6 de novembro de 2021

História do Céu e do Inferno

Por Bart D. Ehrman

Os antigos Hebreus não acreditavam na vida depois da morte. Morria-se e pronto. Nada a fazer. Mas, por volta do século II AEC, inquietos sobre a injustiça da morte ser igual para todos, independentemente de serem justos ou maus, inventaram, no Livro de Daniel, a ideia do Apocalipse. O mundo era dominado por forças maléficas e por isso dominava a injustiça, Mas Deus viria em breve resolver a questão. Derrotaria as forças do mal, ressuscitaria os mortos e recompensaria os bons com o paraíso na Terra e castigaria os maus com a morte. Mas não se trata de almas, o paraíso seria na terra e as pessoas viveriam nos seus corpos, agora imortais. As ideias de Jesus são as mesmas: apocalipse, julgamento final, ressurreição dos mortos e reino de Deus na Terra.

Os gregos do tempo de Homero também não acreditavam na vida além da morte. Acreditavam no Hades, mas os habitantes do Hades eram sombras sem vida. Com Platão é que começou a ideia de que a alma era distinta do corpo e imortal. Com o tempo, essa ideia começou a evoluir para uma recompensa ou castigo das almas, nos Campos Elísios ou no Tártaro.

Mas os primeiros cristãos começaram por ser ser, na maioria, gentios do Império Romano, influenciados pela filosofia platónica. Desiludidos por Jesus não voltar, apesar de ter prometido fazê-lo em breve, começaram a ler as ideias de Jesus com uma lente idealista, com as almas a ser recompensadas depois da morte, para a eternidade. Assim nasceram o Céu e o Inferno e o reino de Deus passou a não ser "deste mundo".

Bart Ehrman desenvolve aqui, de forma fascinante, essa história das ideias sobre a morte, a vida eterna, crime e castigo.

Trata-se de uma conferência online, proferida pelo famoso investigador bíblico secular, para uma audiência de membros da Comunidade de Cristo, uma denominação mórmon “progressista”. Na essência, trata-se da divulgação do seu recente livro "Heaven and Hell, an History of the Afterlife" (Céu e Inferno, uma História da Vida Depois da Morte), onde estes conceitos religiosos prevalecentes na nossa cultura, em vez de serem eternos, são tratados de forma histórica, mostrando as etapas da sua génese, num cruzamento fascinante de conceitos judaicos e helenísticos. Bart Ehrman tem, ao longo da sua carreira, investigado os cristianismos primitivos e sujeitou a sua literatura a uma crítica rigorosa. O que sabemos hoje das origens do cristianismo deve-se muito ao trabalho deste investigador.

Traduzi a transcrição da conferência, adaptei os gráficos e meti subtítulos. Quem é capaz de seguir o original falado em inglês não precisará, mas, para muitos, a transcrição traduzida será muito útil. Omiti as introduções, que só interessam à organização que promove a conferência. A parte interessante, a que corresponde a transcrição, começa apenas ao minuto 9:22. A conferência total tem uma hora e meia.

Título: The History of Heaven and Hell

Karin Peter (moderadora e membro da Community of Christ) – Uma pesquisa recente da Pew Research mostrou que 72% dos americanos acreditam num Céu literal e 58% num Inferno literal. A maioria das pessoas que têm estas crenças são cristãs e assumem que são ensinamentos antigos da Bíblia, mas as recompensas e castigos eternos não se encontram em parte alguma no Antigo Testamento e não são o que Jesus ou os seus discípulos ensinaram.

Juntemo-nos a Bart Ehrman enquanto ele desdobra a história da pós-mortalidade, a partir do seu último livro "Heaven and Hell, an History of the Afterlife" e depois participaremos juntos numa sessão de perguntas e respostas após a sua palestra. Permitam-me que tome um segundo para vos apresentar o nosso orador, antes de começarmos.

Bart D. Ehrman já escreveu ou editou 30 livros, incluindo cinco best-sellers do New York Times: "How Jesus Became God", "Misquoting Jesus", "God's Problem", "Jesus, Interrupted" e "Forged". Ehrman é um distinto professor de Estudos Religiosos na University of North Carolina Chapel Hill e é uma autoridade líder no Novo Testamento e na história do cristianismo primitivo. O seu trabalho tem sido apresentado na Time, The New Yorker, The Washington Post e outros meios de comunicação impressos e tem aparecido no Dateline da NBC, The Daily Show com John Stewart, CNN, The History Channel, National Geographic, The Discovery Channel, BBC e nos principais programas da NPR, bem como em outros meios de comunicação, pelo que vamos dar a palavra ao professor Ehrman.

Bem-vindo, professor, consegue ouvir-me?

Bart Ehrman – Consigo ouvi-la bem.

Obrigado a todos por me receberem. Agradeço-vos imenso. Esta parece ser uma conferência invulgarmente impressionante e sinto-me honrado por ser convidado a começar com esta minha palestra sobre a história do Céu e do Inferno.

Bart Ehrman

Bart Ehrman

Devo começar por dizer que este é um tema que tem sido muito importante para mim, a nível pessoal, durante muito tempo. A partir de quando eu era muito jovem, acreditei no Céu e no Inferno. Fui criado na tradição protestante e passei a maior parte da minha jovem vida como episcopal. Eventualmente, tive uma experiência de renascimento no liceu e tornei-me um cristão evangélico empenhado e acreditei realmente no Céu e no Inferno. Tinha a certeza de que queria ir para o Céu, pensava que iria e que a maioria das pessoas não iria, iriam para o Inferno. Acabei, por várias razões, por me afastar da minha fé evangélica, e depois deixei o cristianismo por completo.

De modo que agora me considero ateu, mas ainda sou um estudioso da Bíblia e extremamente interessado em tudo o que tem a ver com a Bíblia e com o cristianismo primitivo. Esta conversa vai então centrar-se numa das questões mais importantes dentro de qualquer das correntes do cristianismo: a história do Céu e do Inferno, uma história que a maioria das pessoas, mesmo aquelas que são cristãs devotas, não sabem realmente muito sobre ela, na minha experiência.

Por isso, vou fazer aqui um Powerpoint.

Vou começar adequadamente com Dante e Virgílio e, como podem ver, eles não estão aqui no paraíso, estão no inferno. Não vou chegar até Dante. O meu foco de interesse está nos primeiros quatro séculos cristãos, quando desenvolveram os cristãos os pontos de vista que se tornaram tradicionais através do cristianismo, descendo através da Idade Média para a modernidade, sobre a ideia de que, quando uma pessoa morre, a sua alma vai ou para o Céu ou para o Inferno. Vou começar com um livro que é bem conhecido entre os estudiosos, mas não tão bem conhecido entre aqueles que não são estudiosos.

O Apocalipse de Pedro

É um livro que quase entrou ao Novo Testamento, mas que acabou por não o fazer. Até ao século IV havia cristãos que pensavam que este livro deveria estar na Bíblia. É um livro que se afirma escrito pelo apóstolo Pedro e é um Apocalipse, uma Revelação do que vai acontecer. Este livro foi descoberto por serendipity em 1887, por uma equipa arqueológica francesa que estava a escavar num cemitério no Egipto e descobriu um túmulo, que por acaso tinha nele os restos de um ser humano, mas também um livro de 66 páginas que era uma pequena antologia de textos. Havia quatro textos diferentes neste livro, um dos quais é aquele em que nos vamos concentrar aqui. O Apocalipse de Pedro é agora o nosso primeiro relato sobrevivente de uma visita guiada ao Céu e ao Inferno.

Estamos familiarizados com a ideia de uma visita guiada ao Céu e ao Inferno a partir dos escritos de Dante, que acabámos de ver, mas Dante não inventou a ideia. Dante, de facto, estava a retomar uma velha tradição que já existia no cristianismo há muito tempo, de que por vezes tinham sido proporcionadas a algumas pessoas visitas guiadas aos reinos dos abençoados e dos condenados. Isso é certamente o que obtemos no Apocalipse de Pedro.

Este livro foi provavelmente escrito no segundo século da Era Comum, por assim dizer cem anos depois de Jesus ter morrido. Nele Jesus, alegadamente, proporciona a Pedro uma volta pelo reino celestial e pelos reinos do Inferno. É um relato interessante, em parte, porque a visão do Céu é bastante breve e, francamente, um pouco desinteressante. Porque, penso eu, não há muitas maneiras de descrever a felicidade eterna. Os santos estão felizes no Céu, são completamente abençoados, alegres para todo o sempre e em êxtase, mas que mais se diz? Quer dizer, para lá estão... Por outro lado, quando alegadamente Pedro descreve os tormentos do Inferno, quando o autor os descreve afirmando ser Pedro, ele pode dar largas a toda a sua veia criativa e fá-lo. Com alguma imaginação, pode inventar torturas surpreendentes para as pessoas e é exatamente isso que este autor faz.

