27 de janeiro de 2021

Radicalização e tensão social nos EUA

Achei muito curioso este artigo, “Our Radicalized Republic”, no site 538, sobre as dificuldades do sistema político dos EUA, quando, na opinião dos autores, as posições estão tão extremadas que podem levar à paralisia do sistema de governo ou – como acabou por acontecer no dia 6 de janeiro – a tentativas de golpe de estado.

Como é próprio deste tipo de discurso, a ênfase é posta no lado comportamental da realidade. Mas a radicalização, creio eu, não é o resultado de vícios de comportamento, mas de factos políticos de base. Para os interesses que governam o partido republicano, é insuportável a submissão ao governo democrata; para a base social dos democratas, ser governado pelos republicanos é insuportável. Todas as frases ocas sobre unidade nacional e diálogo entre os dois lados da coxia não passam de decoração folclórica.

Mas aprecio sempre o bom tratamento de dados do site 538. É um bom artigo informativo.

A nossa República Radicalizada

Tradução do artigo de Maggie Koerth e Amelia Thomson-DeVeaux no site 538 Gráficos de by Anna Wiederkehr.

O presidente Biden, ou qualquer outra pessoa, pode superar anos de ódio partidário crescente?

O motim no Capitólio dos EUA, em 6 de janeiro, foi o clímax da presidência de Trump,
mostrando o quão radicalizada uma porção significativa do país se tornou.
[SHAY HORSE / NURPHOTO VIA GETTY IMAGES]

Há quatro anos, Lilliana Mason aprendeu uma coisa que esperava mesmo que não fosse verdade. Cientista política que estuda as atitudes dos americanos em relação à política e uns aos outros, ela sabia há muito tempo que os cidadãos deste país estavam cada vez mais ressentidos e desconfiados das pessoas que vemos como os nossos oponentes políticos.

Mas uma coisa é não gostar de alguém – outra é querer fazer-lhe mal.

“Pensei que isto provavelmente ia, bem, talvez até a desumanização... esse tipo de coisa”, disse ela. Em vez disso, descobriu que, para 15-20% dos americanos, a violência física contra oponentes políticos não é uma fronteira. Em várias pesquisas conduzidas por Mason e pelo seu co-autor Nathan Kalmoe, esta larga minoria bipartidária dizia que a violência era, pelo menos, um pouco justificada – particularmente se o seu partido perdesse as eleições de 2020.

Então, em 6 de janeiro, Mason sentou-se na sua sala de estar, a ver TV enquanto, a apenas dez quilómetros de distância, uma multidão de extremistas de direita armados escalava as paredes e entrava pelas janelas do Capitólio dos EUA. Pensou na sua pesquisa e de repente ficou absolutamente lívida. Os seus filhos estavam apavorados. As opções de deixar a cidade estavam frustradas pela pandemia global. E os seus dados – antes um risco teórico que lutava para fazer os outros académicos levarem a sério – tinham saltado das páginas e começado a espancar um polícia até à morte com um extintor de incêndio.

“Eu sabia que isto ia acontecer”, disse ela. “Eu não queria mesmo. Mas olha, eles fizeram-no, sabe? Raios os partam. Finalmente conseguiram.”

O que aconteceu no Capitólio foi o culminar de anos de extremismo de direita, uma força política que cada vez mais se manifesta como violência real. Mas a pesquisa de Mason – e as suas preocupações – vão além dos extremistas de direita. Grande parte desta nação agora odeia os americanos que não se filiam no seu partido. As razões e consequências desse ódio parecem muito diferentes na direita e na esquerda, mas ainda deixam o presidente Biden com uma tarefa quase impossível: governar um país radicalizado.

