13 de janeiro de 2020

Angola, 1975 a 1980: O Jogo de Póker das Grandes Potências

William Blum

A informação a que temos acesso é formatada pela assimetria das fontes, bem como pelos nossos próprios preconceitos. Por isso é importante, para conhecer uma realidade, ter acesso a outras fontes, outras narrativas. Nenhuma informação pode ser engolida sem crítica.

A ideia que os portugueses têm da Guerra Colonial em Angola e da Guerra Civil que se seguiu é fortemente influenciada por grandes mitos: do ponto de vista dos saudosos do colonialismo, a traição dos dirigentes portugueses; do ponto de vista da esquerda, a santificação dos movimentos de libertação — ou a santificação de uns e a demonização de outros. Mais subtil ainda é a deformação nacionalista, em que preferimos insconscientemente as narrativas em que a nação (ou a parte da nação que mais amamos) fica melhor na fotografia.

William H. Bloom

William H. Bloom

William Blum (1933-2018) foi um ativista antiguerra e anti-imperialista norte-americano. Este texto é um capítulo do seu livro clássico "Killing Hope. U.S. Military and CIA Interventions Since World War II" (Matando a Esperança: Intervenções militares e da CIA desde a II Guerra Mundial). No seu website, o autor deixou este capítulo acessível a todos. Tratando-se de informação histórica, possivelmente não é relevante que o um texto tenha alguma idade, já que foi publicado ainda antes do fim da Guerra Civil de Angola; as úitimas informações são de 1994 e a guerra só terminou em 2002.

Não estou a publicar este texto — que não trata propriamente de Angola, mas da intervenção dos EUA nesse país — como se fosse a verdade absoluta; acho que é uma achega necessária, no entanto, para temperar as nossas ideias feitas. Espero que seja útil.


Estamos na primavera de 1975. Saigão acaba de cair. Os últimos norte-americanos fogem para salvar as suas vidas. As consequências do Watergate tornam pesado o ar nos Estados Unidos. A Comissão Pike, da Câmara dos Representantes, está a investigar atividades secretas estrangeiras da CIA. No lado do Senado, a Comissão Church está a fazer o mesmo. E a Comissão Rockefeller começou a investigar as atividades domésticas da Agência. Os jornais matutinos trazem novidades sobre as patifarias da CIA e do FBI.

A CIA e os seus influentes apoiantes alertam que o aumento de revelações iria inibir a Agência de desempenhar funções necessárias à segurança nacional.

Entretanto, na sede da CIA, em Langley, Virgínia, estão ocupados a preparar a sua próxima aventura secreta: Angola.

Para empreender uma operação militar em tal momento, os motivos, poderíamos imaginar, devem ter sido convincentes e urgentes. No entanto, na longa história das intervenções norte-americanas, seria difícil encontrar coisa com menos sentido ou com menos proveito para os Estados Unidos ou para os estrangeiros envolvidos.

A origem da nossa história remonta ao início dos anos 1960, quando dois movimentos políticos em Angola começaram a opor-se pela força ao governo colonial português: o MPLA, liderado por Agostinho Neto, e a FNLA, liderada por Holden Roberto. (O último grupo era conhecido por outros nomes nos seus primeiros anos, mas para simplificar será referido aqui apenas como FNLA.)

Os Estados Unidos, normalmente ausentes do negócio de apoiar movimentos de “libertação”, decidiram, já que Portugal provavelmente não seria capaz de manter a sua colónia para sempre, que estabelecer contacto com um possível regime sucessor poderia ser benéfico. Por motivos perdidos nas brumas da história, os Estados Unidos, ou pelo menos alguém da CIA, decidiram que Roberto era o seu homem e, por volta de 1961 ou 62, lá foi para a folha de pagamentos da Agência. 1

Ao mesmo tempo, e durante os anos seguintes, Washington forneceu ao seu aliado da Otan, a ditadura de Salazar em Lisboa, a ajuda militar e o treino de contra-insurgência necessários para reprimir a rebelião. John Marcum, um estudioso norte-americano que caminhou 1300 km por Angola até aos campos de guerrilha da FNLA, no início dos anos 60, escreveu:

"Em janeiro de 1962, observadores externos puderam assistir a aviões portugueses bombardearem e metralharem aldeias africanas, visitar os restos carbonizados de povoações como Mbanza M'Pangu e M'Pangala e anotar os dados dos invólucros de bombas de napalm de 340 kg das quais os portugueses não tinham removido as etiquetas marcadas como 'Propriedade da Força Aérea dos EUA'" 2.