Acontece que no Inferno, nesta visão, as pessoas são punidas de acordo com o seu pecado característico e, por vezes, a punição corresponde ao crime. Assim, por exemplo, as pessoas que blasfemaram contra Deus, que mentiram contra Deus com a língua, são penduradas pelas línguas sobre as chamas eternas. As mulheres que fizeram tranças nos cabelos para se tornarem atraentes, para poderem seduzir os homens, são penduradas pelos cabelos sobre as chamas eternas. Os homens que elas seduziram são pendurados por uma parte diferente do corpo, sobre chamas eternas; e os homens gritam: Não sabíamos que chegaria a isto! O que, certamente, é verdade.

Pedro vê um grande número de pecadores, e todos eles estão a ser punidos de acordo com o seu pecado característico, e ele também vê então, claro, os reinos do Céu, onde os santos, os crentes em Jesus que fizeram boas acções, residem para sempre. Este não é um livro demasiado longo. Torna-se uma leitura muito interessante. Ainda hoje se pode lê-lo em tradução portuguesa (PDF), uma vez que é publicado desde o século XIX. Não é excessivamente subtil no que diz respeito ao seu ponto principal. A questão é: Se queres as bênçãos do Céu e queres evitar os tormentos do Inferno, não peques! E as suas formas muito específicas de dizer para não pecar.

Esta ideia de que, quando alguém morre, a sua alma vai para o Céu ou para o Inferno, tornou-se a visão dominante dentro do Cristianismo e eu quero rastrear de onde vieram essas ideias, do Céu e do Inferno. O seu corpo morre, a sua alma é recompensada ou castigada.

Bart Ehrman

Quero falar de pontos de vista de agora e de pontos de vista da Antiguidade, então e agora. Como Karin acabou de salientar, existe ainda na América uma opinião generalizada de que quando uma pessoa morre, ela vai para o Céu. Sete em cada dez pessoas continuam a pensar assim hoje em dia, a maioria delas cristã, principalmente porque é um país cristão, mas uma maioria, se até meter os ateus e os agnósticos, sete em cada dez, enquanto seis em cada dez continuam a acreditar num Inferno literal como lugar de castigo para a sua alma, se não estiver entre os justos. O surpreendente é que estas visões do Céu e do Inferno não se encontram em parte alguma no Antigo Testamento.

O Antigo Testamento não diz nada sobre uma pessoa morrer e a sua alma ser recompensada ou castigada. Ainda mais impressionante, o Jesus histórico também não ensina a ideia do Céu e do Inferno, a ideia de que quando morremos, o nosso corpo morre, deixa de existir, e a nossa alma vai para um lugar ou outro para ser recompensada ou castigada para sempre. Se for esse o caso, se não for o ensinamento de Jesus e não for o se encontra no Antigo Testamento, de onde vêm estas ideias?

Escrevi recentemente um livro chamado "Heaven and Hell, an History of the Afterlife" (Céu e Inferno: uma História do Além). Foi publicado há apenas alguns meses e trata desta questão com alguma extensão. É escrito para uma audiência geral. Não é um destes livros só para estudiosos. É para um vasto público de leitores e tenta explicar de onde vieram as ideias do Céu e do Inferno. Vou agora resumir muitos dos pontos principais deste livro.

Homero

Bart Ehrman

Na minha conversa convosco, vou começar com o relato mais antigo da tradição ocidental, de qualquer tipo, de uma pessoa viva que vai ver como é a vida após a morte. Acontece que este relato se encontra no nosso texto mais antigo da tradição ocidental, a história mais antiga, os escritos de Homero, a sua Odisseia. Isto, a propósito, é uma ilustração de um acontecimento que está a acontecer no livro 11 da Odisseia, aquele de que vou falar durante alguns minutos. Aqui é Ulisses (Odisseu), que está a matar um animal para invocar os espíritos dos mortos que aqui estão, incluindo um profeta chamado Tirésias. Ulisses está no meio de uma viagem de dez anos para casa, desde a Guerra de Tróia. Eles ganharam, os gregos ganharam a Guerra de Tróia. Está a regressar a casa e é-lhe dito que precisa de ir visitar este profeta Tirésias, que morreu. Isto significa que ele tem de ir ao Hades para o visitar, para aprender como vai regressar a casa, e assim Ulisses segue as suas instruções e vai lá.

Ele recebe as suas instruções sobre como regressar a casa mas, para além disso, encontra lá muitas pessoas, e nesses encontros aprendemos muito sobre o que Homero, e provavelmente muitas outras pessoas no tempo de Homero, na Grécia, pensavam como era a vida no além. O pano de fundo é que Ulisses vai encontrar-se com estas pessoas e o que lá encontra é o que se pode chamar o triste reino dos mortos. As pessoas que habitam no Hades, como é chamado, são consideradas sombras. Têm toda a força, vigor, vida e inteligência da nossa sombra, quando estamos ao sol e vemos a nossa sombra. É assim que vai ser quando morrermos. Isto é verdade para todos, de acordo com a Odisseia. Todos, quer sejam justos ou iníquos, quer sejam bons ou maus, quer sejam corajosos ou cobardes, quer sejam ricos ou pobres, quer sejam famosos ou desconhecidos, não importa. Todos acabam no mesmo lugar. Esta vida é a única coisa que importa, porque esta vida é o único tempo em que estamos vivos. Quando morremos, estamos mortos. E assim, não é realmente que haja vida após a morte nesta grande visão grega antiga de Homero. Não há vida após a morte, há realmente apenas morte após a morte.

Homero estava provavelmente a escrever por volta do século VIII AEC, é assim a época dos primeiros escritos da Bíblia hebraica também, e tanto quanto sabemos esta era a opinião comum na Grécia da sua época: que todos morrem e estão simplesmente mortos. Ulisses descobre isto de algumas formas bastante notáveis, inclusive quando encontra a sua própria mãe, que ele não sabia que tinha morrido. Ela tinha morrido, na verdade, porque estava doente de saudades dele. Têm uma conversa. Na sua dor desesperada, ele vai ter com a sua mãe para a abraçar. Ele tenta abraçá-la três vezes e os seus braços passam por ela, porque ela não tem substância. Estas sombras não têm substância, não têm força, não têm poder e, de facto, não têm memória. Portanto, a lição aqui também é bastante clara: não queremos morrer, queremos ficar, viver o máximo de tempo possível, porque depois disto, para todos nós, é só a existência de uma sombra no Hades.

Isto, claro, levanta um problema que muitos pensadores tinham, na Grécia antiga e noutros lugares: e a justiça? Se houver deuses no mundo, posso ser uma boa pessoa e talvez até sofrer por isso e morrer, e depois não sou recompensado, e o meu vizinho do lado que é um verdadeiro traste, é péssimo, e vai receber o mesmo tratamento. Isso não me parece correcto. Eventualmente, os gregos começaram a pensar o contrário. Começaram a acreditar num sistema de justiça após a morte. Passou-se a pensar numa ideia de recompensas e castigos após a morte.

Virgílio

Virgílio é um autor romano que escreve séculos depois. Ele está a escrever no primeiro século AEC, portanto 700 anos após Homero. Virgílio foi altamente influenciado pelo pensamento grego, porque os romanos foram altamente influenciados pelo pensamento grego, especialmente, no caso de Virgílio, o pensamento de Platão. Platão, nos seus diálogos, fala sobre, na vida após a morte, as pessoas serem recompensadas ou punidas, dependendo da forma como vivem.

Virgilio

Na grande epopeia de Virgílio, a Eneida, que é modelada em Homero, o seu herói Eneias também vai ao submundo ver como é a vida após a morte. Eneias está numa longa viagem após a Guerra de Tróia. Ele é troiano, perdeu a guerra e por isso é expulso da cidade e está a vaguear para fundar o povo que mais tarde se tornará os Romanos. Virgílio está a escrever um relato sobre a fundação do povo romano, e está a modelar o seu relato sobre Homero. Então Eneias também vai ao submundo e é muito semelhante em alguns aspectos. É guiado por conselhos divinos. Ele vai lá abaixo, vê muitas pessoas, incluindo o seu pai. Ele tenta abraçar o seu pai três vezes e o seu braço passa por ele. Portanto, este é um relato muito semelhante, mas com uma diferença chave: no relato de Virgílio há recompensas e punições. Nem toda a gente é uma sombra. As pessoas têm algum tipo de existência física. Algumas pessoas são enviadas para o Tártaro, que é um lugar de tormento horrível, para sempre. Outras pessoas que são justas vão para o Elísio (os Campos Elísios), onde são recompensadas para sempre. Aqui temos um sistema de recompensas e castigos, dependendo de como se vive a própria vida. Isto é captado por Platão e pelos gregos, e eu vou acabar por argumentar que foi o que fez com que passasse para o cristianismo.