Por décadas, pesquisadores como Mason observaram como várias tendências – ressentimento dos americanos brancos contra os americanos negros, crescimento da desigualdade, como nos sentimos em relação aos oponentes políticos – viraram este país para uma direção perigosa. Qualquer uma destas coisas, por si só, pode desestabilizar democracias e levar à violência, disseram os especialistas. Estamos a lutar com cerca de meia dúzia delas. E agora o país chegou a um ponto em que é muito, muito mais fácil dar um soco do que resolver as coisas. Nada disso deverá mudar só porque temos um novo governo focado na unidade.

Subjacente a todas as tendências que separam os americanos está um desacordo fundamental sobre quem tem e deve ter o poder. Devem os políticos esforçar-se por criar uma democracia multicultural dedicada a resolver a desigualdade social? Ou deveriam preservar uma hierarquia social que permite que os brancos (e em particular, os homens brancos) tenham um controle desproporcional?

Trump deixou claro quem ele achava que deveria estar no poder. A sua disposição em usar calúnias raciais, decretar políticas racistas e declarar que os cristãos deveriam ter um lugar privilegiado na vida americana, ajudou a criar um mundo onde, tanto a esquerda quanto a direita, apoiam a violência política nas mesmas proporções, mas a direita tem maior probabilidade de agir. Mas agora que ele se foi, a fissura não vai simplesmente fechar-se atrás dele. E mesmo que Biden fosse de alguma forma capaz de unir os lados em guerra, provavelmente isto exigiria um nível de compromisso que faria mais mal do que bem.

“Não há forma disto desaparecer silenciosamente”, disse Mason.

PARTE 1

Décadas de deriva

Manifestantes brancos mataram centenas de negros numa tentativa bem-sucedida de derrubar uma eleição em Wilmington, Carolina do Norte, em 1898. Mais de cem anos depois, a rebelião no Capitólio foi alimentada por queixas semelhantes.
[BIBLIOTECA DO CONGRESSO / ERIC LEE / BLOOMBERG VIA GETTY IMAGES]

Esta não é a primeira vez que um grupo de americanos decide que ganhar uma eleição é mais importante do que manter a democracia. Na verdade, é por causa desses outros exemplos que sabemos de que tendências sociopolíticas devemos desconfiar.

Em 10 de novembro de 1898, após uma eleição municipal que tinha empossado um conselho municipal integrado, as elites brancas da cidade de Wilmington, Carolina do Norte, mobilizaram uma multidão que incendiou o jornal negro da cidade, matou centenas de residentes negros e forçou os membros do conselho recém-eleitos a renunciar, de armas apontadas. Foi um motim, organizado e planeado com antecedência e com a ajuda de pessoas em cargos de governo, para que pudessem permanecer no poder – os chatos resultados eleitorais que se lixem.

Ao contrário do ataque ao Capitólio este ano, o golpe foi bem-sucedido. Mas os dois incidentes compartilham alguns fatores subjacentes importantes, disse Suzanne Mettler, professora de governo da Universidade Cornell. No rasto da Reconstrução, a polarização política, o conflito sobre quem conta como “um de nós” (que sempre foi uma questão de raça) e a desigualdade de rendimentos aumentaram, criando o pavio para a insurreição. Há mais de 30 anos que estas mesmas forças vêm ganhando força no país.

Uma das mais tóxicas é a animosidade racial – o ressentimento e a raiva que se concretizam como a crença de que as pessoas de outra raça não são como nós, não são de confiança e não merecem o que mós merecemos. isto é algo que a pesquisa American National Election Studies tem seguido desde 1988, fazendo perguntas aos entrevistados como, se acreditam que os negros americanos devem superar os preconceitos como “os irlandeses, os italianos, os judeus e muitas outras minorias fizeram” e levantar-se pelos seus próprios meios “sem nenhuns favores”, ou se acreditam que os negros americanos estariam tão bem como os brancos americanos” se se esforçassem mais”.

