22 de janeiro de 2021

A direita contra a semântica – 1

Traduzi dois artigos de Doug Muder, no blogue The Weekly Sift, que tratam de assuntos importantes, mas que costumam passar abaixo do radar. O primeiro, The Orwellian Misuse of “Orwellian”, é recente; o segundo, Newspeaking about torture, é de 2014, mas tratam do mesmo assunto: de como a direita procura destruir as palavras que a esquerda usa para a caraterizar.

O segundo artigo traduzido, Novifalar sobre tortura, está aqui.

O abuso orwelliano
de “orwelliano”

Um tema ao qual volto de vez em quando é como a direita pega numa palavra que foi efetivamente usada contra ela e a destrói por meio de abuso repetido. Não tenho a certeza de quando esta prática começou. Provavelmente já estava a acontecer há algum tempo antes que eu percebesse. Eu estava a ler Liberal Fascism de Jonah Goldberg, um livro de 2008 cujo propósito aparente é destruir qualquer noção que um leitor possa ter do fascismo real. (Sabiam que Hitler era vegetariano? Tomem lá, liberais!)

Destruir palavras nem sempre funciona – o governo Bush e os seus apologistas nunca destruíram completamente a palavra "tortura" – mas acontece com frequência. Um dos grandes sucessos recentes da destruição conservadora de palavras é “fake news” (notícias falsas), um termo outrora útil que originalmente se referia a links de aparência séria inventados para serem clickbait de media social e atribuídos a sites supostamente de jornais, mas que não eram (Por exemplo, não existe nenhum Denver Guardian.)

A campanha de 2016 de Donald Trump foi grande beneficiária de notícias virais falsas, como o “agente do FBI suspeito em fuga de e-mail de Hillary encontrado morto em assassínio-suicídio” do Denver Guardian, que foi compartilhado no Facebook mais de meio milhão de vezes, apesar de ser uma ficção completa não relatada por nenhuma organização de notícias real. A promoção de notícias falsas foi, de facto, uma das principais formas pelas quais a Rússia apoiou Trump. Obviamente, isto não era coisa de que Trump quisesse que as pessoas falassem, ou mesmo pensassem. Tinha que se fazer alguma coisa.

Assim, através do abuso repetido, Trump capturou “notícias falsas” e redirecionou-as para se referirem a notícias corretas de que não gostava. Como resultado, “a media falsa” já não traz à mante o Denver Guardian. Em vez disso, agora abrange o Washington Post, o New York Times e a CNN.

Hoje, se usarmos “notícias falsas” no seu sentido original, ninguém saberá o que queremos dizer. Missão cumprida.

Atualmente, estamos a testemunhar uma campanha de vários anos para destruir a palavra "socialismo", que George Orwell às vezes usava para descrever sua própria filosofia política. Mas num mundo em que Joe Biden e Jon Ossoff são “socialistas radicais”, como é que se pode iniciar uma conversa sobre a propriedade pública dos meios de produção? Este crimepensamento ainda não é impossível, mas está a tornar-se cada vez mais difícil.

A “liberdade religiosa” é igualmente destruída. Agora, refere-se principalmente ao privilégio cristão. Portanto, os cristãos podem ignorar as leis anti-discriminação porque têm “liberdade religiosa”. Entretanto, o resto de nós só tem “liberdade religiosa” em situações em que os cristãos conservadores concordam connosco. Por exemplo: a "liberdade religiosa" de um farmacêutico cristão é violada se ele tiver que aviar uma receita de anticonceptivos e, portanto, um farmacêutico de outra religião pode reivindicar um privilégio semelhante. Por outro lado, se uma empregada de mesa hindu não quiser servir bifes, é melhor arranjar outro emprego; despedi-la não criaria nenhum tipo de questão sobre liberdade religiosa.

Mas a última palavra que Trump e seus aliados têm tentado destruir é particularmente irónica: “orwelliano”. Vox explica:

“Quando Josh Hawley e Trump Jr. usam o termo “orwelliano”, estão a entregar-se precisamente ao tipo de ofuscação preguiçosa e desonesta contra a qual Orwell protestou. Eles agarram na névoa de associações imprecisas que se acumularam em torno da palavra – mau, distópico, alguém nalgum sítio provavelmente a exagerar? – e tentam vinculá-la a questões tão urgentes de direitos humanos, como um político perder o contrato do seu livro depois de um escândalo ou o homem mais poderoso do mundo ser expulso de uma plataforma de media social. Estão, para colocar a questão em termos que Orwell aprovaria, a mentir. Fingem que ações muito razoáveis de empresas privadas são o mesmo que o governo sequestrar cidadãos e enfiar-lhes as caras em gaiolas cheias de ratos para lhes fazer lavagem ao cérebro. E tentam convencer os seus seguidores a fingir a mesma coisa, até que o fingimento se torne real e todos concordem em acreditar na mentira.”

Originalmente, “orwelliano” tinha uma variedade de significados relacionados, todos derivados diretamente do clássico distópico de George Orwell “1984”. A palavra pode, por exemplo, referir-se a uma mentira ousada que inverte completamente a verdade, como os slogans do partido de “1984”: “Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força.”

A declaração de Rudy Giuliani “A verdade não é a verdade” – que supostamente explicava como um homem honesto como Trump poderia cometer perjúrio se testemunhasse sob juramento – é orwelliana neste sentido. Mas também o é a afirmação de Trump de que os democratas estão a roubar as eleições de 2020, porque esta afirmação é, ela própria, o centro da tentativa de Trump de roubar as eleições de 2020. A mentira relacionada de que a “fraude eleitoral” democrata se concentrava em cidades de maioria negra como Detroit, Atlanta e Milwaukee é igualmente orwelliana, porque os negros dos centros das cidades são precisamente as pessoas com maior probabilidade de perderem os seus direitos por táticas republicanas como gerrymandering e supressão de eleitores.

“Orwelliano” também pode referir-se legitimamente à exigência da parte de uma autoridade de que acreditem no que lhes é dito, em vez de no que podem ver por si mesmos. Este uso deriva desta citação de “1984”:

“O partido disse-vos para rejeitar a evidência dos vossos olhos e ouvidos. Era a sua ordem final e mais essencial.”

Então, Trump estava a ser orwelliano quando disse numa convenção de veteranos de guerra VFW: “Mantenham-se apenas connosco, não acreditem na merda que se vê dessa gente, as notícias falsas... Lembrem-se só que o que vocês estão a ver e o que estão a ler não é o que está a acontecer.”

Mas, provavelmente, o significado mais puro de “orwelliano” iria aplicar-se ao processo que estou a descrever aqui: destruir uma palavra de modo que a ideia que ela uma vez capturou tão bem se torne inexprimível. Como Orwell escreveu em “The Principles of Newspeak“:

“O propósito da Novilíngua não era só fornecer um meio de expressão à visão do mundo e hábitos mentais próprios dos devotos do Ingsoc, mas tornar todos os outros modos de pensamento impossíveis... isto foi feito em parte pela invenção de novas palavras, mas principalmente pela eliminação de palavras indesejáveis e por retirar às palavras que permaneciam os significados não ortodoxos e, na medida do possível, todos os significados secundários.”

Se Trump e seus aliados conseguirem destruir “orwelliano”, terão percorrido um longo caminho no sentido de remover este pensamento da mente do público. Então, “orwelliano” terá perdido todo o conteúdo substantivo e tornar-se-á simplesmente uma forma de obscurecer: "Disseste algo de que eu não gosto.”

E teremos perdido qualquer termo que exprima o que acabou de acontecer.

 

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