Quando o açude rebentar

Se continua a chover, o açude vai rebentar. Quando o açude rebentar, vou ficar sem casa. Vou-me embora para Chicago...

A canção, uma das minhas all time favourites, pertence ao álbum mítico de 1971 Led Zeppelin IV (que não tem realmente nome; o seu título são quatro símbolos obscuros escolhidos pelos membros da banda).

When the Levee Breaks, Led Zeppelin, 1971 (remasterizado)

Soube recentemente que esta canção tem raízes profundas na música negra, mais fundas que a influência já decisiva dos blues no rock. Foi composta pela bueswoman Memphis Minnie, aliás Lizzie Douglas (1887-1973).

O tema da canção tem a ver com a Grande Migração, quando milhões de negros do sul dos EUA acharam insuportável a substituição da escravatura de antes da Guerra Civil pelo regime de segregação, discriminação e Jim Crow e migraram para o norte, sobretudo para Chicago e para a região dos Grandes Lagos em geral.

Memphis Minnie fez ela própria esta migração. A sua contribuição para o blues é enorme, mas pouco ganhou com isso. Quando Jimmy Page e amigos usaram a sua canção para um dos álbuns mais vendidos do século vinte, ainda era viva — e muito pobre. Foi mais um dos nomes de autores negros (com a agravante de ser mulher) cuja criatividade foi usada pelos artistas brancos para fazer grandes fortunas. Diga-se em abono dos Led Zeppelin que foram os primeiros, dos muitos que usaram as suas canções sem pagar direitos, que pelo menos mencionaram o nome de Memphis Minnie como co-autora da canção. A Grande Migração marca também a transição dos blues da guitarra acústica para a elétrica, com o estabelecimento da corrente dos Chicago blues. Memphis Minnie é uma das pioneiras no uso da guitarra elétrica.

When the Levee Breaks, Memphis Minnie, com o marido Little Son Joe, por volta de 1940.

Por volta dos anos 60, os pioneiros do blues ainda vivos tinham sido quase esquecidos pela indústria discográfica nos EUA, preteridos em favor dos praticantes do rock & roll, quase todos brancos. Foi a geração inglesa dos Beatles e Rolling Stones quem os trouxe de novo à fama, reconhecendo finalmente a sua contribuição.

O álbum Led Zeppelin IV sempre foi um dos meus preferidos. É considerado por muitos críticos um dos melhores do século XX. É curioso que para mim, na altura, me pareceu uma tentativa do grupo enveredar por novos caminhos diferentes do rock pesado. Mas há também quem o considere um dos precursores do metal.

When the Levee Breaks é uma canção muito pouco tocada ao vivo. A razão é que se trata de um trecho com imensos truques de produção, impossíveis de reproduzir em concerto. O vídeo seguinte analisa alguns desses truques. A bateria inicial, famosíssima, foi gravada na escadaria de um casarão inglês, com microfones colocados no primeiro andar para criar eco (mais um gerador de eco). O trabalho de guitarra de Jimmy Page é extremamente complexo e também cheio de truques, que incluem o uso de uma viola de seis cordas e outra de doze, esta com uma corda desativada, e também uma corda da guitarra de seis cordas afinada de forma diferente das outras cinco, juntando à parte da guitarra muitos discretos overdubs. Por fim toda a canção foi reproduzida a uma velocidade menor do que aquela em que foi originalmente tocada. Jimmy Page ainda não tinha a sua original guitarra compósita de seis e doze cordas, que só arranjou a seguir para poder tocar ao vivo outro famoso trecho deste álbum, Stairway to Heaven.

Rocksplaining, um dos muitos canais que analisam os clássicos do rock, dedica-se a When the Levee Breaks.

 

 

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