A tradição hebraica

O cristianismo, claro, não surgiu diretamente de Homero e Virgílio. Saiu da tradição israelita. Em particular, saiu da Bíblia hebraica. Há debates sobre se foi ou não influenciado pelo pensamento grego. São debates que, para os nossos propósitos aqui, não importam muito. É interessante, porém, ver que na Bíblia hebraica há uma visão da morte que é semelhante à de Homero. O relato bíblico hebraico começou a ser escrito, aproximadamente, ao mesmo tempo que o de Homero e, nas partes mais antigas da Bíblia hebraica, quando uma pessoa morre, ela está morta. Não há nada depois da morte para a maior parte da Bíblia hebraica. Quando se está morto, é o fim da história. Já não se tem corpo, já não se tem alma, já não se existe. Está-se simplesmente morto. Não se tem memória e, de facto, nem sequer se pode adorar a Deus e Deus não se lembra de nós. Não é um retrato feliz, o que eu pintei, sobre o que acontece quando morremos, na maior parte da Bíblia hebraica. Mais uma vez, não é vida após a morte, é morte após a morte. Os hebreus tinham um entendimento da pessoa humana muito diferente dos gregos. Antes de Platão, mas especialmente nas obras de Platão, a ideia era que um ser humano é constituído por duas substâncias, um corpo e uma alma. Quando o corpo de uma pessoa morre, a alma continua a viver, segundo Platão. A alma é imortal, mesmo que o corpo morra. Essa é a tradição grega. A tradição hebraica é muito diferente.

Hebraico

Na tradição hebraica, uma pessoa não é constituída por duas coisas, corpo e alma. Uma pessoa é uma coisa, um corpo vivo. Quando Deus cria Adão, no livro do Génesis, ele faz do pó uma forma de ser humano e isso é tudo o que Adão é. No início ele é pó, ele é um modelo, mas depois Deus sopra nele. Adão ganha vida. A vida é trazida pelo sopro. O sopro no pensamento hebraico é muito semelhante ao que pensamos como a alma. Quando a respiração deixa o corpo, a pessoa morre. O corpo está morto, mas a respiração não continua a existir. Esta é também a nossa opinião. Quando se deixa de respirar, quando se morre, a respiração não vai para lado nenhum. É isso que a alma é para os antigos hebreus. Não há alma que exista após a morte, a alma é simplesmente a coisa que torna o corpo vivo. Assim, quando se morre, a respiração pára, não há alma, está-se morto.

E este lugar na Bíblia hebraica, por vezes chamado Sheol? (Por vezes diz-se Seol, em português.) É difícil saber o significado da própria palavra. Há várias teorias sobre isso. A palavra aparece principalmente em livros poéticos como nos Salmos, onde os autores ficam muito aliviados quando são libertados do Sheol, o que em Salmos significa que ainda não morreram e que Deus os impediu de morrer. As pessoas não querem ir para o Sheol, porque no Sheol só há morte. Mais uma vez, não há adoração a Deus. Deus não se lembra de quem está no Sheol. Não há nada a fazer lá. Mas o Sheol é provavelmente, não um lugar onde as pessoas se reúnem para serem, como o Hades na tradição grega, muitas sombras a juntarem-se sem nada para fazer, a não ser o tédio eterno. Sheol na Bíblia hebraica parece ser um sinónimo da sepultura ou da cova. De facto, é usada como sinónimo de sepultura, fossa e morte. O Sheol é simplesmente onde os restos mortais são atirados quando se morre. Já não se existe.

Mais uma vez, isto levanta uma questão muito grande sobre justiça. Se Deus está ao comando deste mundo, se Deus criou este mundo, como é o caso na Bíblia hebraica, se Deus criou este mundo e nos chamou para sermos o seu povo, como pensavam os judeus, e então eu sigo os ditames de Deus encontrados na lei e sou uma pessoa justa, mas tenho uma vida horrível de qualquer maneira, sou miserável, estou sempre doente e oprimido, e depois morro e é o fim da história. Não, isso não pode ser verdade. E, por outro lado, esta pessoa aqui é a pessoa mais perversa, é este tirano que assassina pessoas e se torna fabulosamente rico, não quer saber dos direitos e da pobreza, apenas se preocupa consigo próprio, e quer dizer que vai morrer e safar-se com isso! Não, isso não pode estar bem. Em praticamente toda a Bíblia hebraica, é esse o caso. Não começa a mudar até ao fim, com o livro final a ser escrito, que é o livro de Daniel.

Daniel

Daniel

O livro de Daniel não é o último livro da Bíblia, mas é o último dos livros da Bíblia hebraica a ser escrito. Começa a abraçar uma nova forma de pensamento judaico que os estudiosos têm chamado de apocalipticismo O apocalipticismo baseia-se na palavra Apocalipse, que significa uma revelação ou um desvendar. O pensamento apocalíptico judeu é que Deus lhes revelou os segredos que poderiam fazer sentido desta existência miserável que temos de viver aqui na Terra. Os pensadores apocalípticos, a começar por Daniel, tinham vários pontos de vista que mais tarde se tornaram extremamente importantes para o desenvolvimento do cristianismo. Por um lado, estavam insatisfeitos com a ideia do Sheol, de que se morre e é o fim da história, de que não há justiça. Que isso não pode estar certo.

Estes pensadores apocalípticos ficavam especialmente impressionados com o facto de que as pessoas que eram boas estavam a sofrer no mundo. Quer dizer, faria sentido que, se Deus estivesse no controlo e tu estivesses do lado de Deus e soubesses o que Deus quer, então Deus recompensar-te-ia. Mas na verdade, quando olhas à tua volta, não parece ser assim. As pessoas justas parecem ser as que sofrem e as pessoas más são as que estão no poder. Quem tem a riqueza e o poder, são eles. As pessoas boas que andam a ajudar toda a gente, geralmente não têm. O que é isto? Bem, os pensadores apocalípticos, começando por Daniel — por isso estamos a falar aqui de 200 anos antes do ministério de Jesus — começaram a pensar que existem forças do mal que controlam este mundo e tornam a vida miserável para todos. Forças do mal foram desencadeadas neste mundo, são contra Deus e são contra o povo de Deus, e é por isso que os justos sofrem.

O Diabo é inventado neste momento. A ideia é que Deus tem um inimigo pessoal, o Diabo, que tem demónios, que existem outras forças malignas, que foram libertadas e estão a tornar a vida miserável e isto só vai piorar. Mas Deus está ao comando deste mundo. Em última análise, vai intervir para redimir este mundo. Deus vai intervir na história, destruir as forças do mal e trazer um bom reino. O reino em que vivemos agora é desgraçado e miserável, é dirigido por pessoas corruptas que estão a fazer o povo de Deus sofrer, mas Deus já aturou o suficiente e vai intervir. Vai acabar por resolver o problema. Deus vai trazer um salvador do Céu, ou possivelmente um Messias aqui na Terra, que vai resolver este problema das forças do mal. Vem aí o Dia do Juízo Final. No Dia do Juízo, Deus vai destruir tudo o que se lhe opuser e vai estabelecer um bom reino na Terra, um reino de Deus. Não somos nós quem vai fazer do mundo um lugar melhor. Estas forças do mal são mais poderosas do que nós. Não podemos controlá-las. Só Deus pode resolver o problema.

Ele vai resolvê-lo através de um acto cataclísmico em que destrói tudo o que se lhe opõe. Isto vai aplicar-se, não só àqueles que estão vivos quando ele chegar. Vai-se aplicar àqueles que já morreram. Vai haver uma futura ressurreição do corpo, segundo os apocalípticos judeus.