Agostinho Neto

Agostinho Neto (1922-1979)

Holden Roberto

Holden Roberto (1923-2007)

Jonas Savimbi

Jonas Savimbi (1934-2002)

A União Soviética, que também dera algum apoio a Roberto, abraçou Neto em 1964, argumentando que Roberto tinha ajudado o desacreditado Moisés Tshombé no Congo e restringido as suas próprias operações de guerrilha em Angola sob pressão de Washington 3. Em pouco tempo, outro movimento, chamado UNITA, entrou em cena e a China meteu-se no jogo de póquer das grandes potências, apoiando a UNITA e a FNLA.

Embora o MPLA possa ter sido um pouco mais genuíno nas suas convicções de esquerda do que a FNLA ou a UNITA, pouco havia que distinguisse ideologicamente qualquer um dos três grupos. Quando a imprensa fazia alguma distinção entre eles, costumava referir-se ao MPLA como "marxista", mas isso era mal definido, se é que definia de todo, e simplesmente ganhou vida própria nos meios de comunicação. Cada um dos grupos falava em socialismo e empregava retórica marxista quando a ocasião pedia, e ajustavam-se a outros deuses quando não. Na década de 1960, cada um deles estava perfeitamente disposto a aceitar o apoio de qualquer país que quisesse apoiá-lo sem restrições excessivas. Neto, por exemplo, foi a Washington em dezembro de 1962 para apresentar o seu caso ao governo norte-americano e insistir que era uma falácia categorizar o MPLA como comunista. Nos dois anos seguintes, Roberto pediu ajuda à União Soviética, Cuba, China, Argélia e ao Egito de Nasser. Mais tarde, Jonas Savimbi, o líder da UNITA, abordou os mesmos países (com exceção talvez da União Soviética), bem como o Vietname do Norte, e aceitou treino militar para seus homens da Coreia do Norte.

Cada grupo era composto predominantemente por membros de uma tribo em particular; cada um tentou desencorajar a ajuda ou reconhecimento dados aos outros; cada um deles sofreu sérias divisões internas e passaram tanto tempo a lutar entre si como contra o exército português. Não eram nenhuns vietcongs 4.

O autor Jonathan Kwitny observou que as três nações tribais tinham uma longa história de luta entre si…

"Porém, só na última parte do século XX é que o Dr. Henry Kissinger e outros cientistas políticos descobriram que a verdadeira razão pela qual os Mbundu, os Ovimbundu e os Kongo lutavam de forma intermitente nos últimos 500 anos era porque os Mbundu eram 'marxistas' e os Ovimbundu e Kongo eram 'pró-ocidentais'." 5

O facto da escolha do seu aliado pela CIA ser em grande parte um processo arbitrário é ainda mais sublinhado por um telegrama do Departamento de Estado às suas embaixadas africanas em 1963, que afirmava: "A nossa política não é, repito não é, desencorajar que o MPLA ... se mova em direção ao Ocidente e não escolher entre esses dois movimentos.” 6

Mesmo em 1975, quando uma comissão do Congresso perguntou ao chefe da CIA, William Colby, quais eram as diferenças entre as três facções concorrentes, ele respondeu:

"Eles são todos independentes. São todos pela África negra. São todos por algum tipo de sistema social confuso, está a ver, sem muita articulação, mas alguma coisa do tipo, não vamos ser explorados pelas nações capitalistas."

E quando questionado porque é que os chineses estavam a apoiar o FNLA ou a UNITA, afirmou:

"Porque os soviéticos estão a apoiar o MPLA, é a resposta mais simples".

"Parece — disse o congressista Aspin — que é por isso que estamos a fazer o mesmo".

"É", — respondeu Colby 7.

No entanto, a comissão, no seu relatório posterior, afirmou que, diante da declaração de Colby, "a oposição expressa dos EUA ao MPLA é intrigante". 8

Finalmente, é instrutivo notar que todos os três grupos foram denunciados pelos portugueses como comunistas e terroristas.

Antes de abril de 1974, quando um golpe em Portugal derrubou a ditadura, a ajuda dada aos movimentos de resistência angolanos pelos seus vários patronos estrangeiros era esporádica e insignificante, essencialmente uma questão dos patronos manterem as mãos no jogo. O golpe, no entanto, aumentou as apostas, pois o novo governo português logo declarou a disposição de conceder independência às suas colónias africanas.

Num acordo anunciado em 15 de janeiro de 1975, os três movimentos formaram um governo de transição com eleições a serem realizadas em outubro e a independência formal a ocorrer no mês seguinte.

Desde 1969, Roberto trabalhava com uma tença de US$ 10.000 por ano da CIA. 9 Em 22 de janeiro, a Comissão secreta dos Quarenta do Conselho de Segurança Nacional em Washington autorizou a CIA a transferir US$ 300.000 para Roberto e para a FNLA para "várias atividades de ação política, restritas a objetivos não militares". 10 Esses fundos, é claro, podiam sempre libertar outros fundos para usos militares.

