22 de janeiro de 2021

A direira contra a semântica – 2

Traduzi dois artigos de Doug Muder, no blogue The Weekly Sift, que tratam de assuntos importantes, mas que costumam passar abaixo do radar. O primeiro, The Orwellian Misuse of “Orwellian”, é recente; o segundo, Newspeaking about torture, é de 2014, mas tratam do mesmo assunto: de como a direita procura destruir as palavras que a esquerda usa para a caraterizar.

O primeiro artigo traduzido, O abuso orwelliano de “orwelliano”, está aqui.

Novifalar sobre tortura

 

 

Um dos principais temas de “1984”, de George Orwell, é a importância da linguagem para os governos opressores. Desde o início da história registada, ditadores grosseiros puniram as pessoas por criticarem o seu governo. Mas os ditadores modernos e sofisticados mudam a própria linguagem, de modo que os pensamentos que minam a ideologia dominante são difíceis de exprimir em palavras, e ninguém entenderia o que estamos a dizer se o fizéssemos.

Orwell descreveu esta técnica detalhadamente num ensaio que anexou a “1984”, “The Principles of Newspeak”.

“O propósito da Novilíngua não era só fornecer um meio de expressão à visão do mundo e hábitos mentais próprios dos devotos do Ingsoc, mas tornar todos os outros modos de pensamento impossíveis... isto foi feito em parte pela invenção de novas palavras, mas principalmente pela eliminação de palavras indesejáveis e por retirar às palavras que permaneciam os significados não ortodoxos e, na medida do possível, todos os significados secundários.”

Esta é uma boa estratégia para quem já dirige um governo totalitário como o da Oceania de Orwell. Mas ignora completamente os problemas enfrentados por movimentos que ainda tentam chegar ao poder, como os conservadores americanos de hoje. Apesar de controlar o Congresso, eles não podem simplesmente proibir palavras de que não gostam.

Tudo o que têm, além do Congresso, é um império de media, vasta riqueza e um grau incrível de disciplina de mensagem. Que se pode realizar com estes recursos?

Apenas por gritar e ser persistente, pode-se tentar alterar o uso comum para favorecer a própria ideologia. Às vezes isto funciona (“imposto sobre a morte”) e às vezes não (“bombista-homicida”). Mas o verdadeiro desafio é desarmar uma palavra que funcione contra nós ou a favor dos nossos inimigos.

Na Oceania, simplesmente removiam a palavra do dicionário e corrigiam todos os que continuavam a usá-la. (“Não está no dicionário, então não é Novilíngua apropriado.”) Ou mantinham a palavra, mas removiam todos os seus significados ofensivos, novamente corrigindo as pessoas que persistiam em usá-la incorretamente.

Mas, e se não tivermos este tipo de poder? Os conservadores americanos resolveram este problema há muito tempo: se não podemos banir uma palavra, aplicamos os nossos recursos para destruí-la por meio do uso indevido.

Não tenho a certeza de quando isto começou. (Esta é a grande vantagem de destruir uma palavra; eventualmente, toda a gente deixa de usá-la, então nunca mais nos vem à mente. Os seus rastos estão cobertos, porque quase ninguém pergunta “Como é que uma palavra se tornou inutilizável?”) Talvez tenha sido durante os anos Reagan, quando liberal se tornou um insulto para atirar a pessoas de quem não se gosta. Não tenho a certeza. Eu não estava a prestar atenção às coisas certas então. Nenhum de nós estava, ou poderíamos ter tentado defender liberal em vez de simplesmente parar de usar a palavra.