É importante compreender o que é este ensinamento. Estes são judeus que não acreditam que haja uma distinção entre corpo e alma. Eles não acreditam que a alma vive após a morte. Então, como pode haver uma vida após a morte? A vida após a morte para estas pessoas é que o corpo regressa à vida. A respiração regressa ao corpo. Todos aqueles que morreram vão ressuscitar dos mortos, quando chegar o Dia do Juízo Final. Aqueles que se colocaram do lado de Deus serão trazidos para este reino eterno, aqui na Terra. Será aqui, na Terra. Não se trata da sua alma subir ao Céu. Não há vida no Céu. Ninguém sobe para o Céu para viver para sempre. O Céu é onde Deus vive. As pessoas vivem aqui. Deus criou este mundo, pois criou um paraíso aqui na Terra e vai trazer o paraíso de volta. As pessoas que tomaram partido por ele vão entrar nesse paraíso. Vão viver no corpo para sempre. Os corpos serão corpos perfeitos, nunca morrerão, nunca adoecerão, nunca se magoarão, nunca sofrerão, e será uma existência utópica aqui na Terra para todos. E quanto àqueles que se opõem a Deus? Vão ressuscitar dos mortos também, mas não vão entrar no reino. Deus vai mostrar-lhes o erro dos seus caminhos e julgá-los, exterminando-os. Haverá uma aniquilação total dos pecadores no fim dos tempos e esse fim dos tempos está a chegar muito em breve. Está mesmo ao virar da esquina.

Jesus

Estes pensadores apocalípticos estavam a tentar encorajar aqueles que estão a sofrer por serem justos, dizendo-lhes: Esperem um pouco, porque em breve Deus vai intervir e serão justificados, e o paraíso de Deus vai chegar, e isso vai acontecer muito em breve. Esse é um pensamento apocalíptico judeu. Os estudiosos, há mais de um século, reconhecem que Jesus de Nazaré era um apocalíptico. Esta tem sido a opinião de estudiosos de toda a Europa e América do Norte, desde pelo menos os dias de Albert Schweitzer.

Albert Schweitzer, em 1906, escreveu um livro muito importante, A Busca do Jesus Histórico (no original "Von Reimarus zu Wrede: eine Geschichte der Leben-Jesu-Forschung"), onde defendeu que, após o Iluminismo e até à sua época, a maioria dos estudiosos sobre Jesus não compreendia quem ele realmente era. Ele era de facto um apocalíptico, que pensava que o reino de Deus estava prestes a chegar e que as pessoas precisavam de se arrepender e preparar-se para ele, e se não o fizessem, seriam julgadas.

Jesus

Será que Jesus acreditava no Céu e no Inferno? É muito difícil saber, de facto, o que Jesus mesmo ensinou. Este é um tema complicado. Muitas pessoas pensam que, claro, para saber o que Jesus ensinou basta ler Mateus, Marcos, Lucas e João. Temos quatro Evangelhos, e por isso lemo-los e eles dizem-nos o que ensinou. Os estudiosos, desde o Iluminismo, aperceberam-se de que não é assim tão simples. Estes Evangelhos que temos, Mateus, Marcos, Lucas e João, na verdade não afirmam ter sido escritos por pessoas chamadas Mateus, Marcos, Lucas e João. A ideia de que Mateus e João eram dois dos discípulos de Jesus, que Marcos era o companheiro de Pedro, o discípulo, e que Lucas era o companheiro do apóstolo Paulo, essas ideias só começam a aparecer no cristianismo cerca de cem anos depois destes livros terem sido escritos. Os estudiosos datam quase universalmente estes livros de 40 a 60 anos após a morte de Jesus.

O primeiro Evangelho foi Marcos. Foi provavelmente escrito por volta do ano 70. Isso foi 40 anos mais tarde. Está escrito em grego. Jesus e os seus seguidores falavam aramaico. Não é escrito por alguém que viva na pátria judaica, Israel, é alguém que vive fora de Israel, alguém que parece nem sequer ser judeu, que escreve numa língua diferente de Jesus, que certamente não conhecia Jesus, que está a escrever o que ouviu sobre Jesus a partir de histórias que têm estado em circulação oral durante décadas. Este é um grande problema, e sabemos que temos um problema, quando realmente olhamos para os Evangelhos, pegamos numa história num Evangelho e comparamo-la cuidadosamente com a história de outro Evangelho, e começamos a aperceber-nos que são diferentes. E em muitas das histórias, elas são diferentes de formas que não podem ser reconciliadas.

Este é um grande problema, e por isso há estudiosos que passam toda a sua vida a tentar restabelecer os ensinamentos do Jesus histórico. Obviamente, não vou entrar nos pormenores de tudo isso. Vou falar, no entanto, de um dos ensinamentos mais claros nos lábios de Jesus, que praticamente todos os estudiosos concordam — devido à sua avaliação crítica das nossas fontes — que Jesus ensinou, que é que o reino de Deus está a chegar. Este é o ensinamento dominante de Jesus nos nossos três primeiros Evangelhos, Mateus, Marcos e Lucas. Mateus, Marcos e Lucas concordam em muitas coisas sobre Jesus. Eles também discordam em muitas coisas, mas concordam muito entre si e João é muito diferente. O Evangelho de João é escrito muito mais tarde. É um Evangelho muito diferente. Em muitos aspectos é o Evangelho favorito de muitas pessoas, mas é tão tardio, com tantas diferenças, que os estudiosos se perguntam se é realmente muito preciso ou não, quando se trata dos ensinamentos de Jesus.

Mateus, Marcos e Lucas são bastante consistentes em que Jesus ensinou sobre o Reino vindouro de Deus. O primeiro relato registado de Jesus está no Evangelho, mais antigo, de Marcos, Marcos capítulo 1 versículo 16, onde Jesus diz que o tempo foi cumprido, o reino de Deus está próximo, arrependei-vos e acreditai nas boas novas. O que é que isto significa? Esta é uma imagem apocalíptica. O tempo foi cumprido. Este mundo está numa linha do tempo. É como uma linha do tempo horizontal, onde se tem tanto tempo e depois vem uma quebra cataclísmica, quando Deus intervém neste mundo em que vivemos agora, nesta era. Agora, nesta linha do tempo, este mundo é mau, controlado pelas forças do mal, mas vai haver uma intervenção. A linha do tempo vai continuar e tudo será bom, será o reino de Deus, o reino que Deus traz. Quando Jesus fala do reino de Deus, não está a falar do lugar para onde vai a alma quando morre. Jesus era um judeu. Ele não acreditava que as almas vivessem após a morte do corpo. A ideia do reino de Deus é que é um reino real, é um reino aqui na Terra, e Deus será o responsável por ele. Será um reino que será uma existência utópica, onde não haverá mais miséria, sofrimento ou maldade de qualquer espécie. Aqueles que se colocaram do lado de Deus entrarão nesse reino.

A maior parte do ensino de Jesus é sobre como entrar nesse reino. Viver para os outros. A lei de Deus diz que se deve amar o próximo como a si mesmo e Jesus pensa que Deus está a falar a sério. Se fizeres isso, se amares realmente os outros, tomando conta dos outros tanto como tomas conta de ti próprio, entrarás no reino. Se te alimentas a ti próprio, deves alimentar os outros, se te vestes a ti próprio, deves vestir os outros, se tomas conta de todas as tuas necessidades, deves tomar conta das necessidades dos outros. Deves cuidar dos sem abrigo, dos famintos, dos estrangeiros e de todos aqueles que sofrem. Este é o núcleo do ensinamento de Jesus: que há este reino de Deus a chegar e que tens de te preparar para ele. Aqueles que não entram no Reino de Deus, boa sorte para eles. Bem, eles não vão ter sorte nenhuma. Jesus ensinou que vão ser atirados para a Geena.

O que é a Geena? (Gehenna em hebraico.) Um problema na compreensão dos ensinamentos de Jesus sobre o reino de Deus e a Geena é que as traduções da Bíblia inglesa podem confundir-vos. A palavra Geena deriva realmente do hebraico. Não é uma palavra grega, embora o Novo Testamento esteja escrito em grego, mas é uma palavra hebraica, porque Geena é um lugar, e é mencionada pela primeira vez na Bíblia hebraica. O problema com as traduções da Bíblia em inglês é que algumas delas traduzem a palavra nos lábios de Jesus com a palavra Inferno. Isso é tão errado! Quando pensamos no Inferno, pensamos no lugar para onde a nossa alma vai quando o nosso corpo morre. Ela sobe ao Céu ou desce ao Inferno, o lugar do sofrimento. A Geena não é o lugar do tormento eterno nos lábios de Jesus. Geena, no Antigo Testamento, é um vale fora de Jerusalém que era entendido como o lugar mais abandonado de Deus na Terra, porque Geena era este vale onde alguns israelitas praticavam o sacrifício infantil, o pecado mais hediondo possível contra Deus e a humanidade. Foi amaldiçoado no Antigo Testamento, foi amaldiçoado no tempo de Jesus, e Jesus diz às pessoas que se desobedecerem a Deus, se fizerem coisas que Deus não quer, correm o risco de ser atirados para a Geena. O que Ele quer dizer é que eles não terão direitos de enterro adequados e os seus cadáveres serão desonrados e envergonhados, e atirados para o lugar mais desprezível da Terra. Os povos antigos quase universalmente queriam desesperadamente ritos de enterro adequados. Isto é verdade nos círculos gregos, nos círculos romanos e nos círculos judaicos, e em todos os círculos que conhecemos. Jesus está a dizer que se fores expulso do reino de Deus, correrás de facto o risco de ser atirado para este lugar desprezível, a Geena, que é onde o teu cadáver permanecerá. Não entrarás no reino de Deus, porque não serás ressuscitado para a vida eterna.