A pesquisa tem mostrado que os níveis de ressentimento racial entre os americanos brancos em relação aos negros praticamente não mudaram desde os anos 80. Mas estas atitudes tornaram-se cada vez mais ligadas às crenças políticas. Veja-se desta forma: a pessoa branca média pode não ser mais (ou mesmo menos) racista do que era há 40 anos, mas o seu nível de racismo agora tem muito mais probabilidade de se correlacionar com tudo, desde a sua ideologia política, em quem votam, como se sentem em relação às pessoas do partido adversário – e até mesmo o seu apoio a políticas específicas em questões como a saúde. Ao contrário do final dos anos 80, o ressentimento racial agora acompanha fortemente as linhas partidárias. “Basta dizer que existe um sério problema de racismo na América – isto por si só já deixa muitos republicanos, muitos apoiantes de Trump, muito zangados”, disse Mason.

A desigualdade de rendimentos também aumentou. Os 20 por cento dos lares dos EUA com maior rendimento capturam uma parcela maior do rendimento geral do país do que há 40 anos, a lacuna entre as famílias mais ricas e mais pobres mais do que duplicou, a geração dos milenares tem muito menos probabilidades do que os baby boomers de ganhar mais do que os seus pais, e em 2019, o departamento do Censo descobriu que a desigualdade económica era a maior desde que o Censo começou a segui-la.

E embora esta tendência tenha afetado americanos de todos os tipos, é também profundamente racializada. Séculos de supremacia branca e décadas de crescente desigualdade produziram um abismo racial de riqueza, onde a segurança económica é especialmente difícil para as famílias de cor.

E existem ainda mais tendências desestabilizadoras que também se poderiam incluir no nosso momento atual, como a crescente desconfiança (e ressentimento) em relação ao governo e às instituições públicas. Ou a segregação social que separa os americanos em silos sociais onde todos os que conhecemos pessoalmente são muito semelhantes a nós.

Todas estas tendências, especialmente quando se sobrepõem e se reforçam mutuamente, ajudam a criar uma atmosfera em que a violência contra os oponentes é racionalizada e a política se torna um jogo de vencer a qualquer custo. isto manifestou-se de forma diferente entre pessoas de ideologias distintas. Embora o apoio à violência política seja quase igual entre democratas e republicanos nos dados da pesquisa, a direita produziu significativamente mais violência política no mundo real neste país na última década, de acordo com a Base de Dados Global de Terrorismo.

Apesar disso, a maneira como todos nós pensamos sobre as divergências públicas mudou, disse Jennifer McCoy, professora de ciência política da Georgia State University. Há uma diferença entre “Não gosto das tuas ideias” e “Não gosto de ti”. Também há uma diferença entre “Eu não gosto de ti” e “Não tens direito legítimo ao poder político e não o mereces”. Eventualmente, chega-se a um lugar onde cada vez menos pessoas acreditam no governo por e para todo o povo.

Apesar de mais de cem anos de diferença, um motim para derrubar uma eleição evocou o outro.
[CORTESIA DO CAPE FEAR MUSEUM / LEV RADIN / PACIFIC PRESS / LIGHTROCKET VIA GETTY IMAGES]

Não se trata de causa e efeito absolutos. Provavelmente podemos deixar a nossa democracia apanhar uma molha ou dar-lhe de comer depois da meia-noite de vez em quando, sem que caia para aí o inferno. Mas quanto mais tendências estão em jogo, mais sedutor se torna o extremismo (de qualquer tipo). Neste momento, estamos sentados com um prato de esparguete emaranhado – tendências políticas preocupantes que se amarram de formas que quase garantem que, se estivermos a engolir uma delas, acabaremos por ter outra na ponta do garfo. Afinal, os níveis mais altos de desigualdade económica estão relacionados com um aumento dos crimes de ódio. A crescente desconfiança em relação ao governo está associada a um maior apoio a candidatos políticos outsiders – que, por sua vez, tendem a usar retórica que retira a legitimidade, ainda mais, a políticos e instituições governamentais exteriores a eles. “Eles podem não ser capazes de articular isto, [mas quando se vê] uma pessoa a espumar pela boca ao lado de outra pessoa que parece razoável... elas se encaixam-se, por causa dessa experiência latente vivida com relação ao que está a acontecer", disse Christian Davenport, professor de ciência política da Universidade de Michigan.