Notei a destruição de palavras* pela primeira vez anos depois, durante o segundo governo Bush. Muita coisa desagradável estava a acontecer então: o governo dos EUA estava a torturar pessoas em prisões secretas, a espiar os seus próprios cidadãos, a prender pessoas indefinidamente sem julgamentos e a inventar motivos falsos para invadir um país estrangeiro. O governo estava a justificar tudo isto apresentando novas interpretações jurídicas bizarras de “executivo unitário” e do quase ilimitado “poder do Artigo II” que sempre tivera, quando se determinava que estávamos em guerra. Pondo de cabeça para baixo a retórica conservadora anterior de governo pequeno e responsabilidade fiscal, o governo estava a criar novos e enormes programas para subornar eleitorados-chave, e não criando nenhuma receita para os pagar. (Basta adicioná-los ao défice. Não se preocupem.)

Enquanto eu estava a ler um artigo do Economist que caracterizava a ideologia de Bush como “conservadorismo de governo grande”, perguntei-me: porquê usar uma frase tão complicada, quando já havia uma palavra perfeitamente boa para esta configuração de ideias e políticas – fascismo.

A resposta foi que fascismo se tornou inutilizável, porque o uso indevido o destruiu. Justamente quando a América precisava de uma palavra para descrever o que estava a acontecer, os conservadores estavam, em vez disso, a discutir “fascismo liberal” e “islamo-fascismo” e assim por diante. Na media conservadora, de repente tudo era fascista, exceto o tipo de conservadorismo militarista, torturador, secreto, intrometido, corporativo e de grande governo que tinha sido praticado por Mussolini, Hitler, Franco e Pinochet – e estava a ser cada vez mais adotado por Bush.

A palavra fascista poderia ter sido uma ideia mobilizadora para os inimigos do conservadorismo americano. Mas os conservadores evitaram esta ameaça destruindo o fascismo por meio do abuso. Como resultado, hoje somos perfeitamente livres para falar sobre fascismo – acabei de falar – mas ninguém saberá o que queremos dizer. Fascista não passa de um insulto agora; não tem conteúdo real. Se o usarmos, não estaremos a dizer nada em particular, apenas a ser agressivos e rudes.

O terrorismo foi quebrado de outra forma, como um lobo orgulhoso que se transforma num cão de ataque. O terrorismo costumava ter um significado claro: ameaçar ou perpetrar violência contra civis para fins políticos. Era uma descrição ideologicamente neutra de uma tática à qual qualquer movimento político poderia recorrer. Mas depois de uma década de uso indevido, o terrorismo tornou-se qualquer acto violento que os conservadores desaprovam. Portanto, o massacre de Fort Hood é terrorismo, embora tenha sido um ataque contra uma base militar. O que quer que o ISIS faça é terrorista, até mesmo pôr um exército em campo e travar batalhas cerradas contra outros soldados. Mas quase ninguém (exceto eu) chamou ao assassino do Templo Sikh o que ele era: um terrorista cristão de direita branco. Os cristãos brancos de direita já não podem ser terroristas; é um oxímoro.

Mais recentemente, a liberdade religiosa e a perseguição religiosa foram quebradas. Uma geração atrás, estas eram palavras da ACLU (União Americana de Direitos Civis), usadas por ateus, judeus e outros movimentos minoritários que lutavam contra a opressão da maioria cristã.

Essa opressão não desapareceu; de muitas formas, está a piorar. Mas as palavras para combatê-la foram sequestradas, de modo que mal podem ser utilizadas. Hoje, a perseguição religiosa é dizer a um pasteleiro cristão que um casal gay faz parte do público em geral que o seu negócio atende. Ou talvez esteja em só dizer “Boas Festas” em vez de “Feliz Natal”. Liberdade religiosa significa que um empresário cristão é “livre” de bloquear qualquer parte da cobertura de saúde dos seus funcionários de que não goste, e um farmacêutico cristão pode decidir livremente se aprova uma receita (e o estilo de vida que ela implica) antes de aviá-la. A separação entre igreja e estado – que costumava ser a marca registada da liberdade religiosa – agora é uma ideia comunista que faz parte da conspiração para perseguir os cristãos.