Os Evangelhos

E assim, o que é que Jesus ensina sobre o Céu e o Inferno em particular? Claro que o Céu para Jesus não é o lugar para onde vai a tua alma, é o reino de Deus, e o Inferno, Jesus não ensinou que havia um lugar de tormento eterno. Não há Inferno para Jesus, o que há é destruição. Jesus ensinou que aqueles que não entrassem no reino de Deus seriam destruídos, eles seriam ressuscitados dos mortos, eles perceberiam — Oh meu Deus, o que eu perdi! — e então seriam aniquilados. Este é o ensinamento consistente de Jesus ao longo dos Evangelhos, pelo menos nas afirmações que temos a certeza de que Jesus disse.

Mateus7

Deixem-me dar-vos alguns exemplos. As pessoas não se apercebem disto porque apenas assumem que Jesus está a falar do Inferno como um lugar de tormento, mas quando se olha realmente para o que ele diz, ele não o disse. Mateus 7: "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à destruição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem." É possível ter vida eterna. Qual é o oposto à vida eterna? Não é o tormento eterno, é a destruição. Ou a parábola do joio, seis capítulos mais tarde: Jesus conta esta parábola, de que este trigo está cheio de joio. Todo este joio cresce e acabam por juntá-lo e é isto que acontece: Pegam no joio e atiram-no para a fornalha para o queimar, e depois Jesus tira uma lição: Tal como o joio é recolhido e consumido pelo fogo, assim será no final da idade em que o filho do homem enviará os seus anjos. Retirarão do seu reino todos aqueles que incitam as pessoas a pecar e que agem sem lei, e lançá-los-ão na fornalha de fogo. O que acontece aos pecadores no fim dos tempos? Eles são destruídos pelo fogo. Quando se atira o joio ao fogo, ele não existe para sempre. É queimado, é destruído, não existe. Isso é o que vai acontecer aos pecadores: serão destruídos.

Os ensinamentos de Jesus sobre o que acontece no Julgamento encontram-se mais claramente na sua parábola das ovelhas e dos bodes, que se encontra no Evangelho de Mateus, capítulo 25. É a cena do Juízo Final. Todos estão em frente do juiz da Terra. Ele veio para julgar a Terra, para destruir as forças do mal e todas as nações da Terra estão reunidas à sua frente e este, a que Jesus chama filho do homem, tem um grupo de pessoas à sua direita. Não são apenas judeus, mas todas as nações da Terra. Algumas estão à sua direita, outras estão à sua esquerda. Às da direita ele chama ovelhas e às da esquerda chama bodes. Assim, este rei que está a julgar acolhe aqueles que estão à sua direita, as ovelhas, e diz-lhes: Sejam bem-vindos, vocês devem vir para o reino do meu pai, porque eu tinha fome e vós alimentastes-me. Eu tinha sede e vós destes-me de beber. Eu estava nu e vós vestistes-me. Eu estava na prisão e vós visitastes-me. E, por isso, vinde, sois abençoados pelo meu pai. Herdai o reino que vos foi preparado desde o princípio do mundo. Estas pessoas entram no reino de Deus e estão confusas porque dizem: Mas como é que nós fizemos estas coisas? Dizem que vos alimentámos quando tínheis fome e vos demos água quando tínheis sede. Nunca vos conhecemos, não sabemos quem sois! E ele diz: Na medida em que o fizestes ao menor destes meus irmãos e irmãs, fizeste-lo a mim. Se ajudais os necessitados, estais do lado de Deus, quer sejais judeu ou não, e entrareis no reino. Depois vira-se para as pessoas à sua esquerda, os bodes, e diz: Ide, vós que sois amaldiçoados, ide para o fogo eterno, preparados para o Diabo e seus anjos! Porque tive fome e não me alimentastes, tive sede, não me destes de beber, estava nu, não me vestistes, estava na prisão, não me visitastes, e por isso ide para o fogo eterno. Dizem, mas o que quereis dizer, nós não vos alimentámos, nunca vos vimos antes. Jesus: Não o fizestes aos necessitados, não o fizestes a mim. E conclui dizendo: estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna.

Ovelhas e bodes

Agora, esta é uma daquelas passagens que lemos e parece mesmo que ele está a falar do Céu e do Inferno. Quer dizer, uns são recompensados no reino celestial e outros são enviados para o fogo eterno, e isso significa Céu e Inferno, certo? Agora olhemos atentamente para as suas palavras finais: uns vão para o castigo eterno, outros vão para a vida eterna. Assim, os perversos, o castigo eterno, os justos a vida eterna. Estas são declarações correspondentes. Tendes os ímpios, os bodes, por um lado; tendes as ovelhas, por outro. Ambos vão para um castigo ou recompensa eterna, mas qual é a recompensa? A recompensa é a vida. Bem, se estes são opostos, justos contra ímpios, qual é o oposto da vida? Não é tortura! O oposto da vida é a morte. Estas pessoas são enviadas para o fogo para serem queimadas e destruídas. Jesus nunca fala de tormento eterno, fala de fogo eterno, mas o fogo é eterno. Sim, o fogo é eterno, mas as pessoas não vivem no fogo eternamente. Quando se queima alguém na fogueira, o fogo continua após a morte da pessoa, mas a pessoa não continua em agonia três semanas mais tarde ou três horas depois de estar morta. Para Jesus é um castigo eterno: é um castigo eterno porque é o castigo final. É a pena de morte e é eterna, porque nunca acaba. Nunca será revertida.

E assim Jesus ensinou que haverá um reino de Deus aqui na Terra, para aqueles que são ressuscitados no corpo, que entrarão numa existência utópica, e haverá destruição para aqueles que não estão do lado de Deus. Jesus não ensinou que a sua alma iria para o Céu ou para o Inferno. Então de onde é que o Céu e o Inferno vieram? Jesus, tal como outros apocalípticos, pensou que o fim viria em breve. Jesus disse aos seus seguidores: "Dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte sem que vejam chegado o reino de Deus com poder." Este reino, este paraíso que está a chegar, vai acontecer antes que os discípulos morram todos. Este é Marcos capítulo 9, versículo 1. Marcos capítulo 13, versículo 30: Jesus diz: "Eu vos asseguro que não passará esta geração até que todas estas coisas aconteçam." Os seus discípulos perguntaram-lhe quando é que o fim do mundo vai chegar. Ele descreve o Dia do Julgamento e depois diz que esta geração não falecerá antes de tudo isto ter acontecido.

Os cristãos

Não aconteceu. Jesus morreu. Os seus discípulos morreram. Anos passaram, décadas passaram. O fim não chegou e as pessoas acabaram por ter de reinterpretar os ensinamentos de Jesus. Jesus tinha concordado com os apocalípticos sobre este dualismo horizontal, um dualismo entre esta era maligna e a era vindoura. Um dualismo, claro, duas componentes fundamentais da realidade — e é horizontal. Tudo está numa espécie de linha do tempo. Esta era, a era vindoura, esta era vai terminar com este julgamento cataclísmico, vai acontecer muito em breve. O que acaba por suceder é que não acontece, e as pessoas começaram a reinterpretar o dualismo. O que acabam por fazer é inverter o dualismo no seu eixo, de modo que já não é um dualismo horizontal, mas sim um dualismo vertical. Já não se trata de uma questão de tempo. Agora esta era então, a era vindoura, o reino de Deus, é sobre o espaço, é sobre cima e baixo. Já não é o reino dos céus aqui na Terra, é o reino dos céus no céu, onde Deus habita. Já não é uma destruição aqui na Terra, é a destruição eterna abaixo.

Uma coisa que facilitou esta mudança, de um dualismo horizontal do corpo ressuscitado dos mortos para a vida eterna no reino, para um dualismo vertical da alma a viver no Céu ou Inferno, é que a maioria das pessoas que os primeiros cristãos converteram a acreditar em Jesus, não eram elas próprias judias, a começar pelo apóstolo Paulo. O vasto número de pessoas que se converteram eram gentios. Vinham de origens pagãs. Vinham do pensamento grego. O modo de pensar grego era dominante em todo o Império Romano. As formas de pensamento gregas remontam pelo menos a Platão, que ensinou que a alma é imortal. O corpo morre mas a alma continua a viver.