E é por isto que a polarização política é uma das tendências mais preocupantes. Não só cresceu aos irregularmente desde os anos 1980, mas também está ligado a tudo o resto – raça, desigualdade e até mesmo em quem temos a hipótese de votar nas eleições gerais. Como nos sentimos em relação a outros americanos que não compartilham das suas crenças, molda o quanto estamos dispostos a abraçar a democracia.

PARTE 2

A nação da polarização

Quem ocupa a Casa Branca – e se ele realmente representa os americanos – alimentou protestos para cada partido nos últimos cinco anos.
[MARK MAKELA / SAUL MARTINEZ / BLOOMBERG / GETTY IMAGES]

Se somos republicanos ou democratas, é provável que não gostemos da ideia do nosso filho se casar com um membro do partido oposto. E, conscientemente ou não, provavelmente procuramos amigos da mesma tribo política. No entanto, não nos sentimos assim por causa de divergências sobre políticas, mesmo quando se trata das questões mais controversas. Em vez disso, tudo se resume a um tipo de partidarismo mais básico, visceral, "nós-contra-eles" que é muito difícil para um único político desfazer.

Quando Mason observou a forma como as pessoas estavam dispostas a realmente viver as suas vidas ao lado de gente de um partido diferente – casar-se com eles, ser amigo deles, morar na casa ao lado deles – descobriu que a identidade partidária era um indicador duas vezes mais forte do que as suas próprias visões em questões políticas. Desacordo sobre imigração, assistência médica ou controlo de armas de fogo tinha muito menos efeito do que se a outra pessoa fosse identificada como um partidário oposto. Neste estudo e noutros, Mason descobriu que o alinhamento cada vez mais claro entre as nossas lealdades partidárias e outras partes de nossa identidade – raça, religião, educação – tornou a política numa parte integrante da forma como percebemos o nosso próprio caráter moral e o dos outros.

Ao começar o mandato, Biden não vai precisar só de enfrentar debates sobre questões como impostos ou aborto. Tem que descobrir como aplacar a raiva da parcela significativa de republicanos e democratas que acreditam, no fundo das suas entranhas, que as pessoas que pertencem ao outro partido não estão só erradas – elas são más.

A desconfiança profunda e fundamental que muitos americanos sentem em relação aos membros do outro partido costuma ser chamada polarização afetiva. ("Afetivo" refere-se a sentimentos – neste caso, sobre o nosso próprio partido e o partido oposto.) À medida que estes rótulos políticos penetraram nas profundezas das identidades americanas, a política ganhou o poder de colorir e moldar a maneira como pensamos sobre partes de nós que não são necessariamente políticas. Vários estudos sugeriram, por exemplo, que a perceção pelos americanos da religião como um valor republicano, estimulou na verdade inúmeros liberais a pararem de se identificar como religiosos.

É claro que esta forma profundamente pessoal de polarização se desenvolveu junto com outras tendências divisivas sobre as quais falámos anteriormente, como o aprofundamento da segregação e do isolamento social, o aumento da desigualdade de rendimento e a erosão da confiança nas instituições. As identidades políticas dos americanos estavam a ser alimentadas – e, em certo sentido, a absorver – estas mudanças. É difícil encontrar um momento na história americana em que as atitudes raciais não tenham sido uma questão política divisiva, mas ao longo da última década ou mais, os debates sobre a existência de discriminação racial, sobre quem é discriminado e o que devemos fazer a respeito disso, têm cada vez mais vindo a definir cada partido.

[LUKE SHARRETT / GETTY IMAGES]

À medida que o Partido Republicano se encostava cada vez mais à sua base branca, o primeiro presidente negro do país concorreu pelo Partido Democrata e o partido tornou-se cada vez mais progressista em questões como raça e imigração. Os políticos republicanos, por outro lado, tinham cada vez mais incentivos para abraçar políticas e retórica que privilegiavam os americanos brancos nativos. esta classificação, disse Mason, permitiu que as próprias partes representassem diferentes atitudes raciais. “Nós como que criámos uma situação na qual, em vez de ser racista contra, por exemplo, os negros americanos, se pode simplesmente odiar os democratas”, disse Mason.

