21 de março de 2021

Gourmets, connaisseurs e a ilusão do prazer supremo

Há tempos, publiquei no Facebook uma história deliciosa: numa cervejaria "francesa" de Nova Iorque, serviram, por erro, um vinho Pinot Noir de 50 dólares a um grupo que tinha encomendado um Château Mouton Rothschild de dois mil, e serviram este a um casal jovem que tinha encomendado o vinho de 50. O casal estava na brincadeira, fazendo o teatro de estarem a beber um vinho superlativo, sem saber que estavam mesmo a bebê-lo; o grupo de empresários bebia o vinho de 50 dólares com enormes elogios, sem saber que era um relativamente banal Pinot Noir.

Este Château Mouton Rotschild custa cerca de mil euros; o Pinot Noir da Dona Ermelinda custa nove e meio. Claro que, na carta de vinhos de uma cervejaria "francesa" de Nova Iorque, os preços vão por aí acima...

Há uns anos um grupo de conhecedores de vinhos lançou o pânico no meio, ao executar provas cegas. Foi uma sensação semelhante ao grito de "o rei vau nu" da tal criança da fábula. Mostrou-se que os provadores eram fortemente influenciados pelo conhecimento prévio da marca do que estavam a provar. Às cegas, confundiam vinhos de preços modestos com outros caríssimos.

Isto levou a alguma disciplina no meio, mas, no fim de contas, creio que a necessidade comercial voltou a sobrepor-se à capacidade dos provadores. Se o provador não serve para garantir que um vinho de mil euros vale o preço, serve para quê?

Limites dos sentidos

Não desprezo a arte dos provadores. As capacidades humanas inatas variam muito de pessoa para pessoa e, para além disso, podem ser desenvolvidas pelo treino de forma dramática. É assim que encontram nos vinhos odores de amoras ou chocolate, o que sempre me intrigou imenso. Mas as capacidades humanas têm limites. Por exemplo, o treino atlético dos últimos cento e tal anos proporcionou atingir marcas extraordinárias, mas nenhum humano é capaz de saltar por cima de uma casa de dois pisos.

Imagino que é fácil distinguir um mau vinho de um passável, assim como de um excecional. Até eu sou capaz. Os narizes e palatos divinos saberão apreciar um muitíssimo bom. Mas distinguir um vinho excecional, digamos que vendido a 50 euros, de um outro tão loucamente superior que vale mil euros? Duvido muito. Mesmo muito.

Há realmente capacidades sensoriais extraordinárias. Quando morei na Parede, depois de 1975, morava lá também o maestro Lopes Graça. Vi-o muitas vezes no comboio, pequenino, de barbicha e óculos, parecia o Ho Chi Min. Amigos comuns contaram-me que ele os foi visitar, quando estavam a ouvir um trecho clássico no gira-discos. O maestro fez um ar estranho e disse: Isso está tudo meio tom abaixo do que devia! Mandaram depois arranjar o gira-discos e, na verdade, a velocidade de rotação do prato estava errada. Lopes Graça tinha o chamado ouvido absoluto, um talento raríssimo. Enquanto quase todos os músicos têm que avaliar os tons musicais em comparação uns com os outros e partir do som do diapasão (o apito do telefone tradicional também está em 440 Hz, no lá-de-afinação), ele sabia qual o valor de qualquer nota sem precisar de comparar com outras. Um músico banal não teria ouvido nada de errado, porque as notas estavam certas na relação entre si. Era o tom absoluto que estava mal! Mozart tinha esse talento também, dizem.

Voltando às provas de vinho, o gráfico acima mostra as possibilidades de avaliação do vinho por parte de um provador. A cor indica o seu paladar. Se é muito fácil sentir a qualidade nas zonas mais baixas — onde o tom verde indica um sabor desagradável — para as zonas superiores o sabor é bom, mas indeterminado. O provador sabe que está a provar um vinho muito bom, mas não terá forma nenhuma de saber se está na zona dos 50 euros ou na de mil. Pode sempre encontrar os tais aromas, frutado, couro, terra, amoras, chocolate, avaliar que tipo de vinho é, se é mais encorpado, etc. Mas isso não o situa na tal escala (as indicações de preço do gráfico são fictícias; não me interessa saber se existe um vinho excelente a 3€ no Continente).