Estas pessoas que se converteram trouxeram naturalmente consigo as suas ideias para o cristianismo. Não eram judeus. Pensavam que há uma diferença entre corpo e alma e assim começaram a pensar, não como apocalípticos judeus, mas mais como Platão, onde se morre e a alma vai para um lugar ou para outro. Mas agora é diferente de Platão, porque a alma vai para um lugar ou outro, dependendo de ter fé em Jesus e ser uma boa pessoa, praticar boas acções. Se sim, vais subir; se não, vais descer. Mas Platão ensinou que a alma é imortal. Não pode morrer. Isso significa que se a tua alma subir, vai lá ficar para sempre, porque não pode morrer. Mas a alma do ímpio também é eterna, o que significa que também não pode ser destruída, não pode morrer, e por isso agora a ideia é que será castigada para sempre. E é aí que se começa a obter o formato eterno.

Origem

Uma pequena imagem aqui para beneficiar a sua imaginação sobre o que isso pode implicar. Assim, temos o nascimento do Céu e do Inferno, como lugares onde a sua alma vai após a sua morte. Esta é uma amálgama bastante desconfortável entre os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos de Platão. Jesus, que ensinou que Deus no final iria fazer justiça, e Platão, que ensinou que a alma é imortal e que sobreviverá ao corpo. Combina-se estes dois e obtém-se o Céu e o Inferno. Esta mudança aconteceu algumas décadas após a morte de Jesus, enquanto as pessoas naquele período contavam as suas histórias sobre Jesus e se lembravam das coisas que ele dizia e ensinava. Contaram naturalmente o que pensavam que Jesus ensinou com base no que entendiam sobre Jesus. Nesta altura, o que entendiam sobre Jesus era que ele pensava que havia um Céu e um Inferno e por isso alguns dos ensinamentos de Jesus, nos nossos últimos Evangelhos deste período, parecem abraçar a ideia do Céu e do Inferno, mas é porque estas não são as coisas que Jesus realmente ensinou, são coisas que são colocadas nos seus lábios por narradores posteriores.

A tarefa do estudioso é descobrir que coisas Jesus realmente ensinou, e que coisas foram colocadas mais tarde nos seus lábios. E assim alguns de vós, enquanto eu dou esta palestra, estão a passar o vosso ficheiro na cabeça. Estão a lembrar estes versículos na Bíblia que parecem apoiar a ideia de um Céu e Inferno. Há um par deles, tal como a parábola de Lázaro e o homem rico, onde parece que este homem rico morre, vai para o Inferno e está a arder. O homem pobre vai para o Céu. É quase de certeza algo que Jesus, ele próprio, não ensinou. Não tenho tempo para o provar, embora, se alguém tiver uma pergunta sobre o assunto, terei o prazer de explicar porquê, mas falo disto no meu livro e tento explicar porque é quase certo que Jesus tinha a visão judaica tradicional do reino dos céus e da destruição dos pecadores, no fim dos tempos. Este ensinamento de Jesus é muito diferente do ensinamento que apareceu no cristianismo. Isso será uma surpresa para muitos cristãos de hoje, mas na realidade faz parte de um quadro mais amplo. Muitos dos registos de Jesus do Novo Testamento são, de facto, elaborações posteriores das coisas que Jesus ensinou. Às vezes são exagero, às vezes são coisas colocadas nos seus lábios, às vezes coisas que ele realmente não fez e que são descritas nestes textos. O ensino do Céu e do Inferno é uma dessas coisas. O Cristianismo original não tinha vida no Céu e mentira e tormento no Inferno, mas tinha um reino de Deus que estava prestes a chegar, que seria um paraíso aqui na Terra, e para aqueles que não conseguiram cumprir as exigências de Deus, destruição. Em nenhum lugar dos ensinamentos de Jesus ou do Antigo Testamento existe qualquer ensinamento de tormento eterno.

Perguntas e respostas

Karin PeterMuito obrigada, professor, por isto. Temos, como pode imaginar, várias perguntas, por isso quis dar-lhe uma oportunidade de responder. Mas primeiro, responda a isto: Esta foi a nossa primeira pergunta que chegou no início da sua palestra e Natalie Carden perguntou, como leiga, que livro recomendaria que ela lesse primeiro, dos que escreveu.

Bart Ehrman — Não, é uma boa pergunta. Assim, o meu livro mais popular, aquele que mais vendeu, sobre o qual as pessoas mais falam comigo, é aquele que se chama "Misquoting Jesus". É um livro que trata de como os escribas cristãos estavam a copiar o seu Novo Testamento, mudando-o em certos sítios. Assim, há sítios onde não sabemos o que os autores originais na realidade escreveram. Provavelmente o meu livro favorito a escrever para uma audiência geral foi este livro do Céu e do Inferno que acabou de sair. É realmente, para mim, infinitamente fascinante escrever sobre ele. Na maioria das vezes, quando escrevo um livro para uma audiência geral (isto é verdade para a maioria dos estudiosos que conhecemos), é como um físico que escreve um livro para uma audiência geral, ele não está a aprender nada quando escreve o livro, porque é um físico, isto é, o que ele faz na vida. Mas aqui, neste livro do Céu e Inferno, aprendi realmente alguma coisa. Cheguei a visões diferentes sobre coisas que não tinha antes. O meu livro popular mais sofisticado, aquele de que, penso, mais me orgulho é realmente "The Triumph of Christianity" (O Triunfo do Cristianismo). Pediu um e eu dei-lhe três. Lá está, Natalie, pode escolher qualquer dos três.

Karin PeterJordan Rude faz esta pergunta e é sobre o Apocalipse, sobre a passagem do Apocalipse relativa a uma "guerra no Céu". Creio que a maioria dos cristãos a interpretam como uma história de origem de Satanás e dos anjos caídos. A teologia mórmon vai mais longe, afirmando que esta guerra foi uma batalha pré-mortal entre Jesus e Satanás sobre agência e que todos os nascidos na Terra estavam lá como um espírito. Pode explicar-nos o que significa esta passagem para os estudiosos da Bíblia e como uma visão em evolução do Céu e do Inferno levou à reinterpretação cristã moderna e possivelmenteo mórmon desta passagem?

Bart Ehrman — Não posso falar sobre a justificação da visão mórmon, porque não estou familiarizado com os entendimentos mórmons do livro do Apocalipse. Direi que o livro do Apocalipse tem um verso realmente importante no início, quando Jesus aparece a João e o instrui no final do capítulo, que ele deve escrever as coisas que foram, as coisas que são e as coisas que estão por vir. O capítulo um descreve o que já aconteceu, a visão que João teve de Jesus; os capítulos dois e três descrevem as coisas que são. O autor escreve sete cartas às sete igrejas da Ásia Menor e descreve a situação nas igrejas. Agora, a começar pelo capítulo quatro, o resto do livro é sobre coisas que estão prestes a acontecer, e por isso são descrições do futuro. Nada vou dizer sobre a interpretação mórmon em particular, mas vamos dizer que os estudiosos da Bíblia entendem geralmente que esta é uma espécie de batalha cósmica, que é mais ou menos o que eu estava a dizer. O livro do Apocalipse. Apocalipse significa revelação. O livro é chamado Apocalipse ou Revelação de João e é normalmente entendido pelos estudiosos bíblicos como uma espécie de visão do triunfo de Deus sobre as forças do mal e esta batalha no Céu é normalmente entendida como um dos elementos desta eventual derrota dos poderes do mal no mundo.

Karin PeterObrigada, obrigada. Assim, mencionou Lucas 16. Na passagem ali, sobre o homem rico e Lázaro. Tivemos de facto uma pergunta sobre isso. Como interpretam os estudiosos ou como interpreta a parábola de Jesus sobre o homem rico e Lázaro em Lucas 16. Isto é de Spencer Parker.