Em março, a FNLA, historicamente o mais bélico dos grupos, atacou a sede do MPLA e depois matou 51 jovens recrutas desarmados do MPLA. 11 Esses incidentes serviram para desencadear o que seria uma guerra civil em grande escala, com a UNITA a alinhar-se com a FNLA contra o MPLA. As eleições programadas nunca aconteceriam.

Também em março, o primeiro grande carregamento de armas chegou da União Soviética para o MPLA. 12 O comitê de investigação da Câmara dos Representantes dos EUA declarou mais tarde que "eventos posteriores sugeriram que essa infusão de ajuda norte-americana [os US$ 300.000], sem precedentes e massiva na colónia subdesenvolvida, pode ter levado ao pânico dos soviéticos em armar os seus clientes do MPLA"13

Os soviéticos podem ter sido igualmente influenciados pelo facto da China ter enviado um enorme pacote de armas à FNLA em setembro anterior e enviado mais de cem conselheiros militares ao vizinho Zaire para treinar os soldados de Roberto, apenas um mês após o golpe em Portugal. 14

A CIA fez seu primeiro grande envio de armas para a FNLA em julho de 1975. Assim, como os russos e os chineses, os Estados Unidos estavam a dar ajuda a um lado da Guerra Civil angolana a um nível muito superior ao que já tinham fornecido durante o luta contra o colonialismo português.

Os Estados Unidos estavam diretamente envolvidos na guerra civil num grau acentuado. Além de treinar unidades de combate angolanas, o pessoal dos EUA fez bastantes voos entre o Zaire e Angola, realizando missões de reconhecimento e abastecimentos, 15 e a CIA gastou mais de um milhão de dólares num ambicioso programa mercenário. 16 Várias reportagens apareceram na imprensa norte-americana, afirmando que muitos mercenários norte-americanos estavam a lutar em Angola contra o MPLA — desde "dezenas" a "300" — e que muitos outros estavam a ser recrutados e treinados nos Estados Unidos para se lhes juntar. Mas John Stockwell, chefe da força-tarefa da CIA em Angola, coloca o número de mercenários norte-americanos que chegaram realmente a Angola em apenas 24. 17 A CIA também estava a financiar diretamente o armamento de mercenários britânicos. 18 (Os mercenários incluíam entre eles o conhecido psicopata inglês George Cullen, que alinhou 14 de seus colegas soldados da fortuna e os matou a todos a tiro por terem atacado por engano o lado errado.) 19

Posteriormente, o secretário de Estado Henry Kissinger informou o Senado que "a CIA não está envolvida" no recrutamento de mercenários para Angola. 20

Guerra Civil de Angola

Havia também mais de cem oficiais da CIA e conselheiros militares norte-americanos a correr por Angola, Zaire, Zâmbia e África do Sul, ajudando a dirigir as operações militares e praticando as suas habilidades de propaganda. 21 Através de jornalistas recrutados, representando os principais serviços de notícias, a Agência conseguiu gerar cobertura internacional para reportagens falsas sobre consultores soviéticos em Angola. Uma história da CIA, anunciada à imprensa pela UNITA, era que 20 russos e 35 cubanos haviam sido capturados. Outra invenção dizia respeito a supostos estupros cometidos por soldados cubanos em Angola; isso foi fabricado para incluir a sua captura, julgamento e execução, completos com fotos das jovens que mataram os cubanos que as violaram. 22

Ambas as histórias foram amplamente divulgadas na imprensa norte-americana e britânica e noutros sítios. Alguns dos principais jornais, como o New York Times, o Washington Post e o The Guardian de Londres, tiveram o cuidado de apontar que a única fonte de informação era a UNITA e seus artigos não tentaram atribuir nenhuma credibilidade especial às reportagens. 23 Mas isso não poderia, é claro, impedir a colocação de sementes de crença nas mentes dos leitores, já condicionados a acreditar no pior dos comunistas.

A campanha de desinformação também ocorreu nos Estados Unidos. Os delegados da FNLA vieram a Nova Iorque em setembro para fazer lobby por apoio na ONU e junto da imprensa de Nova Iorque, distribuindo cópias de um white paper sobre o conflito angolano preparado na sede da CIA, mas que parecia ter sido produzido no Zaire, em francês e tudo. 24 John Stockwell descreveu o artigo como sendo algumas vezes "falso a ponto de ser ridículo" e outras vezes "simplesmente impreciso"25

Posteriormente, representantes da UNITA foram a Washington e apresentaram aos membros do Congresso, do Departamento de Estado, da Casa Branca e dos meios de comunicação relatos verbais sobre a situação em Angola, que foram o produto de briefings que lhes foram dados pelos seus controleiros da CIA. 26

Em janeiro de 1976, William Colby sentou-se diante da comissão de investigação do Senado e assegurou solenemente aos senadores:

"Tomamos especial cuidado para garantir que as nossas operações sejam focadas no exterior e não nos Estados Unidos para influenciar a opinião do povo norte-americano sobre as coisas do ponto de vista da CIA. 27

Não houve virtualmente nenhum aspeto importante da intervenção em Angola que Colby, Kissinger e outros altos oficiais não tenham deturpado ao Congresso e aos meios de comunicação.