Então, agora, quando a cidade de Kennesaw, na Geórgia, não permite que um grupo muçulmano alugue um espaço para o culto, ou um oficial da condicional força um ateu a participar num programa religioso, sob a ameaça de voltar à prisão, não há palavras para descrever o que está a acontecer. Chamar a isto “perseguição religiosa” só confunde as pessoas.

E isto leva-nos à tortura. Por muito tempo, a principal defesa do programa de tortura de Bush foi que não aconteceu. Não havia tortura, apenas interrogatório intensificado, uma frase suficientemente descarada para deixar orgulhosa a Novilíngua.

Mas esta defesa tornou-se insustentável quando o relatório do Senado sobre tortura foi publicado. Assim que o público ouviu os detalhes, a alegação de que isto não era tortura foi exposta como ridícula. (Isto só piorou à medida que mais detalhes aparecem.) E embora alguns estejam a tentando, a palavra tortura não pode ser recuperada do lado obscuro. Não há forma de dizer: “Nós somos o Partido da Tortura e isto é uma coisa boa”.

Mas há uma estratégia alternativa: fazer mau uso da palavra tortura até que se desfaça.

Dick Cheney apontou o caminho durante a sua entrevista Meet the Press com Chuck Todd, da MSNBC. Quando Todd perguntou como Cheney definia tortura, ele desviou a questão assim:

“Bem, tortura, para mim, Chuck, é um cidadão americano num telemóvel a fazer uma última chamada para as suas quatro filhas, pouco antes de morrer queimado nos andares superiores do Trade Center, na cidade de Nova York em 11 de setembro.”

Todd continuou a perguntar se a alimentação rectal era uma tortura, e Cheney continuou a sua estratégia de distração com objetos brilhantes.

“Eu disse-lhe o que se enquadra na definição de tortura. Foi o que 19 tipos armados com passagens aéreas e cortadores de cartão fizeram a 3000 americanos no 11 de setembro.”

A campanha de abuso está em curso. O blogue American Thinker reporta sobre o “verdadeiro escândalo de tortura na América”, que é o aborto. O general Boykin diz: “Tortura é fazermos o IRS perseguir os grupos conservadores”. A American Energy Alliance, financiada por Koch, está a chamar a regulamentação de combustíveis fósseis da EPA, “tortura”:

“Quer seja a regulamentação mais cara da história ou as regras de extermínio das centrais a carvão (que o professor de direito de Obama diz levantarem ‘questões constitucionais’), é claro que a CIA não é a única agência governamental envolvida na tortura. Pelo menos a CIA não está a torturar americanos.”

A AEA ilustrou seu ponto de vista com este cartoon:

Sim, “aumentar os custos da energia” e “perseguir proprietários” agora são tortura.

Esperem ouvir muito mais sobre isto. Em breve, toda a inconveniência para um grupo conservador de interesse especial será uma “tortura”. Tudo e qualquer coisa será “tortura” – exceto um interrogador da CIA a olhar nos olhos de um prisioneiro indefeso (e possivelmente inocente) e a ameaçar com dor excruciante, trauma ou humilhação, a menos que ele fale.

A tortura não pode ser defendida, então a palavra tortura deve perder o sentido. Se não se pode banir uma palavra, destrói-se.


Antecipo a pergunta: “E sobre as formas como os liberais tentam mudar a linguagem?” Existem várias palavras que os liberais tentaram remover da linguagem, como “nigger” (preto) ou maricas. Desencorajamos os homens de se referirem às mulheres adultas como meninas, e assim por diante. Mas esses esforços têm sido francos e transparentes. Por exemplo, removemos amplamente a palavra “nigger” do uso comum entre os brancos, discutindo abertamente os motivos pelos quais os brancos não deveriam dizer “nigger”. Se os conservadores quiserem iniciar uma discussão igualmente aberta para convencer as pessoas a pararem de dizer tortura, eu convido-os a tentar.

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