Bart Ehrman — Muito bem, vou assumir que as pessoas não conhecem necessariamente os detalhes disto. Isto vai demorar um minuto, porque tenho de explicar como funciona esta parábola. Jesus em Lucas 16 (isto é encontrado, a propósito, apenas em Lucas). Este é o único lugar. Os outros Evangelhos não têm a história. Jesus fala sobre isto: Há um homem muito rico que vive numa mansão e come refeições sumptuosas todo o dia, todos os dias, e se veste com roupas deslumbrantes e tal. Ele é tão rico comom os mais ricos e, fora dos seus portões, há um homem cujo nome (o homem rico não tem nome) é Lázaro. Ele é pobre, está a morrer à fome, mendiga de porta em porta e só espera obter alguns restos da comida deste homem rico. Está doente e tem feridas por todo o corpo. Ele está tão mal, que os cães vêm lamber-lhe as feridas. É um verdadeiro contraste. Ambos morrem. O homem rico é levado para baixo da terra e é atormentado pelo fogo. Lázaro é levado para o reino celestial, para estar no seio de Abraão, o pai dos judeus. Por isso, ele está a banquetear-se com os patriarcas de Israel no Céu. O homem rico está lá em baixo e olha para cima. Ele está a morrer, está em mau estado, não pode morrer, está lá para sempre. Vê Abraão e diz: Abraão, envia Lázaro para baixo. Pelo menos ele podia meter o dedo em alguma água e arrefecer a minha língua. E Abraão diz que não, não o posso fazer. Há este enorme fosso entre nós, há este abismo, e não se pode passar entre um e outro, por isso, lamento, mas não vai acontecer. E o homem rico diz: Bem, olha, pelo menos podias mandá-lo de volta à Terra, porque eu tenho estes irmãos e se pelo menos lhes dissesses o que vai acontecer. Se eles não se emendarem, se não se arrependerem... Assim ele pode, pelo menos, avisá-los. E Abraão diz — este é um versículo realmente importante — que eles têm Moisés e os Profetas, eles têm a sua Bíblia. Se não acreditam em Moisés e nos Profetas, não vão acreditar, mesmo que alguém seja ressuscitado dos mortos. Este é um versículo chave e a razão é porque mostra que, quase certamente, Jesus não contou a história, porque pressupõe que o público sabe que alguém ressuscitou dos mortos e que as pessoas mesmo assim não acreditam. Na minha palestra, eu dizia que há algumas coisas que parecem ser colocadas nos lábios de Jesus. Este é um desses lugares, e é por causa disto. A segunda coisa... Vou dizer mais duas coisas. Direi sobre isto que é claramente uma parábola. Não é uma descrição literal do que está a acontecer. Esta secção do Evangelho de Lucas é uma parábola após outra, e muitas destas parábolas começam exatamente com as mesmas palavras: "Há um certo homem". É exatamente assim que esta parábola começa: Havia um certo homem. Portanto, é uma parábola, o que significa que não é uma descrição liberal de nada. A outra coisa a dizer é que não há palavras sobre o homens rico a sofrer para sempre. Ele está apenas a sofrer agora e por isso não sabemos se é um tormento eterno, mesmo na parábola, mas não creio que seja algo que Jesus tenha ensinado. Penso que é algo que mais tarde foi posto nos seus lábios por alguém, que está a tentar fazer esta afirmação: mesmo que alguém tenha ressuscitado dos mortos, não se vão arrepender.

Karin PeterExcelente. Portanto, vamos ficar no Novo Testamento por um momento, e qual é o consenso académico sobre a Primeira Epístola aos Coríntios 15:29, relativamente aos batismos para os mortos. Há alguma evidência de que os primeiros cristãos realizaram efectivamente baptismos para os mortos? E podemos agradecer a Corinne Creland por essa pergunta.

Bart Ehrman — Certo! Direi que quando estou a falar com as audiências protestantes nunca me fazem esta pergunta. Com os Episcopalistas, Metodistas, eles não fazem esta pergunta! Portanto, muito bem, baptismo para os mortos. A realidade é que, não sabemos. Não sabemos do que se trata. Há dezenas de teorias que os estudiosos têm. Pode muito bem ser. Quer dizer, obviamente poderia ser que as pessoas estivessem a ser batizadas por causa de outras que já morreram. Não sabemos o que é que isso implicaria. Paulo pressupõe que isto seja, seja o que for, uma prática, mas alguns estudiosos pensam que não seja para os mortos físicos, mas para os mortos espirituais. Os estudiosos pensam que é para as pessoas que morreram, que já tinham fé, que tinham vindo a acreditar em Cristo, mas que ainda não tinham sido batizadas. E assim, como eu disse, as teorias são longas como o meu braço, mas o interessante é que Paulo pressupõe que isso está a acontecer. Ele não o aprova nem desaprova. Apenas o afirma como sendo um facto, pelo que ele sabia do que se tratava. A outra coisa é que a razão pela qual ele o diz é a coisa particular de importância para Paulo, ele está a dizer que se os mortos não ressuscitarem no futuro, então qual é o sentido de serem batizados? Portanto, é só se houver uma ressurreição futura que isto importa. E por isso ele não está a fazer questão do batismo para os mortos, está a fazer questão da Ressurreição. Portanto, lamento não ter uma explicação definitiva, mas conheço cerca de vinte estudiosos e cada um deles tem uma explicação diferente.

Karin PeterIsso é excelente. Assim, mencionou que o Diabo foi inventado por apocalípticos cerca de 200 AEC Quem era então Satã em Jó?

Bart Ehrman — Sim, grande pergunta. Portanto, há uma figura no Livro de Job, capítulos um e dois, chamada Hasseltan. Satã (Satanás) em hebraico significa o adversário e por isso está no Livro de Jó. Isto não é o Diabo, isto não é o poder maligno que se opõe a Deus. O que está a acontecer é que Jó é o homem mais justo que já viveu e tem uma grande vida como resultado disso, e Deus diz aos seres divinos, aos filhos de Deus que o rodeiam, o conselho divino: Olha para este homem, ele é tão justo. E então o adversário, que está a fazer de advogado do diabo, diz: Bem, sim, claro que ele é assim, porque, olha o que ele está a ganhar com isso, e tal e tal. Deus e o Satã, o adversário, têm esta conversa, e Deus permite que ele prejudique Job e... É horrível, como sabem. Mas este é um dos membros do conselho de Deus e por isso, Deus tem este conselho divino à sua volta. O que acaba por acontecer no pensamento apocalíptico é que esta figura, Hasseltan, se torna o inimigo, não de uma pessoa justa como Jó, torna-se o inimigo de Deus. E depois começa-se a ter a ideia do Diabo, que é uma palavra que não ocorre na Bíblia hebraica, e de demónios e forças do mal. Isso acontece por volta do segundo século AEC. E agora faz agora parte das forças do mal que estão alinhadas contra Deus. Portanto, antes disso, Satã não era a figura do Diabo.

Karin PeterHá outra pergunta sobre a qual vou ficar com Satã por um minuto, se não se importa. Com os demónios, as ideias zoroastrianas de castigo eterno influenciaram o pensamento judeu durante e após o exílio?

Bart Ehrman — Sim, outra grande pergunta. Mudei de ideias em relação a isto. Esta é uma das coisas em que mudei de ideias, porque, durante anos, ensinei que o zoroastrismo, que saiu da Pérsia, teve influência no judaísmo, porque a terra que hoje chamaríamos Israel foi, a certa altura, conquistada pelos persas e assim, depois de os babilónios terem feito o seu trabalho e arrasado a terra, depois os persas entraram, e depois dos persas terem vindo para a Grécia, e foi assim. E o zoroastrismo é a religião dualista que sai da Pérsia, onde estas duas forças eternas do bem e do mal, e se obtém imagens muito semelhantes, luz e escuridão e tal e tal, que se começa a ter um pensamento apocalíptico. E assim a questão do Apocalipse judeu é, uma vez que a Pérsia estava lá e uma vez que este pensamento é dualista e tem luz e escuridão, tem o bem e o mal, parece mesmo que talvez tenha vindo do zoroastrismo. Eu costumava pensar assim e ensinei isso aos meus alunos. E agora não tenho a certeza de nada, não tenho mesmo. Em parte porque os textos zoroastrianos que temos, que abraçam esta visão, são datados séculos mais tarde e é difícil saber se eles representam ou não as visões zoroastrianas daquela época. O outro problema é que parece que a influência persa terminou com Alexandre o Grande em 323, bem perto dos 320 em Israel, mas não se começa a ter um pensamento apocalíptico durante mais de 100 anos, e por isso não parece estar directamente ligado à Pérsia. Existem outras razões para a datação, são de natureza técnica, e os estudiosos debatem para trás e para a frente. Esta é uma dessas coisas em que ninguém vai concordar, mas duvido agora, e certamente não afirmo que seja esse o caso.

Karin PeterQuais são os seus pensamentos sobre a história da bruxa de Endor, levantando o espírito de Samuel, a pedido de Saul e como se relacionaria com a sua visão da antiga crença judaica da alma após a morte? Obrigada Jacob Bidrain.

