário. Lembro-me de deputados que foram apanhados a cobrar subsídios para viagens a que moralmente não tinham direito. Lembro-me de deputados que receberam patrocínios indevidos para ir ao estrangeiro ver jogos de futebol. Lembro-me de deputados que pediram aos colegas para picar o ponto por eles, enquanto faltavam. Lembro-me até de uma deputada apanhada a jogar no telemóvel durante as sessões. Até com mais relevância para o caso, lembro-me de uma deputada do PCP que perdeu a confiança do seu partido.

Em nenhum destes casos a canzoada ladrou. Portanto, só posso pensar que o alarido se deve sobretudo à sua postura altiva, à provocação que a sua presença representa para o preconceito nacional. Não pela sua presença simples, já que até temos uma ministra da Justiça negra e um primeiro-ministro meio indiano. Não, o alarido deve-se à sua posição expressamente anti-racista e feminista e à exigência de que a sociedade se acomode à sua deficiência no falar.

Acomodamo-nos muito bem a um negro que esteja calado. Até nos conseguimos acomodar a um branco que faça um discurso radicalmente anti-racista. Agora um negro a protestar contra o racismo? Jamais! Antes da canzoada se levantar contra Joacine, lembram-se de contra quem ladravam? Não? Mamadou Ba, do SOS Racismo, é claro. Porque também assumiu o combate ao racismo sendo negro.

Mas quando uma onda de racismo se levanta, parece a rolha que salta da garrafa. Velhos agravos, invejas e conflitos quase esquecidos vêm ao de cima. As mais insuspeitas pessoas desabafam aquilo que há muito pensavam, mas não diziam. É espantoso. Do mais insignificante conflito que tenham tido com alguém de cor, logo se salta para a generalização. Eles são assim e assado. São um perigo. São uns ingratos. Não se sabem comportar. São racistas ao contrário.

Todas as culturas racistas negam que sejam racistas. Isto porque as pessoas têm a ideia de que o racismo é um vício moral individual, o ódio expresso aos negros, assim tipo o energúmeno do Chega ou o Hitler. Claro que muito poucos têm esse vício moral individual e o seu racismo não se exprime, até que contemplam a canónica questão de imaginar um filho ou filha a casar com alguém de cor e ter netos cor de café-com-leite — ou ver uma senhora perder a calma ao ser humilhada no autocarro e ser agredida com violência pela polícia.

O racismo manifesta-se nessa incapacidade de ver uma interação com alguém de cor com olhos normais. Torna-se sempre nós-contra-eles. Vi um pouco do vídeo do polícia, com os seus 90 quilos em cima dessa senhora, e intrigou-me. Ele parecia não ter consciência de que estava a espancá-la. Parecia achar-se uma vítima ou um herói. Na sua imaginação, ela tinha dois metros de altura, 90 quilos de músculo e praticava taekwondo. Lembrei-me de relatos que tinha lido, em que o polícia que matou um adolescente em Ferguson, Missouri, EUA, em 2014, descrevia o rapaz desarmado de 18 anos como ameaçador.

O racismo, está estudado, é essencialmente um fenómeno de inconsciente coletivo. Dizem os que têm estudado isto, somos todos racistas, mais ou menos. Só deixamos de o ser quando nos educamos, a nós próprios e aos outros — e mesmo isso é um processo gradual. O grande indicador de que estamos a ser racistas é, por mais que nos custe admitir, a opinião de quem está a ser vítima do nosso racismo. Se alguém de cor diz que estamos a ser racistas, provavelmente estamos. Se a Joacine diz que estamos a ser racistas, provavelmente estamos. Antes de começar a desvalorizar e a acusar a vítima de estar a fazer-se de vítima ou a querer chamar as atenções, convém fazer um exame de consciência. E se a situação fosse ao contrário?

Um sítio até central em Luanda, a Rua Kwamme Nkrumah...

Imagina-te por exemplo, na Rua Kwamme Nkrumah, em Luanda2, a apanhar o autocarro e a descobrir que te esqueceste do passe, a perder a calma na discussão com o condutor, talvez por te veres rodeado de tanta escuridão epidérmica, e aparecia um polícia que te começava a aviar? Nada disso aconteceria, evidentemente, porque és um branco (se não és, faz de conta, por favor), protegido pela supercidadania e pelo poder das diplomacias ex-coloniais (ou neocoloniais) da União Europeia. Um delinquente poderia fazer-te a folha, claro, mas um empregado institucional? Mas serve a imagem para criar o efeito. E para mostrar que racismo ao contrário é uma substância muito rara.

Os portugueses são os mais racistas da Europa em racismo biológico e os quintos em racismo social (Fonte, estudo Atitudes Sociais dos Europeus, a partir de dados da European Social Survey, via Público).

Não será um exagero aludir aos EUA ao discutir uma situação de racismo em Portugal? Os EUA são uma sociedade muito racista, está documentado. Mas Portugal é o país mais racista da Europa, está também documentado. Convém acabar com toda essa conversa fiada lusotropical e com a história de que, se a sentença se afigura bruta, mais que depressa a mão executa senão o peito se desabotoa3.

Portugal é o país mais racista da Europa no que toca ao racismo biológico, ou seja à crença de que há "raças" ou etnias superiores e outras inferiores, e o quinto mais racista da Europa no que toca ao racismo cultural, a ideia de que algumas culturas são superiores a outras. Escusado será dizer que as pessoas que partilham essas crenças se creem membros da etnia ou cultura superior. A fonte é uma entrevista ao psicólogo social Jorge Vala, no Público, na qual aparece o quadro acima, que refere dados do estudo Atitudes Sociais dos Europeus, a partir de dados do European Social Survey. E não é de forma nenhuma um daqueles inquéritos de marketing a 500 pessoas. É uma iniciativa massiva de investigadores universitários, com 40 mil inquéritos e com metodologias muito sólidas.