As probabilidades nunca favoreceram uma vitória militar para as forças apoiadas pelos EUA em Angola, particularmente na ausência de um compromisso norte-americano em larga escala que, dada a atmosfera política, não estava nas cartas. O MPLA foi a mais organizada e melhor liderada das três facções e desde o início controlava a capital de Luanda, que abrigava quase toda a maquinaria governamental. No entanto, por nenhuma razão, aparentemente, além do despeito antissoviético, os Estados Unidos não estavam dispostos a permitir um acordo negociado. Quando Savimbi, da UNITA, sondou o MPLA em setembro de 1975, para discutir uma solução pacífica, levou uma advertência da CIA. Da mesma forma, no mês seguinte, quando uma delegação do MPLA foi a Washington para exprimir novamente a sua potencial amizade aos Estados Unidos, foi tratada com frieza, sendo recebida apenas por um funcionário de baixo nível do Departamento de Estado. 28

Em novembro, representantes do MPLA vieram a Washington para pedir a libertação de dois aviões a jacto da Boeing pelos quais o governo pagara, mas que o Departamento de Estado não permitia serem exportados. John Stockwell relata o desenvolvimento incomum de que os homens do MPLA estavam acompanhados por Bob Temmons, que até há pouco tempo atrás era o chefe da estação da CIA em Luanda, bem como pelo presidente da Boeing. Enquanto os dois angolanos e o homem da Boeing fizeram uma petição ao Departamento de Estado, o homem da CIA informou a sede da Agência de que compartilhava a opinião do cônsul-geral dos EUA em Luanda “que o MPLA estava melhor qualificado para administrar o país, que não era comprovadamente hostil aos Estados Unidos e que os Estados Unidos deveriam fazer as pazes o mais rápido possível.”

A resposta do Departamento de Estado aos representantes do MPLA foi simples: o preço de qualquer cooperação norte-americana com o governo angolano era a saída da influência soviética, a entrada da influência norte-americana. 29

Num momento ou noutro, quase duas dúzias de países, do Leste e do Oeste, sentiram-se compelidos a intervir no conflito. Os principais foram os Estados Unidos, a China, a África do Sul e o Zaire, do lado da FNLA/UNITA, e a União Soviética, Cuba, a República do Congo e tropas catanguesas (rebeldes zairianos) a apoiar o MPLA. A presença de forças sul-africanas do seu lado custou caro, aos Estados Unidos e aos seus aliados angolanos, em apoio de outros países, particularmente de África. No entanto, a participação da África do Sul na guerra foi solicitada diretamente pelos Estados Unidos. 30 Em nítido contraste com a política norte-americana publicamente declarada, a CIA e a NSA vinham colaborando com o serviço de informações de Pretória desde os anos 1960 e continuaram a fazê-lo em relação a Angola. Um dos principais focos da informação fornecida pelos EUA à África do Sul foi o ANC (Congresso Nacional Africano), a principal organização anti-apartheid, que havia sido banida e exilada. 31 Em 1962, a polícia sul-africana prendeu o líder do ANC, Nelson Mandela, com base em informações sobre seu paradeiro e disfarce, fornecidas pelo oficial da CIA Donald Rickard. Mandela passou quase 28 anos na prisão. 32

Em 1977, a Administração Carter proibiu a partilha de informações com a África do Sul, mas isso foi amplamente ignorado pelas agências de informação norte-americanas. Dois anos antes, a CIA tinha estabelecido um mecanismo secreto pelo qual armas eram entregues aos sul-africanos; esta prática, violando a lei dos EUA, continuou até pelo menos 1978, e uma parte das armas foi certamente usada em Angola. 33 A África do Sul, por sua vez, ajudou a transportar a ajuda militar norte-americana do Zaire para Angola. 34

Para ser justo com a CIA, deve-se ressaltar que a sua gente não era totalmente alheia ou insensível ao que a África do Sul representava. A Agência teve muito cuidado em não deixar os seus oficiais negros entrarem no programa de Angola. 35