Bart Ehrman — Sim, claro. Temos por aí muitos a procurar na sua Bíblia... mas sim, isto é bom. Esta é outra para aqueles que estão realmente interessados. Quer dizer, eu lido com tudo isto no meu livro, porque estas são todas passagens óbvias a que iriam. Deixem-me dizer-vos qual da história da bruxa de Endor, no caso de algumas pessoas poderem não a conhecer. Saul é o primeiro rei de Israel unido. Israel foi governado por líderes tribais locais, os juízes, durante muito tempo e depois Saul é o primeiro rei e isso é óptimo, mas ele tem um problema de personalidade e está sempre a fazer as coisas mal e agora não estão a correr nada bem para ele. Ele tem o conselheiro espiritual Samuel, o que deu o nome ao primeiro e segundo livros de Samuel. Ele é o último grande profeta, até este momento, e o último juiz de Israel. Ele era o seu conselheiro, mas morreu e para Saul as coisas estão a correr muito mal, pois o reino e os exércitos dos vizinhos filisteus estão reunidos contra eles. Vai haver uma batalha e parece que eles vão perder. Saul precisa de conselhos e o seu conselheiro está morto. Saul arranja uma médium para trazer Saul de volta dos mortos, e ela está nervosa sobre fazê-lo, porque o rei Saul tornou isto ilegal, sob pena de morte. Então ele disfarça-se, vai ter com esta médium, convence-a a fazê-lo. Ela não sabe que é Saul. Ela ressuscita esta pessoa e percebe que o tipo que a obrigou a fazer isto é Saul, o rei. Ela fica zangada, mas depois Samuel aparece. É uma espécie de sessão. Samuel aparece e ela reconhece-o, porque está vestido como Samuel, é um homem velho e fala com ele. Samuel dá-lhe uma notícia muito má. Ele diz que não devia fazer isto. Não é suposto consultar os médiuns. A má notícia é que "amanhã vais estar comigo". Por isso, mais uma vez, parece mesmo que ele vai morrer e a sua alma vai descer ao Sheol com Samuel. Várias coisas a apontar. Os estudiosos comuns da Bíblia não pensam que isto seja falar sobre a alma de Samuel a subir do Sheol. Não é mencionado aqui. Samuel parece sair do chão, mas porquê sair do chão? Porque é onde ele está, está na sepultura, é onde os corpos são enterrados e ele não surge como um espírito, ele surge como um corpo. Está vestido e é um homem velho. O seu corpo fora sobrenaturalmente trazido dos mortos — este é o problema, é esta mulher fazer o que Deus é suposto fazer, ressuscitar os mortos — e não se pode fazer isto, agir como Deus. Por isso Samuel está todo irritado e, não temos a certeza, não diz porque é que ele está irritado. Não diz que se estava a divertir imenso lá em baixo e lhe interromperam a festa. Ele está aborrecido porque não se pode usar um médium e por isso, o castigo. Não creio que seja ensinar que uma alma morre e vai a algum lado. Penso que é uma história estranha, mas parece-me ensinar que o corpo foi reanimado da forma como mais tarde se entenderia ser reanimado na Ressurreição.

Karin PeterVamos visitar a teologia mórmon por apenas um momento. O mormonismo divide o Céu em três reinos: celestial, terrestre e telestial. Existe algum precedente para isto no cristianismo primitivo?

Bart Ehrman — Apenas de uma forma indireta. Havia um número de pessoas antigas, incluindo um número de judeus antigos, que pensavam que existem múltiplos níveis do Céu, e por isso há pessoas que falam em ir ao terceiro Céu ou ao sétimo Céu. A ideia remonta a Platão, por isso em centenas de anos depois de Platão há uma escola de pensamento que se desenvolveu, chamada Platonismo, e a ideia do Platonismo médio é que não se tem este mundo material aqui em baixo e um mundo espiritual lá em cima. Tem de haver algum tipo de transição entre um e outro, e no Platonismo médio, a ideia é que se sobe estas camadas, a partir do menos, material, ao mais, espiritual, mas não se pode chegar logo ao espiritual. É preciso passar por estas várias camadas que o Céu tem. Quando se chega ao topo é onde Deus vive, e por isso as pessoas vão para níveis diferentes. Isto é certamente encontrado na tradição cristã inicial, começando nos escritos de Paulo, que falava em subir para o terceiro Céu. Portanto, sim, não há um precedente para esses nomes e para essas delimitações precisas, mas a ideia de que o Céu é escalonado é uma ideia antiga.

Karin PeterEntão há outra questão, sobre a crença de que Jesus desceu ao Inferno, depois da sua morte, e depois voltou ao Céu — e claro que no Mormonismo há uma crença de que Jesus visitou as Américas — por isso, pode desenvolver essas ideias no sentido de, de onde veio essa ideia de que Jesus foi ao Inferno.

Bart Ehrman — estou a escrever um livro que está a tratar disto agora. Na verdade, estou a escrever um livro académico que lida com isto. Volta à ideia de que, se Jesus era um humano, se morreu, para onde vão os humanos? Quero dizer, quando a coisa apocalíptica desaparece e se começa a ter esta coisa, almas que vão para o Céu ou para o Inferno, então, no pensamento grego, as almas vão para o Hades e assim Jesus teve de ir ao Hades. Está bem, vamos chamar-lhe Inferno, por isso Jesus teve de ir ao Inferno. Depois voltou. Pensou-se, bem, ele foi ressuscitado três dias mais tarde. Que esteve ele a fazer lá em baixo? E assim começaram a desenvolver-se... bem, deve ter estado a pregar, provavelmente ele está a levar a sua salvação até lá. E assim se desenvolveram estas tradições que se chamam a descida ao Inferno, onde Jesus salva pessoas que tinham estado lá em baixo. Ainda não puderam ir para o Céu, porque Jesus ainda não tinha morrido. Não se pode ir para o Céu se Jesus não morrer. Então, onde é que eles estão? Estão lá em baixo no Hades e Jesus vai e tira-os de lá. E em algumas tradições que me interessam especialmente, ele tira toda a gente de lá, porque não se trata apenas de ele ter uma grande pregação, e de ele ter feito algumas coisas boas aqui por nós. É que ele é tão poderoso, ele é mais poderoso do que as forças do mal. Nada o pode deter, nem mesmo o Inferno. Por isso, ele leva toda a gente para fora e eles sobem. É aí que se começa a ter a ideia de Cristo a descer ao Hades. Assim que se tem uma ideia de qualquer coisa no Hades, é uma ideia grega a começar a influenciar o Cristianismo. Começa-se a ter a ideia de uma descida ao Inferno. Não muito tempo depois, exprime-se de uma forma visual muito gráfica, num livro chamado o Evangelho de Nicodemos que é do século IV, mas não chegou ao Novo Testamento. Não se considera a ideia de Jesus vir para as Américas, é claro, até que a sua tradição tenha começado.

Karin PeterOk, uma última pergunta, já que estamos a chegar ao fim do nosso tempo. Como concilia as alegadas declarações de Jesus de que o reino de Deus está dentro de nós com a ideia de que ele acreditava no reino literal de Deus?

Bart Ehrman — Outra grande pergunta. Lembre-se que a ideia de que há um Céu e um Inferno, o homem rico, a coisa de Lázaro está em Lucas 16 e Lucas é o único que tem isto. Lucas é também o único que tem este versículo em particular, o versículo está em Lucas 17 e diz que Jesus está a falar aos seus inimigos, os fariseus, que não acreditam nos seus ensinamentos, não acreditam que ele é quem é, troçam dele. Ele diz que, se eles soubessem só que o reino de Deus está entre eles. A palavra grega é "entre vós", pode ser traduzida de diferentes maneiras e infelizmente, em algumas traduções da Bíblia, é traduzida por "dentro de vós". Está dentro do vosso corpo. O reino de Deus entre vós não significa absolutamente isso. Nesta passagem em Lucas, sabemos que não significa, por muitas razões, mas uma razão é porque ele está a falar com os seus inimigos, os fariseus, e certamente não pensa que o reino de Deus está neles. Mas há toda uma série de razões para pensar assim. O que ele está a dizer é, novamente, caraterístico do Evangelho de Lucas. No Evangelho de Lucas, a ideia é que Jesus traz a manifestação do reino aqui connosco, agora, que no seu ministério podemos ver como é o reino. No reino não haverá ninguém que tenha um demónio nele, por isso Jesus expulsa demónios, não haverá ninguém que esteja doente e por isso Jesus cura os doentes, não haverá ninguém que tenha fome, e por isso Jesus alimenta os famintos, não haverá ninguém que morra e por isso Jesus ressuscita os mortos. Jesus representa o reino no aqui e agora e por isso está entre nós. Ele está a mostrar-nos como é, é o que isso que significa em Lucas, mas, mais uma vez, não é algo que o próprio Jesus tenha dito. E mesmo que ele o dissesse, não significaria que estivesse dentro das pessoas, sim, porque Jesus é o último rei.

 

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