Ao mesmo tempo, outras forças divisivas parecem ter colapsado umas sobre as outras e ter-se auto-reforçado. Quando o cientista político de Harvard, Robert Putnam, identificou um declínio preocupante no engajamento social dos americanos há mais de 20 anos, a política não arcou com todo o peso da culpa. (Putnam, em vez disso, apontou o dedo a outros fatores, como mudança de geração e televisão.) Mas agora é bastante claro que muitas pessoas não se cercam só de amigos, cônjuges e vizinhos que pensam como eles politicamente – estas bolhas sociais reforçam a sensação de que as pessoas que pensam de forma diferente são verdadeiramente estrangeiros.

De acordo com uma pesquisa recente conduzida pelo Survey Center on American Life, do American Enterprise Institute, muitos americanos (principalmente americanos brancos) flutuam em círculos onde nunca têm interações significativas com pessoas de diferentes origens raciais ou étnicas. Mas é a falta de diversidade política que, talvez surpreendentemente, parece ter o maior impacto nas opiniões sobre questões como raça. O diretor do Survey Center on American Life e colaborador do FiveThirtyEight, Daniel Cox, apontou que os republicanos que conheciam uma pessoa negra no seu círculo social próximo não tinham opiniões mais progressistas sobre a discriminação racial do que outros republicanos. Mas os republicanos que eram amigos de um apoiante de Biden responderam às perguntas sobre raça de forma muito diferente.

E tudo isto pode ajudar a explicar porque chegámos a um ponto em que tantos americanos pensam que a violência contra membros do outro partido não é só justificada – é necessária. A colaboradora do FiveThirtyEight, Erin Cassese, professora de Ciência Política da Universidade de Delaware, ficou impressionada, durante a campanha presidencial de 2016, com a forma como os candidatos estavam a ser descritos em termos monstruosos e não humanos. Trump era o monstro de Frankenstein. Hillary Clinton era uma cadela. Ela reuniu algumas pesquisas e descobriu que muitos republicanos e democratas comuns viam mesmo os seus oponentes como mais animalescos ou sub-humanos do que os membros do seu próprio grupo – uma tendência que era ainda mais forte para os partidários mais comprometidos.

A desumanização dos democratas pela direita foi alimentada pelo racismo e ressentimento racial e levou a um comportamento mais sombrio e violento. Durante a rebelião no Capitólio em janeiro, algumas pessoas presentes no comício ergueram uma corda do lado de fora do edifício.
[SHAY HORSE/NURPHOTO VIA GETTY IMAGES]

Não é preciso muita imaginação para descobrir aonde este tipo de pensamento nos leva. A desumanização tem ligações claras com conflito e violência. “Ver os nossos oponentes como sub-humanos é uma forma de dizer que eles não justificam consideração moral e tratamento moral”, disse Cassese. “É mais provável que vejamos a oposição como má, em vez de só errada. Não queremos só vencer, queremos exterminar os nossos inimigos.” E há sinais de que uma grande parte dos americanos pode estar a seguir este caminho. De acordo com as pesquisas de Mason e Kalmoe, cerca de 40 por cento dos americanos não só discordam das opiniões do partido oposto – eles acreditam que o outro partido é maléfico.

Estas tendências já existiam em outras bolsas da paisagem americana – e não só entre grupos marginais como extremistas da supremacia branca. Certas tendências do cristianismo, por exemplo, há muito glorificam a violência justa, e a ascensão da direita cristã ajudou a politizar algumas dessas lealdades cristãs. Um estudo recente descobriu que a crença de que a América é um país cristão está intimamente associada a sentimentos anti-imigrantes. E de acordo com um documento de trabalho não publicado de Samuel Perry e Andrew Whitehead, académicos que estudaram o nacionalismo cristão branco, pessoas com pontos de vista semelhantes também têm maior probabilidade de apoiar políticas que tornam mais difícil para os negros votar.