Como é isto possível? Como disse, o racismo é largamente inconsciente. Temos que nos educar, de educar-nos uns aos outros, para ter consciência dele, nas atitudes dos outros mas também nas nossas. Pode ter a ver com a ignorância relativa do nosso povo, e também certamente com a nossa memória cultural e histórica. Muito crime para justificar, muita safadeza para mitificar. E, referindo-nos à história mais recente, convém não esquecer que somos filhos e netos dos soldados que andaram a "jogar à bola com as cabeças dos pretos" em África (não é mito, foi-me relatado por um "futebolista") ou que, em postos de saúde, administravam Alka-Seltzer efervescente sem água, para se rirem muito ao ver as vítimas aflitas a espumar da boca (outro relato pessoal). Claro que há mais crimes, mas só falei destes porque deles tenho conhecimento pessoal.

Dos crimes de guerra nunca houve qualquer julgamento ou ato de contrição nacional, até porque os militares passaram a ser heróis na nossa revolução e intocáveis, porque a emancipação das nossas ex-colónias se complicou imenso e porque, durante muito tempo, imperou entre nós o mito (ainda impera) de que alguns dos nossos governantes deram as colónias de mão beijada "aos turras". E os autores dos crimes de guerra sobreviveram até à velhice, em muitos casos rodeados de honras e prestígio social. Tudo toxinas que continuam a envenenar a nossa consciência nacional, a mais tóxica das quais é a dissonância cognitiva de negar conscientemente sacanices que intimamente sabemos que sucederam, o que leva a não conseguir encarar com lisura as vítimas – ou descendentes das vítimas – dessas sacanices.

Acabo fazendo apelo aos meus amigos que manifestam ideias racistas: se pensais que estais a ladrar à Joacine por um sentimento de injustiça e de insulto, pensai melhor. Sois capazes de vos pôr no lugar dela? Vá lá, um pouquinho de autocrítica...


1. Capacitismo: tradução neologística do conceito inglês ableism. Refere-se à discriminação de que são vítimas as pessoas com algum tipo de incapacidade física ou mental, como, por exemplo, não haver soluções para facilitar o acesso de pessoas com dificuldades motoras ou visuais, tratar com menos respeito o portador de incapacidade ou usar o nome da incapacidade como insulto.

2. Nunca estive em Luanda. Usei a Rua Kwamme Nkrummah porque encontrei imagem na Web.

3. Chico Buarque de Hollanda, Fado Tropical.

1 comentário:

  1. Boa noite sr. Cabanita, para além de ser um texto bem elaborado e extenso emitindo a sua opinião, com a qual discordo por variadíssimas razões e a principal das quais é fazer dos portugueses uns bandidos da pior espécie. Digamos que aquilo que a Igreja Católica, como acto de contrição, pede aos crentes para expurgarem seus pecados e assim poderem entrar nos reinos dos céus e sr. Cabanita pede aos portugueses que confessem os seus pecados, por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa, para que finalmente sejamos um povo abençoado pelo "espírito santo" da ideologia que o sr. Cabanita professa. Infelizmente não somos assim, temos os nossos defeitos como outros terão os seus. Um país de novecentos anos de história já viveu muito e tem uma grande memória colectiva, que alguns agora pretendem branquear. Vamos passar a ser outros, que não nós mesmos. Infelizmente o mundo não muda assim, não sei se já tinha reparado, e nesse sentido devo-lhe dizer, como opinião pessoal, que a D. Joacine, para além dum discurso vazio sem conteúdo e batendo numa tecla que já deixámos para trás há 45 anos, tem o seu próprio projecto politico e está a armá-lo. Discordo do que ela diz, não por ela ser quem é, como discordo de qualquer discurso politico da área onde ela se insere. Não me revejo nem com BE, PCP, Livre,Verdes, PAN e PS. Estou no meu direito, penso eu, porque acredito na iniciativa privada e numa direita democrática e, no entanto, acho que esses partidos têm que existir, é legitimo e fazem falta, mas não sou obrigado a concordar com eles. Temos tanta coisa no nosso país para resolver e na aprovação do orçamento vem, a D. Joacine, falar de devolução do espólio das ex-colónias? Faz sentido? Não concordar com ela é racismo? Faz a D. Joacine uma manifestação anti racismo em Lisboa e apela que se façam também noutras cidades, ninguém a incomodou e disse o que quis, veio inclusive de Angola a mãe da tal senhora da Amadora reclamar que aqui o regime tem que mudar porque assim está mal... Acha normal? E o que achou da adesão à manifestação? O sr. Cabanita com certeza estava lá! Não sei se o sr. Cabanita já viajou pelo mundo, depreendo que sim, pois devo dizer-lhe que já conheci alguns países do mundo, inclusive vivi em dois que as liberdades não me permitiam fazer manifestações sob pena de hoje, provavelmente, não estar aqui a falar consigo. O sr. Cabanita não tem ideia do país onde vive, de tão centrado que está no seu umbigo. Vá à Guiné, a Angola, à Venezuela, à África do Sul, à Arábia Saudita ou Irão, à China ou até à Coreia do Norte, vá e promova manifestações contra aquilo que mais lhe aprouver e depois, se conseguir, venha-nos contar as maravilhas desses paraísos anti tudo o que o senhor quiser! Give me a break!

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