9 de abril de 2021

Marxismo, a religião messiânica dos trabalhadores

Tenho hesitado muito em escrever este texto, que me trará, não duvido, rasgados elogios dos meus inimigos políticos e severas críticas dos meus aliados. Mas tem que ser. Há limites para viver em mentiras. Mesmo que as ilusões possam, por vezes, ser úteis, por fim sempre serão nocivas. Não se pode basear a ação política numa ilusão.

Já lá vão 173 anos desde a publicação do Manifesto Comunista de Karl Marx, de 1848. Se queremos ser minimamente honestos, devemos admitir que as promessas desse panfleto, que encheram de esperança milhões de ativistas progressistas, nunca se concretizaram. Nem na Comuna de Paris, de 1871, nem nas revoluções russas de 1905 e 1917. Nem nas insurreições alemãs de 1919 e 1923, contra a República de Weimar. Nem, ça va sans dire, nas invasões pela URSS de vários países da Europa de Leste, a seguir a 1945. Nem, ainda, no regime de Mao Ze Dong na China a seguir a 1950. Também não na Cuba de 1960. Muito menos nos regimes autoritários de esquerda em vários países do Terceiro Mundo, da Angola pós-colonial à Venezuela dos dias de hoje.

Juízo Final

Intelectuais, sem dúvida, bem intencionados (na maioria, enfim…) executaram contorções extraordinárias, para defender esses regimes, em especial o da URSS. Tentaram explicar como é que um regime de partido único, com censura, polícia política, tortura, execuções sumárias, campos de concentração e sujeição de milhões a trabalhos forçados era, afinal, a concretização das promessas do marxismo – enquanto combatiam essas exatas mesmas coisas nos países capitalistas em que militavam.

Estamos, sem dúvida, longe das sombrias opções do tempo da II Guerra Mundial: entre apoiar Churchill, Hitler ou Estaline ou, mais tarde e no que toca ao nosso país, entre apoiar Salazar ou Cunhal. O nosso universo político é muito menos drástico. As opções são outras, não menos graves, mas diferentes. Uma série de revoluções restabeleceu a democracia e as liberdades humanas como as mais caras virtudes dos regimes políticos. É difícil não integrar a revolução portuguesa de 1974 numa mesma onda que derrubou o apartheid da África do Sul e o levou ao colapso da URSS e de todos os regimes clientes da Europa de Leste.

Essas revoluções não cumpriram nenhum futuro mítico. Em Portugal, estabeleceu-se um regime medíocre, corrupto e desigual; a África do Sul, embora mil vezes melhor, não é um regime nada perfeito; na URSS e na Europa de Leste tomaram o poder cleptocratas que herdaram os anteriores privilégios da nomenclatura comunista, mas sem precisar já de fazerem declarações de fé no comunismo e gozando a sua riqueza, de duvidosa origem, como os novos capitalistas, em regime neoliberal/autoritário.

Mas os velhos problemas políticos que levaram Marx a publicar e fazer aprovar o seu Manifesto de 1848 continuam a pôr-se. O capitalismo continua a ser um perigo. As amplas massas continuam a ansiar pela sua libertação. Será o caminho o mesmo que já levou a tantos impasses? Não acredito.

O messianismo revolucionário

Não vou meter-me aqui na crítica do marxismo enquanto constructo político. A teoria da luta de classes mostrou, sem dúvida, severas limitações. O esquema histórico da possível sucessão entre feudalismo, capitalismo e socialismo não mostrou nenhuma eficácia especial a prever a história. A sua análise económica é, digamos, extremamente datada. A sua teoria política deixou os marxistas que tomaram o poder impreparados para as decisões inevitáveis quanto ao seu novo poder

O que me interessa é uma coisa mais subtil, mas eventualmente mais poderosa.

O campo fértil que produz o revolucionário é a opressão. Seja nas lutas sindicais, nas greves, nas ocupações, ou nas lutas políticas, com a organização de manifestações e a fuga necessária à repressão que sempre se segue, o revolucionário cumpre o seu processo de radicalização ao perder paciência com o gradualismo das pequenas reformas, das magras reivindicações monetárias conseguidas, das alterações tímidas das leis. O revolucionário começa a ansiar pelo grande cataclismo social que possa resolver estes problemas todos de uma assentada. Ideia partilhada entre os crentes perseguidos, a Revolução ganha de forma subtil e progressiva os contornos de um evento messiânico. Eventualmente, surge uma ideologia que justifica os seus anseios.

Se morrer a lutar pela revolução, o revolucionário terá sido um herói, dando a vida pela causa. Se acabar por morrer na cama, sem que o grande evento se produza, terá na mesma dado toda a sua vida pela causa. Mas o revolucionário não é nenhum santo.

No seu íntimo, inconfessada, existe a esperança de que, no novo poder, se finalmente a Revolução vencer e ele estiver vivo e nas boas graças do Partido, haverá um ligar privilegiado para si. Será um comissário político. Exercerá o poder, não sancionado talvez pelas massas, mas provisoriamente, em nome delas, enquanto as massas não estiverem politicamente preparadas para aceitar o novo poder.

E inevitavelmente, já que as massas – ingratas – não parecem dispostas a compreender o novo poder, o revolucionário exercerá o poder contra elas.

Pode ser surpreendente a qualificação de messianismo atribuída a esta forma de pensar. Os marxistas, no fim de contas, são necessariamente ateus, tal como outras correntes revolucionárias modernas. Atribuir-lhes uma estrutura religiosa seria um abuso. Ou não?