Um corte de ajuda do Congresso à FNLA/UNITA, promulgado em janeiro de 1976, espetou um prego decisivo no seu caixão. Os congressistas ainda não sabiam a verdade completa sobre a operação norte-americana, mas uma parte suficiente das suas mentiras públicas tinha sido exposta, o que os deixou irritados com a forma como Kissinger, Colby, et al. mentiam nas suas caras. A consequência foi uma das raras ocasiões, nos tempos modernos, em que o Congresso dos EUA exerceu uma influência direta e crucial na política externa norte-americana. Nesse processo, evitou a rampa escorregadia para outro Vietname, no topo da qual estavam Henry Kissinger e a CIA com sapatos ensebados. 36

Em fevereiro, o MPLA, com a ajuda essencial de tropas cubanas e equipamentos militares soviéticos, quase derrotou os seus oponentes. A presença cubana em Angola foi principalmente uma resposta direta aos ataques sul-africanos contra o MPLA. Wayne Smith, diretor do Gabinete de Assuntos Cubanos do Departamento de Estado, de 1977 a 1979, escreveu que "em agosto e outubro [1975] as tropas sul-africanas invadiram Angola com pleno conhecimento dos EUA. Não havia tropas cubanas em Angola antes desta intervenção" 37.

Savimbi, neste momento, novamente considerou alcançar um entendimento com o MPLA. A resposta de Washington foi: Continue a lutar. Kissinger prometeu pessoalmente à UNITA apoio contínuo se mantivessem sua resistência, sabendo muito bem que não havia mais apoio a dar. Durante as duas semanas em que Savimbi esperou a sua resposta, perdeu 600 homens num único campo de batalha. 38 No entanto, incrivelmente, menos de dois meses antes, o secretário de Estado havia declarado: "Nós não somos contra o MPLA como tal... podemos viver com qualquer uma das facções em Angola" 39. O homem estava totalmente obcecado em combater movimentos soviéticos em qualquer lugar no planeta — significativos ou triviais, reais ou imaginários, factos consumados ou antecipados. Talvez tenha sido particularmente motivado neste caso, pois, como escreveu mais tarde: "Angola representa a primeira vez que os soviéticos se moveram militarmente a longa distância, para impor um regime da sua escolha." 40

Se isto parece muito distante de como os académicos nos dizem que a política externa norte-americana é feita, mesmo assim é mais plausível do que a outra explicação comummente avançada para a política em Angola, a saber: foi feita para agradar a Mobutu Sese Seko, chefe do Zaire, caracterizado como o aliado/cliente mais importante dos EUA em África, se não no Terceiro Mundo. 41 (O Zaire abrigava a maior estação da CIA em África.) Mobutu desejava um governo angolano que ele pudesse influenciar, principalmente para impedir que Angola fosse usada como santuário pelos seus arqui-inimigos, os rebeldes da província de Catanga. Consequentemente, o líder zairiano comprometeu as suas forças armadas equipadas pelos EUA em combate em Angola, ao lado da FNLA, pois Holden Roberto era seu parente, embora Roberto e a FNLA pouco mais tivessem a seu favor. Como o professor Gerald Bender, uma das principais autoridades norte-americanas em Angola, testemunhou perante o Congresso em 1978:

"Embora os Estados Unidos apoiem a FNLA em Angola há 17 anos, é praticamente impossível encontrar um funcionário, estudioso ou jornalista norte-americano, familiarizado com esse partido, que testemunhe positivamente sobre a sua organização ou liderança. Depois de um debate com um alto funcionário do Departamento de Estado no final da Guerra Civil angolana, perguntei-lhe porque os Estados Unidos apostaram na FNLA. Ele respondeu: 'Raios me partam se sei; Eu nunca vi um único relatório ou memorando que sugira que a FNLA tenha alguma organização, líderes sólidos ou uma ideologia com a qual possamos contar.' Até líderes estrangeiros que apoiaram Holden Roberto, como o general Mobutu, concordam com essa avaliação. Quando perguntado por um senador norte-americano visitante se achava que Roberto seria um bom líder para Angola, Mobutu respondeu: 'Porra, não!'" 42

O próprio Kissinger disse ao comitê de investigação da Câmara que promover a estabilidade de Mobutu era uma das principais razões para a política norte-americana em Angola. 43 No entanto, mesmo que este tenha sido um dos raros comentários verdadeiros de Kissinger sobre a situação em Angola, e mesmo que isso possa ser uma justificação válida para uma intervenção séria numa guerra civil num país terceiro, a sua declaração desafia a compreensão; em junho de 1975, um mês antes dos Estados Unidos enviarem o seu primeiro grande pacote de armas para a FNLA, Mobutu acusou os EUA de planearem o seu derrube e assassinato, e a seguir expulsou o embaixador norte-americano (...).