Por outras palavras, tudo é partidário agora. E o tudo-ou-nada tornou-se, consequentemente, a forma como a política é praticada (basta olhar para o impasse parlamentar recente, de meses, sobre um pacote de estímulo para a economia atingida pelo COVID-19). isto não é só o resultado do aumento da polarização, é claro – há uma confusão distorcida de forças em ação. A erosão da confiança nas instituições políticas aumentou a desconfiança na política dominante, o que, por sua vez, alimenta as teorias da conspiração e encoraja os políticos a abraçar políticas marginais, o que torna o compromisso e a desescalada ainda menos prováveis.

E é bastante compreensível porquê. Por exemplo, depois de uma década de renovados esforços de supressão de eleitores pelo Partido Republicano ter dificultado o voto das pessoas de cor, os democratas não confiarão necessariamente nas aberturas republicanas, agora que estes perderam o poder.

Este tipo de coisa é o que acontece quando a polarização se enreda com muitas dessas outras tendências. Isto leva-nos ainda mais fundo na espiral da morte partidária em que já estávamos.

PARTE 3

Sem Saída

[MELINA MARA / GETTY IMAGES / CHRIS KLEPONIS / SIPA USA VIA AP IMAGES]

O motim de 6 de janeiro foi surreal pelas suas cenas de americanos abrindo caminho à pancada através da polícia e a dar caça a políticos. Os protestos subsequentes em janeiro 17, em contraste, também foram surreais, mas duma forma totalmente diferente. Em vez duma insurreição pública, vimos uma demonstração poderosa de força governamental: edifícios do Capitólio estadual cercados por veículos blindados, fileiras e mais fileiras de polícias e militares uniformizados, superando osseus números a pequena afluência de manifestantes que ficaram com pouco mais que fazer a não ser dar sound-bites aos repórteres (os quais, em muitos casos, também os superavam).

Houve alívio naquele momento – o conforto de que, pelo menos, não estamos a descer imediatamente para a nova Guerra Civil que os boogaloo bois passaram o ano passado a tentar começar. Não somos tão parvos.

Mas ainda irados. E suspeitosos. E cínicos. Quarenta anos de tendências sociais não desaparecem só porque uma segunda vaga de ataques não se materializou e Joe Biden está agora encafuado em segurança na West Wing. Afinal, uma das razões pelas quais tão poucos manifestantes de direita compareceram às capitais estaduais, no início deste mês, é que grupos do Facebook e boca-a-boca alegaram que os eventos subsequentes foram secretamente planeados pela Antifa e eram ardis para prender bons patriotas. As pessoas estavam tão dispostas a acreditar no pior umas das outras que viraram cento e oitenta graus e evitaram situações que poderiam ter-se tornado violentas. Mas não podemos contar com esta sorte todo o tempo.

Ainda somos um bando, de armas carregadas, esperando alguém se meta connosco para começarmos aos tiros. A combinação de polarização afetiva, racismo, desigualdade, isolamento e desconfiança radicalizou uma minoria significativa da nação, tornando mais fácil encontrar bodes expiatórios e papões. estas tendências fazem com que o extremismo adicional pareça racional. Tornam-nos alvos fáceis para políticos que jogam com estas tendências para ganhar poder, enquanto só aumentam nosso cinismo e raiva quando tomam posse.

Foi Donald Trump que passou cinco anos a dizer aos seus apoiantes que a eleição seria fraudulenta contra ele, depois disse-lhes que o tinha sido, depois disse-lhes que eram os únicos que poderiam “parar o roubo” e então apontou-os para o Capitólio . Mas cientistas políticos como Brendan Nyhan, um professor de Governo em Dartmouth, dizem que se não fosse Trump a puxar o gatilho, teria sido outra pessoa. Ainda pode ser.