O messianismo não necessita de uma crença obrigatória na vida depois da morte. A esperança de um dia partilhar o céu, “à direita de Deus”, corresponde ao cristianismo e ao islamismo, mas não é tão geral como se possa pensar. Os antigos hebreus, por exemplo, não acreditavam na alma imortal. A alma era o fôlego, o sopro da vida, nascia com a respiração do recém-nascido e extinguia-se com a morte. A alma imortal é uma invenção grega, da entourage de Platão.

Apesar de não acreditarem na sobrevivência depois da morte, inúmeras culturas sustentaram crenças na salvação, na vinda de um Messias e no grande evento redentor no fim dos tempos. E os seus membros estiveram sempre prontos a fazer o último sacrifício pela causa, mesmo sem o prémio da sobrevivência após a morte, para gozar, enquanto indivíduos, o seu resultado.

O marxismo aparece assim como uma religião secular, não só dos revolucionários, mas das grandes massas oprimidas. O maior antídoto ao sentimento de desespero perante a exploração e alienação quotidianas é a esperança no grande dia, em que os opressores serão enfim vencidos e os oprimidos serão os senhores.

Pelo seu lado, o revolucionário tem essa gratificação psicológica de ser um übermensch, um super-homem, devido à sua consciência superior do destino da história e à sua capacidade de, eventualmente, influenciar a própria história. Quando, em 1980, deixei de ser ativista político, deprimiu-me bastante a consciência de que seria, dali em diante, apenas mais um cidadão, desprovido de quaisquer superpoderes políticos.

Uma indicação importante do caráter religioso do marxismo é a intransigência ideológica. Tal como os católicos perante as heresias ou os protestantes na sua multiplicidade de seitas, o bom marxista, quer esteja num grande partido de massas, quer faça parte de um grupúsculo extremista, está sempre pronto a criticar os camaradas pela falta de fidelidade às escrituras ou, facilmente, a expulsá-los – sobretudo se lhe cheirar que é essa a diretiva do Comité Central.

Tudo isto tem que ser visto com cuidado, evidentemente. Os partidos social-democratas (os da Internacional Socialista, incluindo o PS) têm alguma influência marxista, mas ela manifesta-se mais daí para a esquerda, de forma esmagadora. As críticas que fiz aplicam-se no mesmo espetro. Os partidos sociais-democratas merecem outras críticas, mas estas não fazem parte deste artigo.

O ceticismo necessário

Karl Popper, num livro de 1957 intitulado “A Miséria do Historicismo”, gritou que o imperador vai nu. Demonstrou que a história humana é, essencialmente, imprevisível. A certeza num resultado único do devir histórico nunca pode resultar de uma análise de complexidade real das sociedades humanas, mas de uma simplificação extrema e ideológica.

A história, evidentemente, deu razão a Karl Popper. Nada do que aconteceu confirma as previsões dos marxistas ou de outras ideologias historicistas. Evidentemente, ideólogos podem contorcer-se a tentar fazer caber a realidade nos seus esquemas, quer escolhendo os aspetos que lhes interessam e excluindo os que não cabem, quer rebatizando as suas categorias ideológicas para poderem incluir a realidade rebelde. Inúmeros tratados foram escritos nesta demanda de validação ideológica, mas são sempre ações posteriores. Ou seja, tentativas de fazer as realidades imprevistas caber nos processos ideológicos. Nunca são, nem podiam ser, previsões eficazes do futuro.

Já há muitos anos, quando li o “18 de Brumário de Luís Bonaparte”, de Karl Marx, tive essa sensação, de que ele fazia batota. Eu era então plenamente marxista, mas era difícil fugir à ideia de que a realidade da França do II Império era demasiado complexa para o paradigma da luta de classes usado por Marx e que ele, de forma, de resto, brilhante, se socorria de fatores estranhos ao seu esquema para demonstrar que ele funcionava.

Quem pretende fazer uma análise política, hoje em dia, deverá ser mais honesto. Terá que usar instrumentos lógicos céticos, para fazer uma crítica impiedosa da sua própria tese. E deverá basear-se, o maior possível, em dados científicos. Por fim, deverá ser humilde. Não ceder à tentação de ser um novo profeta, mas limitar-se a apontar a probabilidade das pequenas coisas que podem, efetivamente, ser previstas.

Que fazer?

Perante esta destruição das ideologias revolucionárias, será que isso significa o abandono da ação política progressista? Não, de forma nenhuma.

A ação política progressista não mostra sinais de abrandar, apesar das ideologias tradicionais que lhe davam apoio estarem em crise. Os problemas existem, as crises agravam-se, os problemas que não foram resolvidos e outros novos acumulam-se.

É muito provável que as ideologias revolucionárias não sejam necessárias para a ação política de esquerda. O que é necessário, em vez disso, é a convicção de que as reivindicações e os objetivos políticos são justos e desejáveis.

Como se pode saber se os objetivos políticos e as reivindicações são justos e desejáveis? Simples: a sua avaliação deve ser ética, não ideológica. Se o objetivo é justo, deve-se lutar por ele. Em caso de vitória, a sociedade terá que adaptar-se. E por isso, será uma sociedade melhor.

Exemplo: a semana de oito horas. Era uma reivindicação evidentemente justa, se bem que, no tempo, todos os capitalistas jurassem que tal coisa iria levar à ruína geral. Não levou, pelo contrário, até levou ao aumento da produtividade.

Certamente que as revoluções não deixarão de suceder. Decerto que os ativistas de esquerda poderão tomar o poder, mas terão que ter o cuidado de não se esquecer dos seus valores. Provavelmente, mais vale perder o poder que perder os valores.

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