O secretário de Estado, a quem nunca faltou uma frase feita à medida para o seu público imediato, também disse às autoridades israelitas que a falha em impedir os russos em Angola “poderia incentivar países árabes como a Síria a correr riscos que poderiam levar a um novo ataque a Israel, apoiado pelos russos"44

O embaixador norte-americano nas Nações Unidas, Daniel Moynihan, não subiu muito o nível da discussão quando declarou que se os Estados Unidos não interviessem “os comunistas assumiriam o controle de Angola e, assim, controlariam consideravelmente as rotas de transporte de petróleo do Golfo Pérsico para a Europa. A seguir estarão no Brasil. Terão uma grande parte da África, e o mundo será diferente depois do seu sucesso"45 Uma linha de pensamento verdadeiramente barroca e mais um exemplo do que o condicionamento da guerra fria podia fazer a uma pessoa de outra forma inteligente e instruída.

Mudando apenas os nomes dos lugares, teorias geopolíticas semelhantes de queda dos dominós foram apresentadas para dar um verniz de racionalidade a tantas intervenções norte-americanas. Neste caso, como nos outros onde os "comunistas" venceram, nada disso aconteceu.

“Com todo respeito a Kissinger —escreveu Jonathan Kwitny — é preciso realmente questionar a sanidade de alguém que olha para uma antiga disputa tribal pelo controlo de campos de café distantes e vê nela uma ameaça soviética à segurança dos Estados Unidos." 46

O MPLA no poder foi restringido pelas mesmas realidades económicas nacionais e internacionais que a FNLA ou a UNITA teriam enfrentado. Consequentemente, desencorajou a militância sindical, lidou severamente com as greves, exortou os trabalhadores a produzir mais, celebrou contratos comerciais com várias multinacionais e não levantou o martelo e a foice sobre o palácio presidencial. 47 O MPLA instou a Gulf Oil Co. a continuar a sua operação exclusiva na província de Cabinda e garantiu a segurança dos funcionários da corporação norte-americana enquanto os combates ainda eram pesados. A Gulf estava completamente recetiva a essa oferta, mas a CIA e o Departamento de Estado pressionaram a empresa a interromper os seus pagamentos de royalties ao MPLA, comprometendo assim todo o empreendimento de petróleo de uma forma que o governo "marxista" nunca fez. Um aspeto dessa pressão foi a ameaça de Kissinger de abrir uma investigação de suborno internacional à empresa. A Gulf chegou a uma solução de compromisso ao colocar os seus pagamentos numa conta bancária de custódia até que a Guerra Civil pareceu terminar alguns meses depois, quando os pagamentos ao MPLA foram retomados. 48

Ao contrário da crença ocidental aceite, Cuba não entrou na guerra angolana como um substituto soviético. John Stockwell observou que, após a guerra, a CIA “soube que Cuba não havia sido mandada agir pela União Soviética”, mas que “os líderes cubanos se sentiram compelidos a intervir pelas suas próprias razões ideológicas”49 Em 1977, a revista novaiorquina Africa Report afirmava que “os cubanos apoiaram a abordagem pragmática [do líder do MPLA Neto] em relação aos investimentos ocidentais e as suas tentativas de manter uma política externa de não-alinhamento”. A revista também informava que em 27 de maio o governo angolano anunciou que, auxiliado por tropas cubanas, esmagou uma rebelião por uma facção do MPLA cujo líder alegava ter apoio soviético. 50

A guerra civil em Angola não chegou ao fim em 1976, como parecia, pois os combates continuaram intermitentemente, às vezes moderadamente, às vezes de forma feroz.

Em 1984, um memorando confidencial contrabandeado para fora do Zaire revelou que os Estados Unidos e a África do Sul se tinham reunido em novembro de 1983 para discutir a desestabilização do governo de Angola. Foram elaborados planos para fornecer mais ajuda militar à UNITA (a FNLA estava agora extinta) e foram realizadas discussões sobre formas de implementar uma ampla gama de táticas: unificar os movimentos antigovernamentais, despertar sentimentos populares contra o governo, sabotar fábricas e sistemas de transporte, tomar pontos estratégicos, interromper projetos conjuntos entre Angola e a União Soviética, minar as relações entre o governo, a União Soviética e Cuba, pressionar Cuba a retirar as suas tropas, semear divisões nas fileiras da liderança do MPLA, infiltrar agentes no exército angolano e exercer pressão para conter o fluxo de investimentos estrangeiros em Angola.

Os Estados Unidos rotularam o documento de falsificação, mas o representante da UNITA em Washington não confirmou nem negou que a reunião ocorreu. Ele afirmou, no entanto, que a UNITA tinha "contactos regulares com autoridades dos EUA em todos os níveis".

