30 de dezembro de 2019

A sua única desculpa é que não existe

David Madison, na publicação Christianity, Ten Knockout Punches: Number 1, The easy acceptance of the very terrible (Cristianismo, dez golpes decisivos: Número um, a aceitação fácil do mais terrível), no blogue Debunking Christianity, discute a irreconciliável contradição entre a suposta bondade de Deus e a crueldade do mundo. Referindo a Peste Negra na Europa, cita o livro da historiadora Barbara W. Tuchman "A Distant Mirror: The Calamitous 14th Century":

“Em outubro de 1347 ... navios mercantes genoveses chegaram ao porto de Messina, na Sicília, com homens mortos e moribundos nos remos ... Os marinheiros doentes mostravam estranhos inchaços negros do tamanho de um ovo ou de uma maçã nas axilas e virilhas. Os inchaços escorriam sangue e pus e foram seguidos pela disseminação de furúnculos e manchas pretas na pele, devido às hemorragias internas. Os doentes sofriam fortes dores e morriam rapidamente, cinco dias após os primeiros sintomas ... tudo o que saía do corpo — respiração, suor, sangue das pústulas e pulmões, urina com sangue e excremento enegrecido pelo sangue — cheirava mal. A depressão e o desespero acompanhavam os sintomas físicos e, antes do fim, 'vê-se a morte plantada no rosto'”.

Cerca de um terço da população, da Índia à Islândia, morreu dessa forma. “Em Paris, onde a praga durou todo o ano de 1349, a taxa de mortalidade relatada era de 800 por dia, em Pisa 500, em Viena 500 a 600. O total de mortos em Paris foi de 50.000, ou metade da população.” (Tuchman, p. 99)

“A ignorância da causa aumentou o sentimento de horror… O verdadeiro bacilo da peste, Pasturella pestis, manteve-se desconhecido por mais 500 anos.” (P. 105) “Para as pessoas em geral, só poderia haver uma explicação: a ira de Deus.” (P. 107)

Demónios

"A peste em Tourmay, 1349", Gilles le Muisit (1272–1352) / Biblioteca Real da Bélgica, Bruxelas

Parece que, na sua infinita sabedoria, Deus dera à Cristandade ocidental mil páginas de Bíblia sem mencionar os micróbios; em mais de mil anos a responder às orações, omitiu dar essas informações cruciais sobre o motivo de ficarmos doentes. Perante as fervorosas orações que ouviu durante os anos de peste, não poderia ao menos ter dito: "São as pulgas, são os ratos" ?

Poderá isto considerar-se uma administração sábia dos assuntos humanos? Mas a credibilidade de Deus foi atingida. Eis o parágrafo mortal de Tuchman:

“Os sobreviventes da praga, não se vendo nem destruídos nem beneficiados, não podiam encontrar nenhum propósito divino na dor que sofreram. Os propósitos de Deus eram geralmente misteriosos, mas esse flagelo havia sido terrível de mais para ser aceite sem questionar. Se um desastre de tal magnitude, o mais letal já conhecido, foi um mero acto arbitrário de Deus — ou talvez não fosse a obra de Deus —, então os absolutos duma ordem fixa soltaram-se dos seus alicerces. Mentes que se abriram para admitir essas perguntas jamais puderam ser de novo fechadas. Tendo as pessoas imaginado a possibilidade de mudança duma ordem fixa, o fim da era da submissão apareceu; a viragem para a consciência individual anunciava-se. Nessa medida, a Peste Negra pode ter sido o começo não reconhecido do homem moderno.” (P. 129, sublinhados de David Madison).

(...)

O outro flagelo da humanidade

Podemos culpar a Deus pela guerra? A doença parece ser o seu domínio, mas os apologistas desculpam-se com o livre-arbítrio enquanto examinam a carnificina no campo de batalha: a humanidade pecaminosa e perversa — desafiando a Deus — deve assumir a culpa pela guerra. Mas, é claro, estão errados. Não é assim tão simples; a agressão necessária à sobrevivência foi incorporada no cérebro pela evolução.

No mínimo, não poderia Deus dar um bom exemplo? A Bíblia mostra um Deus cruel e guerreiro, que falha no controle básico da agressividade; afoga a humanidade quase no início. Os profetas do Antigo Testamento bramiam sem parar sobre a destruição que o pecado traria. O Senhor encarregou os israelitas de seguir uma política de terra queimada na conquista da Terra Prometida1, e quando o Filho do Homem vier nas nuvens, haverá mais sofrimento do que na época de Noé2. O próprio Jesus recebe uma ordem sobre a sua vinda, não de trazer a paz, mas uma espada3. O hino "Avante, soldados cristãos" acha a sua justificação na Bíblia.

Mas porque teria Deus as mãos atadas depois das guerras começarem? Porque toleraria uma guerra de trinta anos — safa, trinta anos — especialmente uma guerra alimentada por ódios religiosos? Solicitam-nos que acreditemos que Deus "inspirou" mil páginas da Bíblia, ou seja, controlou e dirigiu as mentes para criar as escrituras; mas não tinha ele poder para fazer as pessoas mudarem de ideias sobre guerrear-se e matar-se uns aos outros? Dar-lhes indicações de que matar-se uns aos outros por causa da teologia é imoral? Por favor, apologistas, atinem lá na vossa história sobre o poder de Deus. Ao menos, que faça algum sentido...

Certamente Deus foi cúmplice na Guerra Civil Americana: a sua Palavra Sagrada foi usada para justificar a escravatura. Cada um dos adversários sabia que tinha Deus do seu lado. Não teria Deus meios de fazer saber a algumas pessoas que estavam do lado errado?

O início do século XX oferece um exemplo assustador de coincidência do horror moral e natural. John Loftus4 notou a ausência do Deus dos pardais5:

“No mesmo ano em que a Primeira Guerra Mundial terminou, em 1918, que foi assim um ano muito bom, a praga mais devastadora atingiu o mundo, em que 20 a 40 milhões de outros seres humanos sofreram mortes cruéis. Na esteira do exemplo mais terrível de sofrimento moral, vem o exemplo mais terrível de sofrimento natural. Deus é bom, não é? Treta! Deus não fez nada nos dois casos. A sua única desculpa é que não existe.” (Blogue Debunking Christianity, 12 de novembro de 2018). Como é que gente piedosa adora o seu Deus amoroso, sem prestar qualquer atenção à gripe pneumónica? Mas mesmo que prestem atenção — e daí? — a adoração continua: é a aceitação fácil do mais terrível.


1 A conquista de Canaã, segundo o Livro de Josué. Essencialmente, Iavé teria mandado os israelitas matar toda a gente. Genocídio.

2 A segunda vinda de Jesus tratá sofrimento como nos tempos de Noé, Evangelho de Mateus, 24:37-39.

3 Jesus: "Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada", Evangelho de Mateus, 10:34.

4 John Loftus é o dono do blogue, um ateu ex-teólogo, mais conhecido pelo Teste Externo da Fé, ou seja, por propor aos crentes que examinem a sua fé como se fossem não crentes. David Madison, outro ateu ex-teólogo, é um inquilino frequente do blogue.

5 Alusão ao Evangelho de Mateus, 10:29-30: Mesmo dois pássaros insignificantes, Deus sabe deles, até sabe quantos cabelos tens na cabeça. Portanto, para Deus não existe a desculpa da ignorância.

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