A ciência política oferece algumas pistas sobre o que pode acalmar a nação. As forças mais poderosas que moldam as nossas opiniões são os nossos amigos, os vizinhos e as elites públicas que vemos como “um de nós”. isto significa que a polarização afetiva também tem poder sobre os fatos em que acreditamos e sobre o que, se houver alguma coisa, pode ser feito para curar as fendas entre um lado e o outro. A transição para um novo presidente parece ser um momento oportuno para mudar o zeitgeist, para nos levar “de volta ao normal”. O discurso de posse de Biden tentou fazer exatamente isto, e a pesquisa de Kalmoe e Mason sugere que mensagens pacificadoras de Biden poderiam reduzir o apoio à violência, mesmo entre os republicanos.

O presidente Biden enfrenta agora a tarefa mais difícil: governar um país radicalizado.
[JEENAH MOON / BLOOMBERG VIA GETTY IMAGES]

Mas isto não será fácil – e há razão para se perguntar se o “normal” deveria sequer ser o objetivo. A polarização protege-se e reforça-se. Se, como vimos, 40 por cento dos americanos pensam que o outro partido é mau e 64 por cento dos republicanos acreditam que Trump foi o legítimo vencedor da eleição, então não há provavelmente nada que o presidente Biden ou seu governo possam fazer para unificar o país. Qualquer coisa que proponham – sejam políticas, unidade ou responsabilidade – será visto como ilegítimo por uma parte considerável dos americanos.

E pôr simplesmente a retórica de volta a onde estávamos antes de novembro – ou mesmo onde estávamos em 2016 – não mudará o facto de que todas estas tendências preocupantes também faziam parte do nosso “normal” naquela época.

Além do mais, qualquer tentativa democrata de criar unidade sem enfrentar estas tendências subjacentes traz o risco de minar ainda mais a própria democracia.

Kalmoe está preocupado com o facto do governo Biden assumir a liderança no compromisso, especialmente com algo como o direito de voto. “No século XIX [após a Guerra Civil], a cura significou que os nortistas e sulistas brancos decidiram enterrar o seu conflito à custas do sulistas negros e à custa da democracia”, disse ele. Se republicanos como Mike Pompeo pensam que o multiculturalismo é a antítese dos valores americanos, então o compromisso provavelmente excluiria ou colocaria em desvantagem as pessoas de cor. Biden a pacificar o ressentimento racial da direita pode simplesmente acabar por reforçar a crença de que o país alcançou a igualdade racial – ou mesmo que fomos longe de mais, e são agora os brancos quem está em desvantagem.

Mas mudar estas tendências desestabilizadoras é provavelmente algo que precisa de começar da direita. Isto porque muitas das crenças e comportamentos que ameaçam a democracia americana começaram mais cedo e são mais pronunciados nessa extremidade do espectro político. Sim, ambos os lados se envolvem na desumanização, deslegitimação e conspiração, mas os dois lados não o têm feito da mesma forma, ou no mesmo ritmo. “Os cientistas políticos não querem realmente dizer isto. Mas as evidências estão bem diante de nós e, se vamos resolver o problema, temos que saber qual problema é”, disse Joshua Darr, professor de ciência política da Louisiana State University e colaborador do FiveThirtyEight.

A parcela de republicanos que veem os democratas como uma “ameaça ao bem-estar da nação” é maior do que a parcela de democratas que veem os republicanos como uma ameaça. Os da direita são mais propensos a isolar-se entre pessoas que compartilham opiniões políticas semelhantes. E conservadores consistentes têm menos probabilidade de valorizar o compromisso do que os liberais consistentes.

Mais, os políticos republicanos, preocupados com a perda dos seus lugares nas eleições primárias, provavelmente sobrestimarão o quão conservadores são os seus eleitores – e moldarão as suas políticas de acordo com isso.