O objectivo da operação, de acordo com o memorando, era forçar parte da liderança angolana a negociar com a UNITA, precisamente o que Washington desencorajara com sucesso anos antes. 51

Um mês após a reunião relatada entre os EUA e a África do Sul, o Conselho de Segurança da ONU censurou a África do Sul pelas suas operações militares em Angola e endossou o direito de reparação de Luanda. Somente os Estados Unidos, abstendo-se, não apoiaram a resolução. 52

Em agosto de 1985, após uma batalha de três anos com o Congresso, o governo Reagan venceu a revogação da proibição de 1976 contra a ajuda militar dos EUA às forças rebeldes em Angola. A assistência militar começou a fluir para a UNITA tanto aberta como secretamente. Em janeiro de 1987, Washington anunciou que estava a fornecer aos rebeldes mísseis Stinger e outras armas antiaéreas. Três meses antes, Jonas Savimbi tinha falado perante o Parlamento Europeu em Estrasburgo, na França, num pedido de apoio. Após a sua palestra, no entanto, uma sessão plenária do Parlamento criticou o apoio norte-americano ao líder guerrilheiro e aprovou uma resolução que descreveu a UNITA como uma "organização terrorista que apoia a África do Sul"54

Finalmente, em setembro de 1992, foram realizadas eleições, mas quando ficou claro que o MPLA seria o vencedor de um segundo turno — numa votação que a ONU certificou ser livre e justa — Savimbi recusou-se a aceitar o resultado. Terminou um cessar-fogo de um ano e lançou uma das maiores ofensivas de guerra da UNITA, ainda sendo abastecido pela África do Sul e, nos últimos anos, por companhias aéreas "privadas" norte-americanas e organizações de "ajuda" com histórias interessantes, tais como contactos anteriores com os contras da Nicarágua.

Em maio de 1993, Washington finalmente reconheceu o governo angolano. Em janeiro, pouco antes da administração Clinton tomar posse, um alto funcionário do Departamento de Estado declarou: “A Unita é exatamente como os Khmers Vermelhos: eleições e negociações são apenas mais um método de lutar numa guerra; o poder é tudo." 55

A guerra — que havia ceifado mais de 300.000 vidas — ainda decorria em 1994, continuando a produzir uma fome generalizada e o que se diz ser a maior taxa de amputados do mundo, causada pelas inúmeras minas terrestres.


NOTAS

1. New York Times, 25 de setembro de 1975; 19 de dezembro de 1975.

2. John A. Marcum, "The Angolan Revolution", vol. I, 1950-1962 (MIT Press, Cambridge, Mass., 1969) pp. 229-30.

3. New York Times, 17 de dezembro de 1964, p. 14.

4. Comparação dos três grupos: a) Jonathan Kwitny, “Endless Enemies: The Making of an Unfriendly World” (Nova Iorque, 1984), capítulo 9; b) Marcum, vol. II, 1962-1976 (1978) pp. 14-15, 132, 172 e noutros lugares; c) Basil Davidson, “In the Eye of the Storm: Angola’s People” (Londres, 1972) passim; d) Ernest Harsch e Tony Thomas, “Angola: The Hidden History of Washington’s War” (Nova Iorque, 1976) passim. Apelos internacionais de apoio feitos por Roberto e Savimbi: ver também New York Times, 4 de janeiro de 1964, p. 15; Kwitny, p. 136; Declassified Documents Reference System, volume de 1977, documento 210D (telegrama, 17 de julho de 1964, embaixada dos EUA no Congo para o Departamento de Estado).

5. Kwitny, pp. 132-3.

6. Circular 92 do Departamento de Estado, 16 de julho de 1963, citado em Marcum II, p. 16.

7. "Hearings before the House Select Committee on Intelligence" (a Comissão Pike) publicadas em "CIA - The Pike Report" (Nottingham, Inglaterra, 1977) p. 218; doravante referido como Relatório Pike. (Veja Notas: capítulo sobre o Iraque para mais informações.)

8. Ibid., P. 201.

9. New York Times, 25 de setembro de 1975; 19 de dezembro.

10.  Relatório Pike, p. 199, as palavras entre aspas são as da Comissão Pike; a data vem de John Stockwell, “In Search of Enemies” (Nova Iorque, 1978) p. 67. Stockwell era oficial da CIA e chefe da força-tarefa da Agência em Angola.

11. Stockwell, pp. 67-8; Marcum II, pp. 257-8 (ele cita vários relatos da imprensa internacional).

12. New York Times, 25 de setembro de 1975.

13. Relatório Pike, p. 199.

14. Stockwell, p. 67.

15. New York Times, 12 de dezembro de 1975; Harsch e Thomas, p. 100, citando CBS-TV News, 17 de dezembro de 1975, e senador John Tunney, 6 de janeiro de 1976.