Se o provador quisesse ser honesto, talvez tivesse que confessar que o vinho de mil euros é uma ficção. Mas isso, evidentemente, é mau para o negócio.

Os sentidos e o prazer

O que eu estou a discutir não é o vinho, mas o acesso ao prazer.

Ao longo da história, para a parte pobre da população, o aceso ao prazer é escasso. O que a vida oferece, todo o tempo, é fome e sofrimento, para além de um pouco de sexo e de bailarico. Quando uma circunstância extraordinária oferece um pouco de acesso ao prazer, o pobre não hesita. Por exemplo, se os senhores derem um banquete de casamento com comida e bebida à vontade, é aproveitar. Ou quando, para a inauguração de uma barragem, no Estado Novo, são assados vários bois (aconteceu mesmo). Ou aproveitar o que é ilícito, se for possível iludir a lei dos senhores. Comer alguma caça furtiva. Gozar algum sexo ilícito. Ou usar o crime e a comida para obter sexo, como naquela famosa cena de O Nome da Rosa, em que um monge rouba um coração de boi do convento, para tentar seduzir uma camponesa.

Dada e escassez, o prazer continua a ser saboreado durante anos, em histórias e memórias partilhadas.

Para os ricos, o prazer é diferente. O rico tem acesso a tudo o que, de bom, a sua sociedade oferece. Pode ser a melhor gastronomia, os melhores vinhos, as caçadas, as festas, a música, o sexo obtido das súbditas, pela diferença de poder, a habitação, o vestuário.

Põem-se ao rico problemas complexos que nunca atormentaram a cabeça do pobre. O rico não pode só aceder ao poder, tem que ostentar. Comer os melhores e mais abundantes pratos não se justifica só pelo prazer gastronómico, mas pelo espetáculo de mostrar que tem acesso a eles. Esse espetáculo é necessário para manter as relações de poder próximo, com as camadas de subordinados e parasitas que se juntam na sua corte.

O rico e poderoso precisa então, não tanto de procurar o que lhe dá prazer, mas o que sublinha o esplendor do seu poder. É obrigado a procurar o raro, o excecional — não tanto para saborear, mas para ostentar. Assim, é quase sempre mais importante o que pagou pela coisa do que o prazer que poderá tirar dela — embora se deva dizer que o prazer de ostentar é um dos maiores a que o rico tem acesso.

A economia do prazer

Na nossa sociedade, o acesso ao prazer é mais aberto do que outrora, tanto porque maiores camadas da população tiveram acesso a um pouco de riqueza, como pela disponibilização de muitos produtos, através da chamada sociedade de consumo, como ainda pela diminuição da opressão social.

Para o cidadão moderno, não faz sentido, nem fartar-se, por exemplo, de comer, como fazia o camponês faminto de outrora, quando disso raramente tinha ensejo; mem consumir para ostentar, porque não tem o poder suficiente para que a sua ostentação tenha qualquer utilidade.

A melhor via, na minha opinião, é usar o prazer como um fim em si. Ou seja, desfrutar dos prazeres a que tem acesso, simplesmente para os gozar.

Para isso, é preciso saber que os prazeres não são quantidades, são sensações. Não se pode acumular prazeres como quem acumula dinheiro. Para haver prazer, tem que antes haver privação.

É inútil tentar acumular, por exemplo, o prazer gastronómico fazendo banquetes todos os dias. Banalizado o banquete, a lagosta suada não vai saber melhor que o bitoque.

Não adianta tentar maximizar o prazer sexual com uma cambalhota épica todos os dias. Não resulta. A tal cambalhota épica acontece quando condições especiais são reunidas — começando, talvez, pela privação sexual e pela carência afetiva.

Acaba por ser relevante a filosofia dos epicuristas, que na procura do prazer, chegavam por vezes quase ao ascetismo, tentando maximizar a intensidade dos seus prazeres através do seu racionamento. Talvez não precisemos de ir tão longe, mas seria sábio gerir os prazeres.

Também temos, é bom dizer, acesso a prazeres de que os ricos antigos estavam privados: por exemplo, acrescentar a muitos dos nossos prazeres o prazer de os desfrutar em conjunto, socialmente e num quadro de igualdade.

O que, provavelmente, não precisamos é de um vinho de mil euros.

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