Tudo isto se soma a outro sinal de que Biden não pode consertar o rancor partidário afetivo ou as outras tendências que se apegaram a ele, pelo menos não sozinho. As pessoas que o sentem com mais força – e que agem em conformidade – provavelmente não o ouvirão precisamente por causa das crenças que ele não pode mudar.

Talvez, então, as pessoas a quem devemos recorrer sejam as elites republicanas, dizem os especialistas. Não podem resolver tudo, mas pelo menos têm a legitimidade para alinhar parte das crenças dos eleitores com a realidade de uma eleição livre e justa.

Mas se eles quererão fazê-lo – ou mesmo se realmente podem – é debatível. É que, se há um lugar onde não há uma diferença clara entre esquerda e direita, é na forma como ambos os lados se sentem sobre os apóstatas. Ninguém gosta deles. Basta perguntar a Liz Cheney ou, já agora, a Jeff Van Drew. Na verdade, a pesquisa de Mason descobriu que as pessoas que viam o partido oposto como mau tinham três vezes mais probabilidade de desejar a morte aos oponentes dentro do seu próprio partido.

A desordem deixada para trás após a violência no Capitólio foi uma consequência de uma grande desordem socipolítica que este país ainda não limpou.
[MICHAEL BROCHSTEIN / SIPA USA VIA AP IMAGES]

Em vez disto, disseram-nos os especialistas, temos que admitir que não sairemos deste buraco com as mesmas ferramentas que o cavaram. O compromisso pouco significa se só continuar s entrincheirar os problemas que nos levaram a este ponto, disse-nos Davenport. “[Os políticos estão] interessados ma reforma política e não no facto de que as pessoas estão danadas, disse ele.

McCoy sugeriu que uma mudança real, institucional poderia começar com o próprio processo eleitoral. Sabemos que os americanos de ambos os lados da coxia têm dúvidas sobre a fiabilidade do processo eleitoral – dúvidas que ficam temporariamente exacerbadas sempre que o seu lado não vence. Oferecer às pessoas escolhas além da esquerda/direita, eu/outro poderia resolver estas dúvidas e quebrar o poder simbólico (e real) do sistema bipartidário.

Está a falar de mudanças que têm apoio em níveis locais – eleições com voto preferencial nominal e círculos com vários eleitos. Outros estudiosos sugeriram reformas como a eliminação do Colégio Eleitoral ou a mudança da estrutura do Senado. Mas todas estas mudanças provavelmente causariam desconforto a muitos políticos nacionais – especialmente os republicanos, que são quem mais beneficia com o status quo. Por exemplo, desde 2017, houve 14 projetos de lei apresentados no Congresso que teriam promovido a votação por voto preferencial nominal de alguma forma – nenhum deles se tornou lei. Ironicamente, a falta de apoio à quebra do sistema bipartidário é muito bipartidária, talvez porque qualquer mudança exigiria que os políticos abrissem mão de poder.

Mas o que já deve ter-se tornado claro é que voltar às táticas políticas pré-Trump não mudará muito. Apelos ao bipartidarismo não resolverão a polarização afetiva. Fazer os americanos brancos sentirem-se melhor não vai reduzir o racismo. As mesmas políticas económicas que implementámos por quatro décadas, provavelmente, não reduzirão a desigualdade. Manter uma linha dura no Congresso não fará os americanos sentirem que a política funciona para eles. Mudar qualquer coisa em nossas táticas só aprofundará o extremismo e aumentará a ameaça de violência que paira sobre as nossas cabeças.

“Sei que falar de unidade pode soar atualmente, para alguns, como uma fantasia tola”, disse Biden no seu discurso inaugural. Mas ele fez isso, de qualquer modo – falando sobre abrir as nossas almas e mostrar tolerância e humildade. Foi um discurso que mostrou que temos um presidente que, pelo menos, vê o problema em questão e espera que seja algo que ele possa superar.

Infelizmente, esperar que isto aconteça não é a mesma coisa que saber como fazer.

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