16. New York Times, 16 de julho de 1978, p. 1

17. Entrevista de Stockwell pelo autor (William Blum). No entanto, Holden Roberto estava a usar o dinheiro da CIA, com a aprovação tácita da Agência, para recrutar muitos outros mercenários — mais de 100 britânicos, além de franceses e portugueses. Stockwell, pp. 223-4; ver também Harsch e Thomas, pp. 99-100.

18. Chapman Pincher, “Inside Story: A Documentary of the Pursuit of Power” (Londres, 1978) p. 20

19. Stockwell, p. 225.

20. New York Times, 16 de julho de 1978, referindo-se à declaração de Kissinger de 29 de janeiro de 1976.

21. Stockwell, pp. 162, 177-8, além de entrevista de Stockwell pelo autor.

22. Ibid., Pp. 194-5.

23. A história da captura de russos e cubanos apareceu na imprensa em 22 de novembro de 1975; a história do estupro, 12 de março de 1976.

24. Stockwell, p. 196.

25. San Francisco Chronicle, 9 de maio de 1978.

26. Stockwell, pp. 196-8.

27. "Foreign and Military Intelligence, Book 1, Final Report of the Select Committee to Study Governmental Operations with Respect to Intelligence Activities (US Senate)", 26 de abril de 1976, p. 129.

28. Stockwell, p. 193.

29. Ibid., Pp. 205-6 ("Bob Temmons" é provavelmente um pseudônimo); depois da guerra ter terminado, o Departamento de Estado libertou os aviões para Angola.

30. Newsweek (International Edition), 17 de maio de 1976, p. 23, implicitamente admitido pelo primeiro-ministro da África do Sul, Balthazar Johannes Vorster.

31. New York Times, 16 de julho de 1978, p. 1; 23 de julho de 1986, p. 1; Stockwell, pp. 208, 218; Stephen Talbot, "The CIA and BOSS: Thick as Thieves" em Ellen Ray, et al., Eds., "Dirty Work 2: The CIA in Africa" ​​(Nova Jersey, 1979) pp. 266-75 (BOSS é o Bureau de Segurança do Estado da África do Sul); Bob Woodward, "VEIL: The Secret Wars of the CIA 1981-1987" (Nova Iorque, 1987), p. 269.

32. The Guardian (Londres), 15 de agosto de 1986; The Times (Londres), 4 de agosto de 1986, p. 10.

33. New York Times, 25 de março de 1982, p. 7, citando um relatório da Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Representantes.

34. Stockwell, p. 209.

35. Ibid., P. 75.

36. Stockwell, pp. 216-17 discute como isso aconteceu.

37. Wayne S. Smith, "Dateline Havana: Myopic Diplomacy", Foreign Policy (Washington, DC), outono de 1982, p. 170.

38. Stockwell, pp. 234-5.

39. New York Times, 24 de dezembro de 1975, p. 7.

40. Henry Kissinger, "American Foreign Policy" (Nova Iorque, 1977, terceira edição), p. 317.

41. Ver, por exemplo, New York Times, 25 de setembro de 1975.

42. "Hearings before the Subcommittee on Africa of the House Committee on International Relations", 25 de maio de 1978, p. 7.

43. Relatório Pike, p. 200.

44. New York Times, 9 de janeiro de 1976, p. 3.

45. Washington Post, 18 de dezembro de 1975, p. A23.

46. Kwitny, p. 148.

47. Harsch e Thomas, pp. 82-91; New York Times, 8 de fevereiro de 1981, IV, p. 5.

48. Stockwell, pp. 203-4, 241; mais entrevista de Stockwell pelo autor.

49. Stockwell, p. 172.

50. Galen Hull, “Internationalizing the Shaba Conflict”, Africa Report (Nova Iorque) julho-agosto de 1977, p. 9. Para uma discussão mais aprofundada sobre a possível conexão soviética à rebelião e a atitude russa em relação a Angola, veja Jonathan Steele, “Soviet Relations with Angola and Mozambique” em Robert Cassen, ed., "Soviet Interests in the Third World" (Publicado por Sage para o Royal Institute of International Affairs, Londres, 1985), p. 290.

51. The Observer (Londres), 22 de janeiro de 1984.

52. The Guardian (Londres), 21 de dezembro de 1983.

53. The Times (Londres), 23 de outubro de 1986, p. 8; a votação no Parlamento Europeu foi de 152-150.

54. The Guardian (Londres), 25 de junho de 1990, p. 10; Sharon Beaulaurier, “Profiteers Fuel War in Angola”, Covert Action Quarterly (Washington, DC), nº 45, verão de 1993, pp. 61-65.

55. New York Times, 17 de janeiro de 1993, IV, p. 5.


 Este é um capítulo de "Killing Hope: U.S. Military and CIA Interventions Since World War II", de William Blum.

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